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domingo, 22 de janeiro de 2017

Belém registra nova chacina

No mínimo 30 execuções da tarde de sexta a manhã de sábado (21). Tudo após um PM ser lamentavelmente morto por bandidos.
A resposta a morte do soldado foi uma carnificina nos bairros de Belém.

Segundo os jornais, chacina comandada por milícias, que contam com a participação de policiais.

A resposnsabilidade dessa barbárie é do governador do estado Simão Jatene (PSDB) e do presidente ilegítimo Michel Temer (PMDB).
Basta de mortes do povo pobre e de nossa juventude negra!

A legalização das drogas e a desmilitarização da PM são os caminhos para se por fim aos tenebrosos eventos que marcam o sistema penitenciário brasileiro e o genocídio diário de nossa população.
#BastaDeChacinas
#QueremosNossosJovensVivos

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Famílias homenageiam vítimas de chacina durante marcha em Belém

pPor Alexandre Yuripor Alexandre Yuri
Onze pessoas foram assassinadas entre os dias 4 e 5 de novembro de 2014. Ato marcou um ano da data e cobrou esclarecimento de assassinatos.
por Alexandre Yuri, para o G1 PA
Ato 1 ano da chacina em Belém (Foto: Alexandre Yuri/ G1)Vanda Mendes perdeu o irmão na chacina e protestou contra a violência na capital. (Foto: Alexandre Yuri/ G1)
"Eduardo nunca deu trabalho no colégio, nunca teve problemas com ninguém, não tem nome sujo na polícia. Era morador de periferia, mas tinha tudo para ser feliz", lamentou, emocionada, a dona de casa Maria Auxiliadora Galúcio, durante o ato realizado na noite desta quarta-feira (4) em Belém para marcar um ano da chacina que vitimou 10 pessoas após o assassinato do cabo da Polícia Militar Antônio Marcos da Silva Figueiredo no bairro do Guamá. Entre as vítimas estava Eduardo Felipe Galúcio Chaves, neto criado como filho por Maria Auxiliadora.
A dona de casa conta que, na noite de 4 de novembro de 2014, estava no pátio de sua casa no bairro da Terra Firme e viu a chegada de motoqueiros encapuzados em sua rua, mas não imaginava que eles tirariam a vida de Eduardo. O jovem, com 16 anos na época, foi atingido por cinco tiros pouco antes das 22h e morreu no local, a metros de sua casa.
Ato 1 ano da chacina em Belém (Foto: Alexandre Yuri/ G1)Larissa Viana lamentou a perda do primo Eduardo.
(Foto: Alexandre Yuri/ G1)
"O meu primo perdeu a vida injustamente. Ele foi deixar a namorada a casa dela, pegaram meu primo no canto de casa como se ele fosse um bandido, um marginal, não deram nem chance de ele se defender. Dói muito lembrar dele porque o Eduardo era uma ótima pessoa. Meu primo faz muita falta para mim. ", conta Larissa Viana, prima da vítima.
Minutos depois da morte de Eduardo, ainda no bairro da Terra Firme, Bruno Barroso Gemaque também foi baleado nas proximidades de sua casa. Segundo Meire Gemaque, tia da vítima, o rapaz de 20 anos estava em uma bicicleta com a namorada e também foi abordado por homens encapuzados em motocicletas. "Era um rapaz muito família, trabalhava no transporte alternativo. Ceifaram a vida do meu sobrinho por nada", disse Meire.
Bruno levou quatro tiros e chegou a ser socorrido por amigos, mas Meire conta que viaturas da Polícia Militar fecharam as vias do bairro e o rapaz não conseguiu chegar no hospital a tempo. A namorada do jovem, que presenciou o baleamento, se isolou após o ocorrido. "Ela não quer falar, se distanciou da gente. Ela foi dar o depoimento na polícia e depois disso ela sumiu. Ficou com medo de represálias", conta Meire.
Ato 1 ano da chacina em Belém (Foto: Alexandre Yuri/ G1)Jessica Cabral homenageou o irmão Jeferson na
caminhada. (Foto: Alexandre Yuri/ G1)
Jeferson Cabral, de 27 anos, também foi homenageado por familiares durante a marcha. Ele foi atingido por três tiros durante a ação de motoqueiros encapuzados no bairro da Terra Firme. "Meu irmão era uma pessoa muito especial para mim. Me ajudava, ajudava a minha mãe, não tinha vícios. Minha mãe sofre muito, porque nada justifica o que aconteceu. Ele não era bandido, era um rapaz trabalhador", lamenta Jessica Cabral, irmã de Jeferson.
Uma das vítimas baleadas na noite do dia 4 chegou a ser socorrida, como Allersonvaldo Carvalho Mendes, atingido por cinco tiros no bairro da Terra Firme. "Allerson", como era chamado pelos amigos, ficou internado no Hospital Metropolitano, em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, mas não resistiu e morreu às 18h do dia 5.
"Ele tinha deficiência mental e o que ele gostava era de estar com os amigos e estar brincando, principalmente de pipa. Era uma pessoa alegre, amiga, carinhosa e perdeu a vida desse jeito. Sem fazer mal a ninguém, vieram e tiraram a vida dele. Ele nem sabia porque estava morrendo", conta a irmã de Allerson, Vanda Mendes.
Ato 1 ano da chacina em Belém (Foto: Alexandre Yuri/ G1)Ana Maria cobrou explicações para a morte do filho
Marcus Murilo. (Foto: Alexandre Yuri/ G1)
