segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Repúdio mundial a Trump

Protesto contra Trump no dia de sua posse em Washington. AFP PHOTO / Andrew CABALLERO-REYNOLDS
Por Simón Rodríguez Porras*
O novo presidente dos Estados Unidos assumiu o cargo em meio a uma onda mundial de repúdio. Durante a sua posse em Washington, no dia 20 de janeiro, houve grandes manifestações, com repressão policial e mais de duzentas pessoas detidas. Foi a demonstração de repúdio mais importante desde a posse de Richard Nixon, rejeitado por mais de 60 mil pessoas em 1973. No dia anterior, milhares de pessoas haviam-se concentrado em Nova York para repudiar o presidente empresário, um presidente racista, misógino, xenófobo e belicista. Mas foi no dia seguinte à posse que se viu a demonstração mais contundente do repúdio dos povos ao novo chefe político da principal potência imperialista. Com a Marcha das Mulheres, meio milhão de pessoas saíram às ruas contra Trump em Washington, e um milhão e meio em quinhentas cidades dos cinco continentes.
Os integrantes do novo governo do Partido Republicano, muitos dos quais são oriundos da extrema direita cristã retrógrada e xenófoba, ameaçam diretamente o direito ao aborto. O próprio Trump tem-se revelado abertamente misógino, com um longo histórico de declarações machistas e agressão às mulheres, o que, para milhares de pessoas, justificou amplamente a necessidade de se mobilizarem.  A juventude e os estudantes, que, desde a eleição, se mobilizam contra “o Donald”, também reforçaram em grande número as manifestações, ao lado dos latinos, negros, muçulmanos e membros da comunidade LGBT, também atacados nos discursos do novo presidente. Trata-se de um movimento amplo, talvez sem a radicalidade das lutas de outros tempos nos EUA, como as ocorridas durante a invasão do Vietnã, mas com enormes possibilidades de se desenvolver e amadurecer no calor da luta contra um governo reacionário que reflete a crise e a decadência do império. Nele coexistem ativistas de várias tendências, desde os ligados a movimentos como Occupy Wall Street, surgido em 2011 contra a desigualdade capitalista, ou o Black Lives Matter, contra a brutalidade policial racista, até os simpatizantes de Clinton e Obama e mesmo os que apoiaram Sanders nas primárias e depois se abstiveram, além de militantes das pequenas organizações de esquerda. A ameaça representada por Trump fez crescer o interesse pelo ativismo e aumentar o número de filiações nas organizações de defesa dos direitos humanos, das liberdades civis e das políticas de planejamento famíliar.
As primeiras ações do novo governo confirmam que só se pode esperar o pior. Num alarde ultranacionalista, Trump proclamou o dia de sua posse como “Dia Nacional de Devoção Patriótica”, num decreto que reza “não haver povo mais grandioso que os cidadãos estadunidenses” e que “acreditando em nós mesmos e em nosso país não há nada que não possamos conseguir”. Suas primeiras decisões incluem a proibição de financiamento federal para ONGs de planificação familiar que defendam a opção do aborto, como também o estímulo aos oleodutos Keystone e Dakota Access, paralisados por importantes lutas sociais. Outras decisões retiraram os Estados Unidos das negociações para o Acordo Transpacífico de Cooperação Econômica (TPP, em inglês) e proibiram os membros da Agência de Proteção Ambiental de se manifestarem na imprensa. O novo governo pretende também retirar os EUA do Acordo de Paris e outros convênios internacionais que impõem limites à emissão dos gases responsáveis pelo efeito estufa e o aquecimento global. Além disto, pretende flexibilizar a concessão de autorizações ambientais para as empresas, ao mesmo tempo em que anuncia a ampliação do muro na fronteira com o México e a proibição de entrada para imigrantes provenientes do Oriente Médio e Norte da África.
No caso do oleoduto Dakota Access, que passaria sob o lago Ohae com risco para importantes fontes de água, a luta da comunidade sioux Standing Rock, apoiada por milhares de ativistas, ganhou notoriedade internacional em razão da brutalidade da repressão. Durante vários meses o governo reprimiu os manifestantes com cães, disparos e jatos d’água, realizando dezenas de detenções. Finalmente, em dezembro de 2016, Obama suspendeu a construção do oleoduto e determinou a mudança do seu trajeto. Trump, que até cerca de um ano atrás possuía um milhão de dólares em ações da Energy Transfer Partners, empresa texana encarregada do projeto, designou Rick Perry, membro do diretório da mesma empresa, para chefiar a Secretaria de Energia. Portanto, não surpreende que uma de suas primeiras medidas seja dar novo impulso ao projeto do oleoduto. Outras nomeações reveladoras da orientação fascistizante de Trump incluem a de Rex Tillerson, ex-membro da direção da Exxon Mobil, para a Secretaria de Estado, e a do ultra sionista David Friedman para ocupar a embaixada norte-americana em Israel.
A brutalidade do novo governo poderia gerar falsas expectativas sobre o papel do Partido Democrata como alternativa de oposição, e já se cogita de uma possível futura candidatura de Michelle Obama. No entanto, esta opção exige previamente um balanço dos últimos oito anos de governo. Apesar de Obama vestir a máscara de um imperialismo mais “brando”, no seu governo continuou aumentando a desigualdade social e, enquanto financiava os bancos e as multinacionais, milhares de pessoas perdiam suas casas na crise imobiliária e persistiam todos os problemas estruturais de racismo e discriminação. Sem ter fechado o campo de torturas de Guantánamo, como havia prometido, e com o saldo de quase três milhões de deportações, Obama foi sarcasticamente apelidado de “deportador em chefe”. Além disto, ordenou milhares de bombardeios com drones que assassinaram milhares de civis em países como Iraque, Afeganistão, Iêmen e Paquistão,  protegeu os torturadores da CIA e criminalizou os que, como Manning, Assange e Snowden, facilitaram a divulgação de documentos reveladores dos crimes de guerra praticados pelos EUA em várias partes do mundo.
Bernie Sanders, que se apresenta como socialdemocrata e crítico em relação ao antidemocrático regime ianque, logo após o apoio recebido nas prévias do Partido Democrata com um programa à esquerda dos políticos tradicionais do bipartidarismo, que defendia o aumento do salário mínimo e a universalidade do acesso à saúde e à educação, repudiando a ingerência na  América Latina, encerrou lamentavelmente a sua campanha apoiando a candidatura de Clinton. Com a vitória de Trump adotou uma posição ambígua, afirmando que apoiará as medidas do novo governo favoráveis aos trabalhadores e se oporá àquelas que prejudiquem a população. No Senado, foi contrário a algumas nomeações de Trump, mas, por outro lado, apoiou para a Secretaria de Defesa a designação de James Mattis, um general racista que cometeu atrocidades no Iraque e Afeganistão.
O legítimo ódio de milhões de pessoas a Trump e seu governo põe em evidencia a necessidade de uma alternativa política de esquerda, que reúna a juventude e os trabalhadores, os negros e as mulheres para romper com o regime de dois partidos dominado pelos democratas e republicanos. É agora o momento de construir esta alternativa, no calor das mobilizações de milhares de pessoas contra o novo governo e suas criminosas medidas.
*Membro da Unidade Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (UIT-CI)
Fonte: http://cstpsol.com/home/index.php/2017/01/27/repudio-mundial-a-trump/