Ana Maria Ferreira Barbosa participou da caminhada trajando uma camisa em homenagem ao filho Marcus Murilo Ferreira Barbosa, de 20 anos. "Ele era muito prestativo, trabalhava e estudava, ganhava o dinheiro dele para se manter e não mexer nas coisas de ninguém. Ele atravessou a rua para comer um churrasco, os caras chegaram e deram seis tiros nele", diz a mãe da vítima, morto no bairro do Marco por volta de 22h30.
Alex dos Santos Viana, morto no bairro Parque Verde, e Jean Oscar Ferro dos Santos, assassinado no bairro do Jurunas, tiveram seus nomes lembrados em cartazes e palavras de ordem durante a caminhada, mas seus familiares não participaram das homenagens no ato. De acordo com a Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH), os familiares temiam represálias e alguns deles chegaram a se mudar da cidade.
Para Alberto Pimentel, da coordenação da SDDH, a resposta dada pelas autoridades de segurança pública do Estado ainda é insuficiente. "Ainda está muito aquém da resposta que os familiares precisavam, seja do ponto de vista da assistência que essas famílias precisam, seja do ponto de vista de dar uma resposta efetiva ao problema central que está colocado nesta questão, que é a atuação de grupos de extermínio na região", comenta Alberto.
Uma das participantes mais emocionadas do ato foi Liliane Araújo, irmã de Nadson Araújo, morto na madrugada do dia 5 no bairro do Jurunas. "No dia 3 ele tinha completado 18 anos, ele ia comemorar no sábado, estava tão feliz. Dia 4 mataram ele", lamentou Liliane. "Ele conversava com uma amiga. Pararam as motos e mandaram eles sentarem. Ele nem esperava o tiro, porque morreu de lado", relata a irmã.
Ato 1 ano chacina Belém (Foto: Alexandre Yuri/ G1)Ato foi encerrado em frente ao Mercado de São
Brás. (Foto: Alexandre Yuri/ G1)
Por volta de 2h da madrugada do dia 5, a última vítima da chacina foi registrada no bairro do Tapanã. Marcio Santos Rodrigues, de 22 anos, foi baleado quando chegava em casa após sair com amigos. "Ele era um rapaz muito tranquilo. Nós somos, sim, de família pobre, mas ele não tinha nenhum envolvimento com drogas, com roubo. É por isso que eu não consigo, até hoje, digerir essa história", diz Janete Rodrigues, irmã da vítima.
Janete conta que o caso abalou a família, principalmente os pais, já idosos. "Desde essa noite, infelizmente, nossas vidas não estão sendo mais as mesmas, e nunca mais vão ser. Nós temos que viver hoje com isso, com essa dor, esse vazio". O ato foi encerrado em frente ao Mercado de Brás, com uma mostra da exposição organizada por familiares com fotos e peças de roupas das vítimas.
Investigação
As mortes aconteceram depois do assassinato do cabo da PM Antônio Figueiredo, suspeito de liderar uma milícia no bairro da Terra Firme. Uma CPI criada para investigar os crimes concluiu que integrantes da Segurança Pública participam de grupos de extermínio no Pará. A Promotoria de Justiça Militar indiciou 14 PMs. A corporação abriu investigação contra nove policiais. Os processos também não foram concluídos.
"Não temos nenhuma dúvida que há um grupo de extermínio e eu me arriscaria a dizer que há um grupo de milícia sim no estado do Pará. E eu não só acompanho essa chacina que aconteceu aqui na área metropolitana, mas de vários outros casos que tenho monitorado e acompanhado pela ouvidoria em outros municípios e regionais”, afirmou a ouvidora da Secretaria de Segurança Pública, Eliana Fonseca.
Na manhã desta quarta, a Polícia Civil informou que concluiu apenas três inquéritos do total de 11 que foram abertos para investigar os assassinatos e a possível relação entre as mortes e o homicídio do cabo da PM Antônio Figueiredo.
"Pela complexidade da investigação, 11 homicídios, dos quais sete foram praticados em menos de uma hora, eu digo que na investigação nós estamos bastante avançados. Temos
três inquéritos com definição de autoria, ouvimos mais de 90 pessoas nesses inquéritos, requisitamos 31 perícias e conseguimos prender essas 8 pessoas", afirma Rilmar Firmino, delegado geral da Polícia Civil do Pará.
O caso corre em segredo de Justiça. Segundo o delegado geral, do total de oito presos, apenas um conseguiu a liberdade provisória e foi comprovada a ligação entre a morte do PM e alguns dos assassinatos.
"Nós podemos asseverar que existe ligação entre as três mortes, e dessas, duas mortes foram praticadas por pessoas ligadas ao cabo Figueiredo. Um é um policial militar da ativa que estava afastado para tratamento de saúde, o outro preso é um policial militar da reserva e dois são pessoas civis ligadas ao PM. Não podemos opinar em relação à investigação, temos que individualizar a conduta e apontar a materialidade, não podemos fazer ilações", esclareceu Firmino.
Ato 1 ano chacina Belém (Foto: Alexandre Yuri/ G1)Vítimas foram homenageadas na Praça do Perário ao final do ato. (Foto: Alexandre Yuri/ G1)
 Fonte: G1 PA.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Governo é corresponsável por chacina no Pará, afirmam entidades sociais

4 crianças estão entre as vítimas. Foto: reprodução/ TV Liberal)
por Leonardo Sakamoto, em seu blog

Seis pessoas de uma mesma família foram mortas a facadas na fazenda Estiva, em Conceição do Araguaia, Sul do Pará. Os corpos de Washington da Silva, Leidiane Soares, seus três filhos e um sobrinho com idades de 11 a 14 anos foram encontrados em um rio que atravessa a fazenda. O crime ocorreu na madrugada do dia 17.
De acordo com Valdivino Miranda, delegado responsável pela Delegacia Especializada em Conflitos Agrários, em Rendençã0 (PA), um suspeito foi preso e há dois foragidos. A família assassinada estava há pouco dias ocupando o lote e um outro grupo havia deixado a área há mais de oito meses. Ele preferiu não adiantar conclusões para não prejudicar a investigação em curso, mas afirma que as mortes se originaram de um conflito entre posseiros e não entre eles e fazendeiros.
Outros colonos estão assustados e parte deixou os lotes que ocupavam. A fazenda Estiva está ocupada há mais de oito anos. Questionado pela imprensa, o Incra prometeu finalizar a desapropriação com fins de reforma agrária em 90 dias.
A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Pará, a Comissão Pastoral da Terra e o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra divulgaram uma nota, nesta segunda (23), responsabilizando a omissão do poder público federal pela chacina.
Na área de abrangência da Superintendência do Incra de Marabá há mais de 100 fazendas ocupadas por cerca de 12 mil famílias que aguardam para serem assentadas, segundo os movimentos sociais. A grande maioria dessas ocupações já se arrasta por mais de dez anos.
“Analisando as causas que resultaram no conflito, não há dúvidas, que a responsabilidade pelas mortes vai além daqueles que praticaram o ato criminoso. Recai também sob a péssima atuação do Incra e da Justiça Federal no Sul e Sudeste do Pará'', afirmam Fetragi, CPT e MST. De acordo José Batista Afonso, coordenador e advogado da Comissão Pastoral da Terra em Marabá, a ocupação era um grupo independente e não tinha vínculo com as organizações sociais que assinam a nota.
Segundo elas, a inoperância do Incra e o “despreparo de muitos de seus gestores para atuarem em situações de conflito'' têm sido uma das principais causas da ocorrência de situações de violência contra os trabalhadores em muitas ocupações.
O Incra, segundo a nota, teria feito o cadastro da família vítima da violência e a orientado que utilizasse o lote que já havia sido ocupado anteriormente. Contudo, o órgão não poderia ter feito o cadastro das famílias ou apontado quem ficaria com qual lote antes da autorização judicial.
O blog não conseguiu contato com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária até a publicação deste post. Tão logo for possivel, publicará o posicionamento do Incra.
“Por outro lado, a morosidade da Justiça Federal das subseções de Marabá e Redenção e a falta de sensibilidade de muitos de seus juízes com a questão agrária,  é patente. Na área de atuação dessas duas subseções, tramitam, dezenas de processos que envolve desapropriação e arrecadação de terras públicas para fins de reforma agrária. São mais de 200 mil hectares de terra onde cerca de 6 mil famílias sem-terra aguardam por uma decisão da Justiça Federal para serem assentadas'', afirmam os signatários da nota.
Segundo eles, não é a primeira vez que a demora cria um ambiente propício para essa situação. Em 2014, dois trabalhadores foram assassinados e outros dois saíram feridos por pistoleiros em uma fazenda no município de Bom Jesus do Tocantins.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Jovem morto por PMs ajudava mãe e avô em pizzaria: “ele gritava ‘socorro’, mas ninguém podia fazer nada”

Morto por policiais da Rondesp, Alexsandro Lima entregava as pizzas que a mãe fazia. Ele apanhou, teve as pernas quebradas e levou 5 tiros
Por Bruno Wendel e Luana Amaral

Alexsandro Pinheiro dos Santos Lima, 20 anos, ajudava a mãe entregando as pizzas que ela preparava, e o avô, na barraquinha de cachorro-quente que ele mantém no fim de linha de Cosme de Farias. Foi justamente quando subia a rua Wenceslau Galo, por volta das 19h de sexta-feira, para chegar à pizzaria da mãe que Alexsandro encontrou policiais da Rondesp Atlântico fazendo uma operação no bairro — e que, segundo a família, conheciam bem Alexsandro, pois comiam frequentemente na pizzaria da mãe do rapaz.

Vizinhos disseram aos pais de Alexsandro que ele deu de cara com os policiais num trecho escuro da rua. Segundo os relatos, os PMs surravam Rafael de Oliveira Cerqueira, 19, e Denilson Campos dos Santos, 22. Quando pensou em retornar, Alexsandro foi alertado por um dos PMs.