sábado, 28 de janeiro de 2017

Donald Trump: O 11 de setembro, a mídia islamofobica e o crescimento da xenofobia.


por Tailson Silva

Uma semana após chegar à Casa Branca, Trump assinou o decreto "Proteger a Nação da entrada de terroristas estrangeiros nos Estados Unidos", que prevê a suspensão total, durante 120 dias, do programa de admissão de refugiados, assim como o congelamento, por três meses, da entrada no país de pessoas provenientes de sete países muçulmanos: Iraque, Irã, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen.

Numa entrevista ao canal Christian Broadcasting Network, Trump disse que dará prioridade na solicitação de refúgio a cristãos sírios. A preferência aos cristãos e a exclusão dos muçulmanos é uma medida de caráter discriminatória contra os povos que professam religiões não ocidentais, baseada no orientalismo moderno (islamofobia) e no choque de civilizações.

Para o intelectual palestino Edward Said "a relação entre Ocidente e o Oriente é uma relação de poder, de dominação, de graus variáveis de uma hegemonia complexa. O orientalismo, não foi, portanto, apenas o resultado de ocupações militares. Foi principalmente um investimento continuado que criou um sistema de conhecimento sobre o Oriente, uma rede aceita para filtrar o Oriente na consciência ocidental, assim como o mesmo investimento multiplicou - na verdade, tornou verdadeiramente produtivas - as afirmações que transitam do Orientalismo para a cultura em geral."

Segundo o cientista político norte-americano Samuel Huntington a teoria do choque de civilizações discute que as identidades culturais e religiosas dos povos serão as principais fontes de conflito no mundo pós Guerra Fria. Para Huntington os conflitos de grandes proporções não sucederão entre as classes sociais e sim entre os povos pertencentes a diferentes entidades culturais e religiosas.

Os confrontos e disputas religiosas, ideológicas e políticas constantes entre as civilizações ocidentais e islâmicas, ocorrem pelo fato das mesmas serem as únicas a possuirem desígnios de desenvolvimento e ambições universalistas. Uma teoria que prega a supremacia da sociedade ocidental sobre os povos do oriente.

Com o atentado em 11 de setembro de 2001, a burguesia ocidental em conjunto com a imprensa ocidental precisavam justificar a política belicista do novo século americano de George W. Bush sobre o oriente médio. Ou seja, foram as teorias do orientalismo e do choque de civilizações que construíram os consensos que permitem e legitimam as atrocidades americanas no Oriente Médio, em busca do saque das riquezas desses países e da estabilidade pró yankee na região. Da mesma forma se dá com o Estado de Israel, formado por uma ideologia ocidental: o sionismo, para impor a colonização da palestina histórica. Israel serve-se da teoria orientalista, para submeter de maneira brutal os palestinos dentro e fora do seu território.

A partir de 2001, a imprensa ocidental criou em nossas cabeças um modelo idealizado dos árabes durante o último ciclo de invasões americanas no Oriente Médio: O árabe ou muçulmano como terrorista! Toda semana as notícias que envolvem o mundo árabe ou muçulmano retratam de forma descriminatória os povos desses países com um forte teor orientalista que nos rementem a ideia de povos atrasados, fanáticos religiosos e terroristas. Fantasia vestida em cada palestino que resiste contra a agressão sionista.

A islamofobia ganhou novos contornos com os recentes atentados terroristas de autoria de grupos jihadistas na Europa. Assim como, com a explosão de conflitos políticos e territoriais no norte da África e no oriente médio, que produziriam a maior leva de refugiados no mundo desde a 2° Guerra Mundial: 65 milhões em 2016 segundo a ONU. Toda semana milhares de mortes no mediterrâneo e a imprensa ocidental fazendo vista grossa sobre o crescimento das barreiras (muros) e das políticas anti-imigração por parte dos governos da Europa.

Nunca se posicionando de forma contundente contra as políticas destes governos, ao passo que a cada ataque terrorista, destilava rios de xenofobia e de islamofobia, o que paulatinamente foi produzindo condições ideológicas para o crescimento entre a população, das idéias reacionárias da extrema direita e do nacionalismo europeu, norte-americano e ocidental. Processo que ajudou a levar Trump a Casa Branca e que de repente assusta a imprensa orientalista ocidental.

Será uma preocupação de fato ou será uma oposição fake para tentar conter os ânimos dos lutadores do planeta, numa estratégia de preservar estrutura capitalista mundial? Nossa resposta a islamofobia, ao orientalismo, ao choque de civilizações e a xenofobia deve ser a solidariedade e a exigência aos governos europeus e do mundo, do fim das fronteiras, das deportações e a garantia de legalização aos refugiados e imigrantes, que querem reconstruir suas vidas em qualquer parte do nosso mundo!
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Tailson Silva é professor de Geografia da rede pública e militante da CST/PSOL.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Burguês não faz caridade, faz negócio. Novamente a Big Ben

Em novembro de 2011 o Ministério Público do Estado do Pará (MPE) instaurava investigação criminal para apurar crime de "formação de quadrilha" para "defraudar o fisco". Sobre o episódio, fiz uma publicação (clique aqui para ler) em que já chamava atenção do MPE e demais autoridades para outros prováveis crimes cometidos pela organização. Lavagem e estelionato. Como configura o atual caso envolvendo o Grupo Big Ben e a família Aguilera. Como a gente sempre ouve dizer: burguês não faz caridade, faz negócio. 
Eis que novamente os donos da Big Ben são pegos com a boca na botija. Defraudar o fisco e enganar o povo deve ser viciante. Agora estavam desviando o troco que iria, suspotamente, para instituição de caridade. Quão bondosos eles são, o bom velhinho ou boa velhinha pensariam. Só que não! Uma parte, pequena, até que ía para um projeto de carirade. O restante era investido em título de capitalização com os divendendos todos revertidos para o Grupo Big Ben. Vejam só...