“Você tem três minutos para vir até aqui”, disse o policial. “Ele foi, disse que trabalhava, mas mesmo assim apanhou, e muito. Ele gritava: ‘Socorro, socorro’, mas ninguém podia fazer nada’”, contou o pai, Edilson Souza Lima, 42. “Meu neto conhecia todo mundo do bairro e era muito querido. Era um rapaz franzino, diabético. Não bebia nem voltava tarde pra casa por causa da doença”, contou a avó.

“Eles dizem que aconteceu troca de tiros. Mas como? Ele levou cinco tiros e teve as pernas quebradas. Já os policiais, não levaram nenhum tiro”, declarou Carla Lima, 35, mãe de Alexsandro. Segundo a polícia, os três rapazes eram envolvidos com o tráfico de drogas na região e com eles foram encontrados 32 papelotes de cocaína, 21 balas de maconha e um revólver calibre 38 com numeração raspada.

Mãe e avô de Alexsandro se desesperam durante o sepultamento (Foto: Arisson Marinho)
Alexsandro foi sepultado na tarde da segunda-feira (9), no cemitério Quinta dos Lázaros, Baixa de Quintas. Muitos familiares, amigos e moradores de Cosme de Farias compareceram ao enterro. Entre os presentes, pedidos: “Hoje foi o Alexsandro, um inocente. Amanhã pode ser o filho de algum de nós. Até quando? Não é porque somos da periferia que somos bandidos. Queremos respeito”, disse Marcos Oliveira, 29, amigo de Alexsandro.

Ainda de acordo com vizinhos que ouviram a ação, o rapaz reconheceu seu algoz, que, segundo eles, frequentemente lanchava na pizzaria de sua mãe. “Não faz isso comigo, Bira!”, relataram ter sido as últimas palavras do jovem. Após o enterro, por volta das 18h, moradores de Cosme de Farias seguiram em direção à Avenida Bonocô em protesto. O caso está sendo apurado pela Corregedoria da PM.
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Corregedoria prende o ex-PM Cilinho, envolvido em chacina

Do blog Espaço Aberto

A Corregedoria da Polícia Militar prendeu na manhã desta segunda-feira o ex-PM Otacílio José Gonçalves Queiroz, o Cilinho, acusado de participar da chacina que resultou na morte de 11 pessoas, em Belém, no início de novembro do ano passado. Elas foram executadas em bairros da periferia da cidade logo depois do assassinato do cabo Cabo Antônio Marcos Figueiredo, o Pet, no bairro do Guamá.

A prisão de Cilinho foi decretada na semana passada, mas estava  mantida sob sigilo, para evitar que o acusado escapasse. O ex-policial foi conduzido para o Centro de Recuperação Especial Anastácio das Neves, que integra o complexo penitenciário de Americano, o município de Santa Isabel do Pará, Região Metropolitana de Belém.

Cilinho foi um dos citados no relatório da CPI das Milícias da Assembleia Legislativa do Estado, que confirmou a existência de três grupos de extermínio na Região Metropolitana com a participação de policiais. Outro mencionado é o sargento Rossicley Silva, que, poucas horas antes da chacina, conclamou os militares, via Facebook, a darem uma “resposta” ao assassinato do cabo Pet.

Também foram citados pela CPI Josias Siqueira da Conceição, ex-cabo do Exército; Valmir ou Valdemir Oliveira, o cabo Oliveira também conhecido como “Canana”; Romero Guedes Lima, o cabo Lima da PM, conhecido como “Montanha”; e os cidadãos conhecidos como “Gaspar” ou “Gasparzinho”, “Zé da Moto” e ” Marcelo da Sucata”. A Comissão pediu o indiciamento de todos eles.

Ainda falta ser divulgado o resultado do inquérito policial, que tem acompanhamento do Ministério Público Militar. A prisão de Cilinho pode contribuir para esclarecer pontos obscuros e acelerar a conclusão das investigações.

Rui Castro (PT) aplaude chacina da PM baiana

Quando a execução sumária é legitimada como gol de placa no campeonato de extermínio da população negra, jovem e masculina


por Cidinha da Silva, para o Portal Geledes 

Doze meninos e homens negros executados pela polícia baiana com tiros na nuca. Havia marcas de tortura como braços quebrados e olhos afundados, mas poderia ser obra da polícia paulista, alagoana, carioca, pernambucana. São práticas disseminadas pelo país. O mais novo tinha quinze anos, o mais velho vinte e sete.

Uma chacina não é só mais uma chacina, não deveria ser. Chacina praticada pelo braço armado do Estado é a falência total da política de segurança pública e dos valores republicanos, violação de direitos humanos.

A novidade desta foi o discurso público do governador recém-eleito caracterizando-a como operação exitosa da polícia que mata preventivamente. Foi mais longe o chefe maior da polícia, em manhã inspirada pela crônica policial que banaliza e desrespeita a vida de pessoas que pagam impostos e o salário da polícia que mata – quando deveria protegê-las. O mandatário definiu a chacina como um gol dos policiais artilheiros, que decidem (matar) em segundos e mais acertam do que erram.

Testemunhas amedrontadas do Cabula, bairro do assassinato coletivo, por sua vez, disseram que os doze meninos e homens estavam desarmados, não houve confronto, eles foram rendidos e espancados antes de serem conduzidos a um campo de barro, cercado por matagal e lá, executados.