Sobre isso, vale muito a leitura da matéria publicada nesta quinta-feira, 26, no site Ver o Fato, editado pelo jornalista Carlos Mendes:


E A BIG BEN, HEIN? QUE VERGONHA, ENGANAVA SEUS CLIENTES E EMBOLSAVA O TROCO


O MPF enquadrou a Big Ben, que escondia a verdade dos clientes.
Sob o silêncio acusador dos meios de comunicação de Belém - jornais, rádios e TVs, que sobrevivem das verbas publicitárias do grupo, privando de informação seus leitores, ouvintes e telespectadores enganados que adquirem produtos nessa rede de farmácias - o Grupo Big Ben foi pego de calças curtas, mas bolsos cheios, pelo Ministério Público Federal (MPF). 

O negócio é o seguinte: você já se acostumou a ir nas farmácias da Big Ben e depois de fazer a compra e pagar no caixa, ouvir um meloso convite para doação do troco a uma entidade assistencial. O próprio redator do Ver-o-Fato, pensando que estava fazendo alguma doação, por exemplo, para o Hospital Ophir Loyola, ou alguma entidade carente, deixava o troco na Big Ben.

Era um golpe. O grupo tinha um contrato com uma tal de Icatu Capitalização, mas não explicava ao cliente da farmácia se ele tinha interesse em fazer a doação. A Big Ben ganhava uma ponta e porisso engolia a informação ao cliente de que aquilo não era doação coisa nenhuma, mas apenas um investimento num título de capitalização. 

Depois de confrontada com a mentira, a rede de drogarias Big Ben, que atua no Pará, Paraíba, Maranhão, Pernambuco e Piauí, acatou uma recomendação do Ministério Público Federal (MPF) no Pará e comprometeu-se a informar melhor os consumidores sobre venda de títulos de capitalização da linha denominada Troco Premiado. 

Segundo o MPF, em vez de perguntar aos consumidores se eles têm interesse na “doação” do troco a entidade assistencial, os vendedores deverão passar a perguntar se os consumidores têm interesse em adquirir título de capitalização que lhes confere o direito a participação em sorteios, com a cessão de seu direito de resgate – correspondente a metade do valor investido – em favor de instituição filantrópica".

Assinada pelo procurador da República Bruno Araújo Soares Valente, a recomendação foi elaborada a partir de inquérito aberto após denúncia de consumidor ao MPF que sentiu-se lesado quando, ao ser convidado por funcionário de uma loja da rede Big Ben a doar seu troco a instituição filantrópica, descobriu que, na verdade, havia realizado a aquisição de título de capitalização.

O MPF realizou vistorias em várias lojas da rede, e confirmou que a abordagem denunciada pelo consumidor era a forma padrão de venda do título.
Questionada pelo MPF, a Big Ben a confirmou que o que ocorre é a venda de título de capitalização por meio da qual a rede de drogarias recebe remuneração pela emissora do título, a Icatu Capitalização.

“Essa situação representa indução a erro aos adquirentes do título, visto que a eles é feita uma oferta de doar seu troco a uma instituição filantrópica, não lhes sendo informados que estão, na verdade, adquirindo títulos de capitalização, que inclusive lhes confere a possibilidade de participar de sorteios, e que realizam a cessão para a instituição filantrópica indicada de apenas metade do valor investido, gerando lucros para a sociedade de capitalização emissora do título e estabelecimento comercial no qual é feita a aquisição”, criticou na recomendação o procurador da República.

Além de atuar para que, ao ofertarem os títulos de capitalização, seus funcionários sejam claros quanto ao produto oferecido, a empresa comprometeu-se a afixar e manter, nos caixas de seus estabelecimentos comerciais, pelo prazo de 30 dias, cartazes com essas informações e, por pelo menos três dias, incluindo um domingo, divulgar esses esclarecimentos nos jornais do Pará, onde está a maioria das lojas da rede.

Denúncias - Caso os consumidores queiram denunciar a ocorrência de eventual desrespeito, por parte da rede Big Ben, aos compromissos assumidos pela empresa em relação à venda de títulos de capitalização, ou irregularidades similares que possam estar sendo promovidas por outras empresas, além de poderem ir pessoalmente às unidades da instituição os interessados podem utilizar a internet, pelo site http://cidadao.mpf.mp.br, ou pelo aplicativo SAC MPF, gratuito para smartphones dos sistemas Android ou iOS.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Crônica de uma cidade arrasada II


Belém do Pará é uma cidade sitiada. Carro preto, carro prata. Homens encapuzados. Não adianta correr. Como dizem na quebrada, "é sal colorau". Expressão para o fim. Neste caso, de vidas. Dezenas e dezenas delas. Ano passado, segundo levantamento de matéria nesta semana do jornalista Carlos Méndes para O Estado de São Paulo, no Pará foram quase duas mortes por dia. O quinto estado mais violento do país. Na matéria, o promotor de justiça militar, Armando Brasil, falou que o povo está com medo. Óbvio ululante...

O povo está com medo e revoltado. Ninguém aguenta mais tanto abandono e descaso. A segurança pública é de responsabilidade, em primeira instância, do governador Simão Jatene (PSDB). Mas isso não isenta de responsabilidade o mandatário mor do país, do presidente da República fraco e ilegítimo, Michel Temer (PMDB). Contudo, o prefeito pode contribuir (e muito!) para reduzir o índice de violência e sofrimento físico, psíquico e social da população do município. Mas éo que nem de longe se presencia em Belém, no Pará e no Brasil.