Como o governador é de partido de esquerda, houve gente declarando saudade dos tempos truculentos de ACM. Brincadeira de mau gosto tão cruel quanto a metáfora futebolística de Rui Costa.

O governador metido a cronista respondeu irônico à pergunta feita em entrevista coletiva sobre o possível susto que a violência da operação poderia causar aos turistas paulistas, habitués do carnaval baiano. Atacou a segurança pública do estado sudestino, dando a entender que turista paulista está acostumado com a violência, pois São Paulo apresenta recorde de roubos a caixas bancários. Como sabemos que a polícia executora alegou que os doze rapazes chacinados iriam praticar assalto a bancos, não seria leviano inferir do contexto que os baianos-negros foram mortos (preventivamente) para proteger os turistas-branco-paulistas. É público também que são os turistas brancos de São Paulo que inundam o carnaval baiano em busca do decantado exotismo da Bahia negra. O intertexto racista do discurso governamental é tão macabro quanto a aplicação de pena de morte aos jovens negros.

O secretário de Segurança Pública de São Paulo não deixou por menos e chamou o governador baiano de grosseiro e ignorante (a troca de farpas lembrou uma briga de fotonovela). Revelou que o índice de criminalidade da Bahia é quatro vezes pior do que o de São Paulo (aspecto da ignorância). Concluiu que as declarações do mandatário nordestino desrespeitavam o carinho que os paulistas têm pelos baianos e a importância que o turismo tem para a Bahia (aspecto da grosseria). Pronto! A supremacia geopolítica de São Paulo encerrou o papo. Até a tréplica, lógico, quando o coronel-moderninho das metáforas futebolísticas responderá ao coronel-robocop da metrópole que despreza nordestinos.

E os doze moços mortos, cadê? Sumiram no discurso volátil e popularesco dos assassinatos justificados pelo combate à criminalidade.

E as famílias das vítimas? Ninguém as escuta, ampara, indeniza. São vítimas do artilheiro-matador num jogo pavoroso, comprado, no qual o perdedor já está definido antes do cara ou coroa do juiz. Uma voz isolada tem nome, sobrenome e endereço, uma senhora, não um jovem irmão ou primo de vítima que pode ser a próxima vítima. A avó de Natanael de Jesus Costa (17) grita na porta do hospital que o neto fora levar pizza à casa da namorada, próximo ao campo de barro, palco da encenação do combate na noite do crime. O menino sumiu de casa e reapareceu na lista de corpos a serem reconhecidos no IML.

E o grosso da população dos bairros pobres e miseráveis o que faz? Repete como papagaio o discurso de legitimação da morte ouvido nos programas sensacionalistas da TV-caça-bandidos. Julgam que ao aliarem-se aos mais fortes, aos donos das armas, receberão proteção, pois são trabalhadores e os outros são bandidos. Que nada. Ninguém, ninguém é cidadão! E o gosto do sangue das vítimas só chegará à boca e aos olhos dos apoiadores das chacinas quando os tiros ceifarem a vida dos meninos criados por suas famílias e pela comunidade, aqueles que viram crescer e que buscavam pizzas para a namorada, ou foram vencidos pela dependência química, ou pela pressão ostensiva e de ostentação do tráfico. 

Sempre meninos queridos, que se transformarão em corpos estendidos no chão.
Nenhuma dessas doze mortes se justifica, seja qual for a ficha criminal de quem a tinha, e ainda menos atesta o sucesso de uma operação policial. Uma operação que resulta em doze mortos é arbitrária e ilegal. É catastrófica. O policiamento ostensivo deve preservar a vida e não eliminá-la escusada por tecnicalidades explicativas.

A sobrevivência de jovens negros está em jogo diante da construção racista do suspeito preferencial. Isso já é inadmissível, mais temerário ainda é que um governante venha a público legitimar a matança como GOLS de placa que eternizam policiais-artilheiros nos bairros populares e desprotegidos que não podem e não devem ser oficializados como estádios de futebol, nos quais se pratica tiro ao alvo negro e jovem, como quer o boleiro-governador.
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Escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum. Foto: Morgana Damásio em manifestação de 2014 contra o genocídio da população negra, promovida pela corajosa e destemida campanha REAJA OU SERÁ MORT@!, na cidade do Salvador, Bahia.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

CPI das Milícias pode ser instalada a qualquer momento

por Marcus Benedito

O deputado estadual Edmilson Rodrigues (PSOL) dará entrada hoje na Assembleia Legislativa do Estado do Pará, no requerimento que solicita a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias.

O regimento da casa exige que um terço dos 41 parlamentares assinem a petição para que uma CPI para seja instalada. A 14ª assinatura que faltava foi dada pela deputada estadual Bernadete Ten Caten (PT) no dia de ontem. Agora, o deputado governista Márcio Miranda (DEM), que é contrário à esta importante e necessária  investigação, terá que aceitar o requerimento de instalação da Comissão e, de acordo com o Regimento Interno da ALEPA, por ser presidente do parlamento, determinará aos líderes dos partidos que indiquem os membros para a CPI.