A foto acima, do sofá e do lixo, fiz hoje de manhã na Conselheiro Furtado com Guerra Passos. É mais uma prova da violência a que o povo de Belém está submetido. Cotidianamente. 
Um sofá ainda em aparente bom estado. Quantas histórias guardaria? Não foi parar a toa ali. Quem deixaria ele quase no meio de uma avenida da capital? 

Acertou quem disse a chuva. Mas a chuva só não explica. A chuva sempre caiu. Como é comum a gente ver os mais velhos dizerem: "aqui não enchia". E se enche é porque tem um responsável. Ou vários. O povo e a chuva são vítimas.

Zenado Coutinho (PSDB), prefeito de Belém,  violenta a população quando faz propaganda eleitoral enganosa, um verdadeiro estelionato eleitoral. Violenta quando tem pedido definitivo de cassação de seu mandato por parte do Ministério Público Eleitoral do Estado. Violenta quando deixa de manter as coletas regulares de lixo, quando não oferece formas sustentáveis de coleta e destinação adequada dos resíduos sólidos. 
Zenaldo, Jatene, Temer, violentam o povo de todas as formas. 

Poderia ser a foto de um presídio tomado pelas facções. Poderia ser a imagem de mais um corpo estendido. Mas é de um sofá e seus amigos entulgos. Um sofá que deveria estar descansando o corpo de algum trabalhador. Que recebeu visitas. De tantas histórias para contar. Quem sabe? Hoje é mais um grande candidato a ser casa de parasitas. Ou, de repente, pega carona na próxima enxurrada até o canal mais próximo. De repente rola entupir o esgoto. Ser parte decadente de mais caos e violência para o povo.

Povo esse que não deve ficar assitindo a banda e o sofá passando, o carro preto e prata mantando, a polícia comandando milícia e o político desviando dinheiro público da saúde, educação, saneamento e segurança. As eleições passadas, com o inédito e surpreendente número de abstenções, votos nulos e brancos em todo o país, são a expressão do descontentamento dos brasileiros. 

Eles já cansaram desse velho Regime Político. As Jornadas de Junho de 2013 estão na história para corroborar com isso.
É a cara de um povo que aos poucos descobre que, como diria Fagner, "Pra ser feliz no lugar / Pra sorrir e cantar / Tanta coisa a gente inventama / Mas o dia que a poesia se arrebenta / É que as pedras vão rolar". 
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Editado às 22h25 de 25/01/2017.

Crônica de uma cidade arrasada

Postei o texto abaixo hoje cedo no facebook. Em seguida três pessoas comentaram. Inclusive o estudante de letras da UEPA, Eduardo Protázio, que colocou uma estrofe de um poema de Milton Nascimento. Canção do Clube da Esquina. Uma bela resposta para conseguirmos uma saída para os graves problemas que a gente enfrenta na Região Metropolitana de Belém, bem como em todo o país. 

Choveu, choveu. A esquina encheu. A rua encheu. As baratas e os ratos saíram de galera dos esgotos. Com eles a leptospirose, febre tifóide, rota vírus e tudo quanto é doença do trópico úmido subdesenvolvido.
A água empossada e o lixo que abunda pela cidade são o prato cheio para a barbárie da febre amarela (que volta forte matando pelo país) e para a dengue, chikungunya e zika vírus.
Com uma cidade desgovernada, com um prefeito cassado e ilegítimo, sob o qual pairam denúncias graves de improbidade administrativa e de crime de responsabilidade, não temos como esperar melhores dias para os belenenses. A não ser que a gente faça muito protesto e tome as ruas da capital para exigir mudanças e melhorias urgentes.

"E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente
Gente, gente, gente, gente, gente..."

domingo, 22 de janeiro de 2017

Belém registra nova chacina

No mínimo 30 execuções da tarde de sexta a manhã de sábado (21). Tudo após um PM ser lamentavelmente morto por bandidos.
A resposta a morte do soldado foi uma carnificina nos bairros de Belém.

Segundo os jornais, chacina comandada por milícias, que contam com a participação de policiais.

A resposnsabilidade dessa barbárie é do governador do estado Simão Jatene (PSDB) e do presidente ilegítimo Michel Temer (PMDB).
Basta de mortes do povo pobre e de nossa juventude negra!

A legalização das drogas e a desmilitarização da PM são os caminhos para se por fim aos tenebrosos eventos que marcam o sistema penitenciário brasileiro e o genocídio diário de nossa população.
#BastaDeChacinas
#QueremosNossosJovensVivos

Chamem os pescadores

Por irresponsabilidade da Capitania dos Portos, uma embarcação que não deveria estar navegando com passageiros, naufragou na baía do Marajó. O Corpo de Bombeiros e Capitania foram ineficientes em encontrar vários corpos desaparecidos. Os familiares contrataram uns pescadores e todos os corpos foram encontrados e resgatados.
Agora a Aeronáutica e a Marinha do Brasil se dizem incapazes de retirar um teco teco de uma profundidade irrisória. Nele estavam o ministro do Supremo Tribunal Feder Teori e mais 4 pessoas.
Sugestão: duas embarcações e seis pescadores resolvem essa parada.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Belém amanhece com protesto contra o aumento

Vai ter protesto nesta sexta-feira, 20/01, contra o absurdo aumento da passagem de ônibus Belém.
Confira no vídeo gravado em um coletivo, o recado de Samia, estudante secundarista e militande do Coletivo Vamos à Luta e da Corrente Socialista dos Trabalhadores/PSOL.

video

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Santa Casa: caos nosso de cada dia

A Nova Santa Casa começa a apresentar os velhos problemas de superlotação e falta de médico. (Foto: Alzyr Quaresma/Arquivo)

A noite da última sexta-feira (6), foi de angústia para as grávidas que precisaram de atendimento na Santa Casa de Misericórdia do Pará, em Belém. Superlotado e com poucos médicos para dar conta da demanda, o hospital foi alvo de críticas por parte de pacientes, que denunciaram o problema em reportagem exibida pela GloboNews. Algumas gestantes de situação de risco ficaram até 12 horas sem atendimento. Muitas passaram mal e denunciaram que houve casos de grávidas darem à luz até mesmo em corredores e banheiros da Santa Casa.
Revoltados, familiares gravaram vídeo mostrando o drama de quem precisava de médico na instituição. As imagens mostram os corredores do setor de Triagem, onde é feita a avaliação e o protocolo médico, superlotados com mulheres chorando, sangrando e em vias de dar a luz.
As imagens mostram o local lotado, com grávidas esperando em pé por falta de espaço para sentar. Segundo elas, houve paciente que esperou até 12 horas para conseguir atendimento. Mesmo assim, nem todas puderam ser atendidas.
NO BANHEIRO
Mesmo as que vieram do interior com risco de perder o bebê não conseguiram atendimento e voltaram para casa ou tentaram ser atendidas em outras unidades hospitalares. A reportagem mostra que outras gestantes, mesmo em estado grave, também não conseguiram assistência. Nos corredores, algumas pediam ajuda, mas nenhum profissional chegou para prestar assistência imediata. Três delas – em situação de risco – foram transferidas de ambulância para outros hospitais após várias horas de espera.
Ainda de acordo com a reportagem, uma paciente do município de Ourém teria tido gêmeos no banheiro da Triagem. Outra teve o atendimento negado porque o médico alegou que ela não podia ter parto cesariano.
Inaugurada em 2013, a Unidade Materno Infantil “Dr. Almir Gabriel”, conhecida como Nova Santa Casa de Misericórdia do Pará, foi construída para ser referência no atendimento materno infantil. Desde que começou a funcionar no novo prédio, nesta nova fase esta é a primeira vez que a instituição é envolvida em denúncias de superlotação e de incapacidade de atendimento.
Em nota, a assessoria da Santa Casa informou que na noite de sexta-feira havia quatro médicos atendendo normalmente na Triagem. Mas reconheceu o problema, afirmando que a causa seria a alta demanda de pacientes nos últimos meses, principalmente vindas de outros municípios. Segundo a assessoria, o problema foi solucionado no dia seguinte.
(Diário do Pará, a partir do site Xinguara Ativa)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Barros Barreto, uma tragédia anunciada



Imagem do reboco que caiu do teto da ala feminina. Enviada por WhatsApp. 
Atualizado às 21h23, 10/01/2017

No início da tarde de domingo, 08/01, desabou parte do reboco de concreto do teto do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB). Desta vez  no lado oeste do terceiro andar. Justamente na área externa da ala feminina, setor de infectologia. O HUJBB pertence a Universidade Federal do Pará (UFPA), assim como o HU Bettina Ferro de Souza (HUBFS - referência regional em otorrinolaringologia e oftalmologia). Ambos estão sob a administração da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares  (Ebserh).

Referência nacional em doenças tropicais e regional em HIV/Aids, o Barros Barreto é o reflexo do caos que vive a saúde e a educação públicas no estado do Pará. Tudo acentuado por sucessivas administrações superiores incompetentes, omissas e imorais.

Desde que o ex reitor Carlos Maneschy conseguiu aprovar de forma autoritária, e em uma questionada votação on line (via email) do Conselho Superior Universitário (CONSUN), a adesão dos dois hospitais da instituição à adminitração da EBSERH (no ano de 2015), as coisas só pioraram nos dois estabelecimentos.

Ebserh é privatização e precarização

Sancionada em dezembro de 2011 pela presidenta Dilma Rousseff (PT), a Lei 12.550 estabelece a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (empresa pública de direito privado). Desde então o que tem se atestado nos HU's pelo país é uma queda drástica nos serviços prestados a população e precarização das condições de trabalho dos servidores e prestadores de serviço desses estabelecimentos. No Hospital Universitário da Universidade Federal do Ceará, desde a adesão a Ebserh, 50% dos leitos foram fechados. No HU da Universidade Federal do Triângulo Mineiro as cirurgias eletivas foram reduzidas em 33%. Dados de 2015. No HUJBB cerca de metade dos leitos do hospital estão sem uso. São dados da Federação dos Servidores das Universidades Federais Brasileiras (FASUBRA) e do Sindicato dos Trabalhadores das Instituições Federais de Ensino Superior (SINDTIFES).

Esse quadro de ataques e redução de atendimentos não é por falta de demanda. Todos os dias assistimos ao desespero de quem precisa conseguir uma internação nesses hospitais.

Tragédia anunciada


Sobre os problemas do hospital e a queda do reboco do teto, falamos com a técnica de enfermagem do HUJBB e diretora do Sindicato dos Trabalhadores nas Instituições de Ensino Superior (Sindtifes/PA), Zila Camarão. Ela fez um comovente e revoltante desabafo do quadro caótico pelo qual passa o estabelecimento de assistência à saúde, de ensino, pesquisa e extensão no qual trabalha.

Sobre a queda do reboco do teto, Zila Camarão  diz que os diretores do HUJBB consideram esses episódios tão comuns, que a única providência tomada é fastar os cacos do local. Apesar da EBSERH ter captado R$ 17 milhões no ano de 2016, que deveriam ser investidos em melhorias do HUJBB e HUBFS. 

"A Ebserh e o reitor transformaram o Barros e o Bettina em verdadeiros cabides de emprego para seus apadrinhados", relata a sindicalista. Estão criando vários cargos desnecessários com salários altíssimos, como o cargo de gerente de hotelaria. "Pra quê gerente de hotelaria? Basta falar com qualquer servidor ou acompanhante de usuário aqui para saber que não existe roupa de cama e nem banho." Aliás, faltam alguns medicamentos, insumos básicos material técnico. As vezes falta água potável e/ou copos descartáveis. 

Crise

O Além da Frase conversou com vários servidores em distintos momentos do ano passado e agora nesse episódio da queda do teto. Estivemos em protestos, paralisações e greves. Percorremos os corredores e enfermarias do HUJBB. Sabemos que tem gente de todo canto do estado e até de fora. Em busca de cura. De apoio. Alento. As queixas são muito parecidas. Os acompanhantes e funcionários compram marmitas de fora. Os pacientes se aproveitam disso e também injerem dessas refeições. O que ompromete o tratamento, a dieta e representa risco patológico.

No dia 19/12/2016 no HU João de Barros Barreto, 12 homens encapuzados e com armas de grosso calibre rederam os vigilantes e servidores da portaria. Foram até a entrada principal do hospital, local onde estão os caixas eletrônicos de dois bancos. Não conseguiram abrir os caixas e saíram sem levar nada, porque o maçarico deles não funcionou até o final. Ninguém ficou ferido. Resta aguardar o inquérito aberto na Polícia Civil.