A vida não pode esperar

A conquista do número protocolar de assinaturas para instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias no Pará, às vésperas de se completar um mês (dia 04/12) de uma noite de horror e chacina em Belém, sem dúvida que é uma conquista das famílias das vítimas, assim como, uma importante vitória de todos(as) aqueles(as) que militam e denunciam cotidianamente o extermínio de nossa juventude, principalmente o genocídio de negros pobres e moradores das regiões periféricas e de baixada da Região Metropolitana de Belém (RMB).

Importante destacar que esses grupos de milícias não atuam somente nos bairros periféricos de Belém. Já há fortes indícios, segundo entidades dos direitos humanos, de atuação de grupos milicianos e de extermínio em várias regiões: do Baixo Tocantins aos Sul/Sudeste do Pará.

Quem tem medo da CPI

O governador reeleito para um terceiro mandato, Simão Robson Jatene (PSDB), e cúpula da segurança do estado têm que explicar para toda a sociedade paraense e mundial porque eles são contra que se investigue na “Casa do Povo” as graves denúncias de violações dos direitos humanos que envolvem não somente a participação de policiais militares, assim como de civis e de agentes externos, grupos empresariais, comerciantes, etc.

A quem interessa o silêncio? Vidas e chacinas continuam sendo uma realidade. Não podemos de forma alguma esquecer as crianças e adolescentes de Icoaraci (distrito de Belém), brutalmente chacinadas há anos, e que somente neste semestre teve um policial condenado pelas mortes. Não esquecemos os adolescentes chacinados na estrada do Murunim no distrito de Benfica (município de Benevides/PA). Não vamos esquecer de uma família inteira morta com o mesmo requinte de crueldade em Marituba!

Pressão pelas investigações

Só com luta e mobilização das famílias das vítimas da violência do estado, e com muita articulação dos movimentos sociais, partidos de esquerda e entidades que atuam em defesa dos direitos humanos, a CPI será efetivamente instalada. Nossos mortos e um futuro digno exigem da gente esse compromisso.

Um mês da chacina de Belém se aproxima. Semana que vem temos que organizar um grandioso protesto para as portas da ALEPA e exigir o cumprimento do Regimento, ou seja, a imediata instalação da CPI das Milícias. Para além, os movimentos já preparam toda um roteiro de manifestações e protestos para que cesse a guerra aos pobres, que tem o nefando disfarce de guerra às drogas.

Chacina em Belém: não foi uma foto, é um filme

Marcus Benedito, especial para o Jornalismo B

Era final da noite de 3 de novembro e início da madrugada do dia 4 e de todos os cantos da cidade chegavam notícias de uma carnificina. Não havia como contestar que algo de muito tenebroso se abatia com maior rigidez nos bairros do Guamá, Terra-Firme, Canudos, Marco, Jurunas e Jardim Sideral. Dezenas de mortos, moradores de bairros pobres assassinados indiscriminadamente pela Polícia Militar do Pará depois da morte de um policial.

Os mais citados pela imprensa e reconhecidos oficialmente pela Secretaria de Segurança Pública do Pará como sendo os locais onde ocorreram homicídios com as mesmas (ou parecidas características), que vitimaram onze pessoas: dez civis e um cabo da Ronda Ostensiva Tática Metropolitana (Rotam) da Polícia Militar do Estado do Pará (PMEPA).

Protesto em Cametá/PA contra violência da PM. Foto: Tadeu Sanches
Quem mora em muitos municípios do Pará sabe que existem, sim, milícias atuando. Foi a matança de jovens, negros, pobres, moradores de áreas periféricas, que fez, por exemplo, mais de mil pessoas tomarem as ruas de Cametá, cidade a 200 km da capital do estado, na última sexta-feira (7). Para uma população que tem cerca de 45 mil pessoas vivendo na sede, uma grande parcela tirou o nó da garganta e foi para as ruas protestar contra a violência, principalmente a institucional, a que tem agentes da segurança pública envolvidos.

Os relatos a seguir dizem muito do ocorreu nestes últimos dias, na banhada de sangue Belém do Pará. Fatos que exigem das autoridades e dos movimentos sociais organizados, bem como de toda a sociedade, uma resposta contunde. Fatos que explicam os porquês de se lutar pela desmilitarização da PM. Fatos que explicam os porquês da necessidade de se legalizar as drogas, como vem ocorrendo nos Estados Unidos, forma eficaz de se deter a guerra aos pobres e o extermínio da juventude negra.
As políticas de higienização social remontam, em Belém, aos fins do século XIX, com as políticas de “sanitarização” ementadas pelo intendente Antônio Lemos. Materializaram-se na forma de demolições de cortiços, assim como através da edição do reacionário e excludente Código de Postura do Município e, para garantir sua pérfida execução, cria-se a Guarda Municipal de Belém.

Os pobres, negros, mulatos, descalços, desempregados, gente vista como “vagabunda”, caboclos, etc., não mais podiam transitar nos mesmos espaços que a burguesia e os barões da Belle Époque. Virou crime apanhar uma simples manga doada por uma robusta no Largo da Pólvora (atual Praça da República). O que ocorre hoje são ações proporcionadas pelo estado, que seguem a mesma lógica de Lemos, mas que adquiriram mais horror, ódio, violência e preconceito de classe.

Filme de terror

Alguns blogs e periódicos, como o Jornal do Brasil, publicaram matérias informando que a própria Rotam chegava a assumir de forma “extra oficial”, inclusive através de gravações de conversas pelo citado aplicativo de mensagens, que naquela madrugada do dia 4, após a morte do “Cabo Pet”, o que se viu em Belém foram cenas de um filme do pior terror, e o número de homicídios de civis pode ter variado entre 35 a 42 mortes.
Coincidência ou não, no dia 2 de novembro foram divulgados os dados publicados na edição 2013 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os quais “reforçam a sensação de que vivemos em uma sociedade fraturada e com medo; aflita diante da possibilidade cotidiana de ser vítima e refém do crime e da violência”.

Ele traz uma terrível constatação que os jornais estamparam nessa semana: em cinco anos, a polícia do Brasil matou mais pessoas do que a polícia dos Estados Unidos nos últimos 30 anos.

Para mais informações sobre a situação em Belém, leia a postagem “A guerra na periferia”, do blogueiro Lúcio Flávio Pinto.


Queremos ver os jovens vivos | Infográfico



O Brasil é o país onde mais se mata no mundo, superando muitos países em situação de guerra. Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. 

A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.
Mais absurdo que estes números, só a indiferença. 

A morte não pode ser o destino de tantos jovens, especialmente quando falamos de jovens negros. 

As consequências do preconceito e dos estereótipos negativos associados a estes jovens e aos territórios das favelas e das periferias devem ser amplamente debatidas e repudiadas. 

O destino de todos os jovens é viver. 
Você se importa? 
Eu me importo ! 

Quero que as autoridades brasileiras assegurem aos jovens negros seu direito a uma vida livre de preconceito e de violência. E priorizem políticas públicas integradas de segurança pública, educação, cultura, trabalho, mobilidade urbana, entre outras. 

Eu quero ver os jovens vivos! 
Chega de homicídios!

Assine aqui:

Anistia Internacional

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Um submarino na ALEPA

O Soldado Tércio (PROS), membro da Polícia Militar do Estado do Pará (PMEPA), eleito nas últimas eleições deputado estadual, entrou como um submarino em comissão de organizações dos direitos humanos na Assembléia Legislativa do Estado do Pará (ALEPA).
Ele solicitou participar junto da Comissão dos movimentos sociais, que na última terça-feira, 11, tomou as ruas do centro da capital paraense e foi até a ALEPA exigir a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias; ao chegar na reunião com seis deputados, os únicos a esperar o movimento, o Soldado disse uma pérola: "Não têm policiais envolvidos em milícias". 

Uma vergonha!

O futuro deputado teve ainda o desplante de dizer que se a gente podia sair de casa e estava ali protestando, era "porque tem a polícia para proteger a população nas ruas". 
Não negamos que haja população na rua, mas semana passada vimos a página da Ronda Tática Ostensiva Metropolitana (ROTAM) no Facebook publicar após o assassinato do Cabo Figueiredo, vulgo Pet, que a tropa estava com "sangue nos olhos e a faca nos dentes". Todos os jornais do país publicaram o print do perfil de um sargento da ROTAM, o qual conclama os amigos de farda a irem às ruas, pois eles só iriam para o velório de seu colega, após fazer "eles [supostos responsáveis pela morte do Pet] chorarem pelos seus mortos".

Em ato nesta última terça-feira (11/11), haviam dezenas de famílias e professores de luto protestando, justamente porque perderam seus entes queridos na mesma noite em que a ROTAM e o sargento convocaram uma "resposta". Essa foi mais uma noite de terror e horror em Belém. Capítulo de uma insana guerra aos pobres, disfarçada de guerra às drogas. 

Relatórios da Organização das Nações Unidas, o Anuário Brasileiro da Violência, relatórios da Ouvidoria Geral do Estado do Pará e da Corregedoria de Polícia são contundentes: a maior parte dessas mortes são praticadas por policiais, os maus, infelizmente.

Sabemos que existem bons policiais (a maioria), nas polícias, mas Soldado Tércio, nunca mais apareça em nossas atividades e protestos para negar o que todo mundo sabe: que há milícias e que elas tem sim, envolvimento de policiais, e acima de tudo: que há um genocídio da população pobre, negra, favela e jovem de nosso estado e do país!

Belém: Manifestantes protestam contra chacina e pedem 'CPI das milícias'

Dez pessoas foram assassinadas na última semana. Familiares e amigos de jovem executado participam da manifestação.

Organizações sociais e de direitos humanos cobram "CPI das milícias" em Belém. (Foto: Luana Laboissiere/ G1)
"Nós queremos uma resposta do governo para o que aconteceu. Meu filho estudava, trabalhava, tinha uma vida pela frente e isso foi roubado dele", afirma Priscila Chaves, mãe de Eduardo Galucio,16 anos, uma das dez pessoas assassinadas na semana passada em Belém. Os pais de Eduardo participaram na manhã desta terça-feira (11), juntamente com dezenas de familiares e amigos de pessoas vítimas da violência, de um protesto contra a chacina e pediram a instalação de uma "CPI das milícias".