Em uma reunião com o reitor Emanuel Tourinho sobre a segurança no hospital, a representante do Sindtifes lembrou o magnífico das promessas de campanha. "Se elas tivessem sido cumpridas, a gente não estava passando por esses problemas", ressaltou a servidora. Tourinho assumiu há cerca de 120 dias. 

O caos nos hospitais universitários do Pará tem nomes, CNPJ e endereço. É o antigo e atual reitor. São os diretores biônicos impostos pela EBSERH. O Barros Barreto, não é de hoje que o sindicato, servidores e usuários denunciam, é um barril de pólvora. 

Há 4 anos caiu novamente o reboco do teto. Em outra ala. Três pacientes se feriram. Há enfermarias que quem ameça cair são os aparelhos de ar condicionado. Em outros lugares estão caindo água, de infiltrações no teto. Só não cai o número de apadrinhados e aliados do reitor que são remanejados da UFPA para os HU's para desenvolverem sabe-se lá o quê e receberem altos salários e gratificações da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Zenaldo envolvido em mais uma denúncia de crime eleitoral

Na última terça-feira, 03/01, a Prefeitura Municipal de Belém (PMB), através do prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho/PSDB e, segundo o deputado federal Edmilson Rodrigues/PSOL, seu irmão Guto Coutinho, exoneraram de uma vez só mais de mil pessoas dos quadros da prefeitura. Todos ocupavam o chamado DAS (cargo de livre nomeação/exoneração). 

Segundo o parlamentar do PSOL, a decisão do prefeito "Não foi para poupar recursos públicos". Edmilson fez um comentário em uma postagem no Facebook do jornalista Carlos Mendes acerca dessas exonerações. Ele relata que questionou uma dirigente do PSDB acerca do fato. De acordo com Rodrigues, a explicação da tucana foi assim: "os partidos da base de apoio e os políticos com mandato que apoiaram o prefeito ainda cassado, mais os vereadores que passarão ou estão na bancada governista estão fazendo uma pressão muito grande por secretarias ou cargos na prefeitura. Alguns, inclusive, chantageando com ameaça de ir para a oposição se não tiverem seus pleitos atendidos". 

Ou seja, seria mais um caso de troca de favores e do já manjado toma lá, dá cá. Em troca de apoio, prefeituras, governos e parlamentares conseguem empregos temporários ou distribuem benefícios como o Cheque Moradia (estadual e municipal) para cabos eleitorais. O fato é que o pleito passou e rearranjos necessitam ser tomados, como bem expôs Rodrigues em seu comentário. Segundo ele, "ninguém reconhece que já tem seus apadrinhados na estrutura da prefeitura. Por isso, o prefeito Guto, digo Zenaldo decidiu exonerar a fim de que apareçam os "pais das crianças" e ele possa fatiar a prefeitura entre os que não têm ou não querem manter seus traquinos nos antigos cargos." 

A coisa é muito grave e demonstra a podridão do nosso sistema político. Talvez por isso, a maioria da população tenha se abstido, votado nulo ou branco no último pleito eleitoral. As pessoas já estão enojadas com tanta podridão e não se sentem mais representadas por esses velhos políticos. 

Fica simples perceber porque tanto o governo do estado, como prefeituras e demais órgãos da administração direta e indireta não fazem concursos públicos. A justificativa deles é de que não há recursos para a realização do certame, mas só neste início de ano vários órgãos do estado, como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS) e a Universidade do Estado do Pará (UEPA) abriram Processo Seletivo Simplificado de Contratação Temporária para centenas de cargos. 

Um verdadeiro crime contra a moralidade pública, contra o erário do estado e a dignidade das pessoas, as quais são obrigadas a se sujeitar a uma relação clientelista, paternalista, coronelista, conservadora e de trabalho precarizado. Como é o caso dos recentes distratados da PMB. Edmilson Rodrigues diz ainda que “Muitos, certamente, não retornarão aos cargos, apesar do bronzeamento e das muitas roupas molhadas pelas chuvas durante a campanha, quando lhes era afirmado que os que não fossem fazer bandeiradas nas ruas seriam exonerados”. 

Profissão perigo

Dentre os exonerados da Prefeitura Municipal de Belém, fato curioso e surpreendente: aparece na lista (abaixo) o nome da atriz Marília Carla Araújo (foto). A mesma que aparecia na propaganda de rádio e TV de Zenaldo nas eleições de 2016, que falava com jeitão paraense e geralmente atacava o principal adversário do tucano. Isso tudo segundo denúncias que estão rolando nas redes sociais. 

Caso se confirme o fato, trata-se de flagrante crime eleitoral, o que exige do Ministério Público Eleitoral do Estado uma resposta contundente. Esperamos que a justiça eleitoral e o próprio MPE in vestigue essa farra com recursos públicos, ponha um ponto final nessas contratações imorais através de processo seletivo e se exija concurso público para acabar de uma vez por todas com essa farra e o clientelismo imperante na nossa política.
Crime eleitoral? Nas redes e WhatsApp a lista corre solta.

Marília Carla Araújo aparece entre os exonerados da PMB.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A cidade que flutua

Escrevi este texto numa viagem ano passado para Afuá, Ilha do Marajó. Preservei o texto da forma que saiu. Por isso às vezes está no presente, às vezes no passado recente. Enfim. Um dia edito. Espero que gostem!

por Marcus Benedito


Saímos às 19h da Rampa de Santa Inês. Tomamos o barco motor Fé em Deus de Afuá. Logo cedo, chegamos e armamos nossas redes. Alguns papos com outros passageiros. Uns cigarros. Dá-lhe carregamento de cargas no porão e no primeiro convés. (As letras estão tremidas devido o trepidar do motor do navio.)

A travessia do Rio Amazonas em frente de Macapá tem certa dose de emoção em decorrência do vento e da maresia. Na minha infância, confesso, essa travessia parecia mais assustadora. Será por quê na infância tudo é superlativo para a gente? Será por quê a generosidade da criança garante sempre mais cor, realismo, verdade à  vida e esta acaba sendo mais saboreada, vivida, testada? Enfim... O fato é que quando eu estava nas férias escolares, não perdia tempo, aproveitava para ir ao encontro de meu pai, matar a saudade e ficar que nem o rabo dele o acompanhando em suas viagens no Rodrigues Alves nas linhas de Cametá, Santarém e Macapá.

Como dizia, nesse tempo essa travessia em um navio de 3 conveses, que carregava centenas de toneladas de cargas, me era muito assustadora em função do banzeiro. Lembro que chegaram até a mudar os horários de saídas do Rodrigues de Belém para Macapá e vice versa para as 9h da manhã, para que passasse nessa travessia de Macapá sempre de manhã. É o tempo quando os ventos não estão muito irritados. Hoje essa maré não está tão braba assim. A gente já pode fazer essa viagem a noite. E confesso novamente: a noite é mais gostoso. É um encanto, principalmente quando tem luar.

À medida que nos afastamos da capital amapaense, as estrelas vão aparecendo uma a uma. Cada qual rasgando a noite ao seu jeito, inundando a escuridão de brilho. Claro, nada comparado ao que faz a lua! Navegar nos rios da Amazônia é uma verdadeira poesia... Obviamente que uma poesia pode ser o que você quiser que seja. Para mim é uma poesia concretista, bagunçada, alegre e triste. À noite, as estrelas e a lua invadem os rios, tomam os navegantes e nos bebem por completo. Sem deixar de mencionar o belo balé formado pelas pessoas em suas redes. Coloridas, cheias de seus motivos, indo e vindo. Claro, sob a vontade do suserano mor dessas paragens, o Rio Amazonas. Com cheiro de barco, barulho de motor, e nas embarcações regionais (como a que nos encontramos), com um gosto de mixto quente, cerveja, flerte, olhares, sorrisos, compadecimento, adeus.

Vai e vem


Entre os passageiros encontramos de tudo. De veteranos a marinheiros de primeira viagem. Há os que estão de mudança e viajam naquela esperança de encontrar um mundo melhor. Vindos de todo canto. Em busca do velho eldorado. Há pessoas de outros estados. Maranhenses, cearenses, goianos. Tem comerciantes, famosos caxeiros viajantes. Há os que sempre viajam. Semana sim, semana não. Vire e meche estão de subida ou descida. Há os que voltam com a criança que nasceu na cidade grande, o que vieram se tratar de alguma enfermidade, os que não conseguiram cura e voltam em um caixão. De viagens, como dito no início, não sou virgem. Nem de viajem com j e nem de viagem com g. Mas meu parceiro de trabalho, que me acompanha nessa missão até Afuá, este sim é. Terapeuta ocupacional, pai de dois filhos, casado, carinha gente boa. Na dele, comeu um mixto quente com guaraná, perguntou onde era o banheiro, foi dormir.

Afuá para esse mano que vos fala, esta sim é novidade. Do Marajó já conhecia quase todas as cidades. No tempo em que trabalhei no combate e prevenção aos acidentes de motor em pequenas embarcações com escalpelamento, vira e meche eu aportava em São Sebastião da Boa Vista, Breves, Muaná, Ponta de Pedras, Soure, Salvaterra, Oeiras do Pará, Portel, Gurupá. Falta conhecer Cachoeira do Arari de Dalcídio Jurandir e Giovane Galo, Santa Cruz do Arari, Chaves e Anajás. Uma hora dessas apareço por lá. Por hora estou rumando para Afuá, extremo norte do maior arquipélago plúvio-marítimo do mundo.

Barco e rio


Como todo rio amazônico, no maior não haveria de faltar as embarcações. São dezenas, ou melhor, centenas delas. Pequenas, médias e grandes. De transporte de cargas e/ou de passageiros. Um fato curioso: desde que saímos da Rampa de Santa Inês percebo outro barco de dois conveses, mais ou menos do mesmo porte do nosso, contudo, com algo que me deixou muito intrigado: além do farol de milha dianteiro, ele também tem um na popa. Não consigo imaginar outra finalidade para ele que não seja a de segurança naval. Como os nossos rios não estão para peixe, deve ter sido uma forma encontrada para afugentar os piratas. Temíveis corsários que amargam cotidianamente a vida dos ribeirinhos desta região.

São 22h31 e nenhum sinal de sinal da Vivo. Muito menos da Tim. Também, se os tivesse, talvez nem lhes teria escrito ou ao menos iniciado esta crônica de minhas viagens pelas cidades e comunidades amazônicas. Comecei a levar a sério isso há alguns anos. Mas não tão a sério assim, porque todos os meus escritos estão espalhados por casa. Desta vez, pelo menos estou a fazer em um caderno Tilibra pequeno, com caneta de tinta esferográfica azul , alimentado pela expectativa de conhecer mais uma cidade e a minha habitual falta de sono.

Quanto ao barco com o holofote trazeiro, após algumas horas de observação e me valendo de sua maior proximidade, posso asseverar que seu uso deve ser mesmo para despintar os piratas. Algo para fazê-los pensar ainda ao longe que as pretensas vítimas estão indo, quando na verdade estão vindo.

Quanto a brandura de navegar no Rio Amazonas a noite, que me surpreendera ao sair de Macapá, acabo de queimar minha língua. Não sabia que no nosso caminho estava a Baía do Vieira. O Amazonas adquire nomes diversos ao longo de sua passagem pelo Marajó. Aqui é Vieira. E que gingado tem o Vieira! O barco começou a balançar mais que bandeira em vendaval. O banzeiro não me amedronta, o único infortúnio é que as redes começaram a chocar-se uma nas outras. O pior foi a minha, que me jogava contra um esteio da embarcação. Mas superada a baía, veio a calmaria e às 1h15 do dia 10 de agosto de 2016 o barco motor Fé em Deus de Afuá atracou na cidade conhecida como Veneza do Marajó, Afuá.

Cidade suspensa


Construída sobre pontes, devido se tratar de uma área de várzea e igapós, paisagem típica nessa porção da Amazônia, Afuá tem características peculiares. Podemos dizewr que a cidade flutua sob as águas turvas dos rios. Trata-se de uma ilha. Os rios que cercam a cidade são Afuá, Cajuuna e Marajozinho, além de vários igarapés que entrecortam o lugar.

Fundada em 1891, a partir de uma comunidade católica, hoje o município tem uma população estimada em cerca de 37.398 habitantes (dados Wikipédia 2015) distribuídos entre a sede e a zona rural. Em que pese que desde os anos 90 o êxodo rural esteja muito presente, levando as pessoas a ocupar de forma desordenada a cidade, o que acaba por revelar inúmeros problemas sociais, como a falta de saneamento, emprego e serviços públicos de saúde.

As moradias são em sua maioria feitas de madeira, assim como as ruas, ainda que hajam algumas poucas de alvenaria. Não há presença de nenhum veículo automotor na cidade. O meio privilegiado de transporte é a bicicleta. Inclusive em frente da cidade há um grande estacionamento para as magrelas. O carro deles é uma bicicleta adaptada com quatro rodas, duas pedaleiras e pode transportar cargas e de 4 a 6 pessoas. Sem dúvidas uma engenhosa criação que garante um charme a mais para a localidade.

Durante o horário comercial, o silêncio habitual sede espaço para a rádio cipó, que além de algumas músicas populares no país inteiro, o forte é a propaganda dos estabelecimentos comerciais.

Vinho e comida


Em frente a quadra de esportes e na porção horizontal ao rio Afuá, tem um grande palco. Local dos shows e apresentações que ocorrem todo mês de julho, durante o Festival do Camarão, que em 2016 chegou a sua XXXIII edição. Nem precisa dizer, mas o camarão é o orgulho dos moradores da cidade e um dos carros chefe da culinária local. Claro, associado ao açaí, que nesses municípios do arquipélago do Marajó e Baixo Tocantins não são sobremesa. São prato principal. Sempre acompanhado de peixe, camarão, carne, frango, arroz ou feijão. Não importa! Pra este povo açaí é comida e ele não pode faltar.

O bom é que por essas bandas ainda não chegou a maldita extração para importação, o que tem feito o vinho do fruto ficar extremamente inflacionado, principalmente na Região Metropolitana de Belém (RMB). Em Afuá o litro custa de 3 a 5 reais. Média. Em Belém, a este preço, não se compra nem a churamba, que é a lavagem dos caroços após ser extraído o grosso da polpa do fruto.

Povo das águas


Rua de Afuá. Foto: Mauricio Paiva.
Outro brilho especial a Afuá é conferido pela estudantada. Os estudantes das comunidades ribeirinhas chegam cedo. Ainda não era 7h e a praça, onde também tem a quadra de esportes coberta, já estava repleta deles. Com seus uniformes, mochilas e cadernos, cada qual na sua. Paquerando, conversando, contando da vida e aguardando o horário do toque da campainha de entrada das escolas de ensino fundamental e médio.

As pessoas são tipicamente hospitaleiras, mas não de muita conversa. Gente trabalhadora, marcada pela labuta diária, de cor que revela a intensa exposição ao sol, ao sofrimento de viver num país subdesenvolvido no trópico úmido, mas com um brilho nos olhos que garante que a alegria, no menor descuido, rápido pula para fora e se mostra nos dentes sorridos e nos apertos de mão acalorados.

A maioria dos que vivem na sede do município é empregada do intenso centro comercial ou depende de benefícios sociais ou são servidores públicos. A população da zona rural, que de quando em quando povoam as manhãs dos dias úteis do município, são os responsáveis pelo grande vai e vem de pequenas embarcações nos rios que banham a cidade. E tem embarcação para todo tipo de finalidade. Que transporta gente e cargas, que transporta fruto do extrativismo vegetal, que transporta peixes e animais em geral. Inclusive aviste aqui embarcação que transporta combustível de forma irregular. O que sujeita seus condutores a sérios perigos. Outro dia um barco explodiu no porto de Abaetetuba. São os perigos pelos quais essa população batalhadora tem que passar para cumprir aquilo que sentenciou o escritor português do século XIX: “Navegar é preciso”. Mas a busca de dignidade e de vida com qualidade também é preciso. As autoridades são os principais responsáveis por isso. Triste, difícil e sofrida realidade.

 As crianças


As crianças são sempre um capítulo a parte. Em Afuá não poderia ser diferente. Acompanhando os pais, avós ou responsáveis, elas enfeitam os lugares como borboletas embelezam jardins. Com sua habitual honestidades, elas gritam, brincam, choram, exigem, doam, pintam e bordam.

Afuá é uma cidade de crianças. Caminhei por várias ruas. Floriano Peixoto, João Paulo, Generalíssimo... Elas lá. De todas as idades. Vestidas, nuas, jogando vôlei, bola, mergulhadas na mágica da imaginação. Vi um garotinho de mais ou menos um ano e pouco. Ele estava ao lado de outra um pouquinho mais velha. Carrega um martelo à mão. Pensei:

– Quem deixou este pequeno com um martelo na mão?!

Lembrei do dia que meu sobrinho, o mais velho, deu uma martelada na cabeça do meu irmão. Felizmente nada grave, a não ser a dor. Mas o que fazer? Errado foi quem deixou ele com o martelo à mão. Poderia ter caído em seus dedinhos do pés, poderia ter-se machucado feio. Acabou numa dor de cabeça.

As crianças maiores de Afuá brincavam de queimada. Acredito que era uma atividade escolar, pois percebi a presença de uma “tia” que parecia sua educadora física. Eram umas trinta crianças com idades de 11 a 14 anos. Uma grande e barulhenta queimada. No barco mesmo haviam várias. Já era tarde da noite e elas transitando por lá. Eu sou do tipo preocupado. Fiquei pensando na segurança delas. Na vulnerabilidade das mesmas. E se uma cai n’água? E o pior: ninguém vê? Nem é bom pensar...

Sigamos falando da festa e da gritaria. A festa chamada queimada. Elas lá entretidas. Aquele corre-corre. Joga bola pra lá, joga pra cá. Mais gritaria. Diverti-me muito vendo essas cenas. Já os marmanjos, quatro no total, jogavam vôlei na quadra ao lado. Fiquei impressionado. Os caras são bons! Mas a molecada chama atenção. Uma bola desferida por uma garota em um menino. Tocou nele e caiu no chão. A professora gritou: sai fulano. Contrariado, ele saiu. 
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Fonte da primeira imagem: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1797010