Familiares do adolescente Eduardo Galucio, morto a tiros, pedem justiça. (Foto: Luana Laboissiere/ G1)Familiares do adolescente Eduardo, morto a tiros,
pedem justiça. (Foto: Luana Laboissiere/ G1)
Nove pessoas foram assassinadas na noite da última terça-feira (4) em seis bairros de Belém. Um homem que havia ficado ferido morreu no dia seguinte no hospital. Os crimes ocorreram após o cabo da Polícia Militar Antônio Marcos da Silva Figueiredo, 43, ser morto a tiros perto da rua onde morava. Os casos estão sendo investigados pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil.

Também participaram da passeata os familiares de Márcio dos Santos Rodrigues, de 22 anos. "Meu filho tinha saído para comer um lanche perto de casa no Tapanã. Ele estava vindo de um aniversário com dois amigos em uma moto quando passaram pelas motos com os caras encapuzados. Ele recebeu três tiros porque era o último na garupa, conta Suzana Amaral, mãe do jovem, conhecido pelos amigos como um garoto alegre e sempre sorridente.

A passeata seguiu até a Assembleia Legislativa do Pará (Alepa). No local, uma comissão de manifestantes foi recebida por parlamentares.
    Movimentos sociais promovem passeata nesta terça-feira até a Assembleia Legislativa do Pará.  (Foto: Luana Laboissiere/ G1)
    Movimentos sociais promovem passeata nesta terça-feira até a Assembleia Legislativa do Pará. (Foto: Luana Laboissiere/ G1) 
Entenda o caso

Dez pessoas foram assassinadas em Belém após o cabo da Polícia Militar Antônio Marcos da Silva Figueiredo ser morto na frente de casa. Pelas redes sociais, diversas pessoas relataram que supostos policiais haviam convocado grupos para vingar a morte do cabo assassinado, declarando toque de recolher em bairros de Belém.

Segundo a Polícia Civil, falsas denúncias serão investigadas e podem ser punidas. O governo informou que aumentou o policiamento na cidade. Os casos estão sendo investigados pela Divisão de Homicídios da Polícia Civil para verificar a relação entre eles. Pelo menos seis mortes teriam características de execução.
(G1 Pará)

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Esquadrão da morte 2.0. E a epidemia de violência no Pará

por Bruno Paes Manso*
Rio de Janeiro, 1958. Notícias de roubos e assaltos fazem com que a imprensa compare a então Capital Federal à Chicago de Al Capone. Em resposta, o Comando do Exército cria o Grupo de Policiamento Especial, liderado pelo policial Milton LeCocq, que se notabiliza pela truculência. Em 1962, durante um tiroteio com um criminoso conhecido como Cara de Cavalo, o policial é baleado e morto. Seus parceiros pedem o sangue do assassino. Começa a nascer a Scuderie LeCocq, com seu símbolo de caveiras e tíbias enlaçadas, grupo que ajudaria a moldar a ideologia e as imagens da violência que contaminariam os maus policiais nas décadas seguintes.
São Paulo, novembro de 1968. Um investigador da polícia civil chamado Davi Parré é assassinado. No enterro, Correinha e outros policiais prometem na frente da imprensa que irão matar “dez bandidos para cada policial morto”. Olho por olho, dente por dente. As atividades do Esquadrão da Morte paulista têm início com a caçada à Saponga, apontado como o autor do assassinato do policial. Detentos são tirados do Presídio Tiradentes e os “presuntos” são arremessados nas estradas, alguns deles com cartazes que divulgam o nome do esquadrão.
Vingança e extermínio. A epidemia começa quando o homicídio deixa de ser o mal a ser combatido pela polícia para se transformar numa forma ilusória de controle do crime. Homicidas viram heróis oficiais, como ocorreu com o delegado Fleury, chefe do esquadrão em São Paulo. A ideia de que a morte de um “bandido” deixa o mundo mais seguro é popular, sedutora e por isso se dissemina. Vira o combustível que move as ações violenta das instituições de segurança, um veneno que vem matando lentamente os jovens pobres na sociedade brasileira.
Ocorre que não temos mais a desculpa da ignorância. O passado já nos ensinou os efeitos colaterais desse processo de autoextermínio. Em vez de apagar o fogo, a violência da polícia joga mais gasolina no incêndio.
Foto: Rodolfo Oliveira/ Ag. Pará/Fotos Públicas
Foto: Rodolfo Oliveira/ Ag. Pará/Fotos Públicas
É justamente esse impasse que a sociedade paraense enfrenta neste momento. Sede de vingança, raiva e irracionalidade de policiais que foram atacados, uma mistura de sentimentos com forte potencial para autodestruição. As ideias de extermínio, mesmo que antigas e sabidamente estúpidas, hoje se  disseminam rapidamente no Pará, na velocidade das redes sociais. Foi o que ocorreu na noite de terça-feira,  quando o policial das Rondas Ostensivas Metropolitanas (Rotam), cabo Figueiredo (Pet entre os amigos), foi assassinado ao chegar em casa. Promessas de vingança começaram a se disseminar via Twitter, WhatsApp e Facebook, inclusive em nome de lideranças de associações de praças. O esquadrão da morte 2.0. O governo paraense diz que os perfis nas redes sociais eram falsos. Ainda precisa investigar o envolvimento de policiais.
Fato é que a resposta no dia seguinte foi real. Durante a madrugada, nove pessoas foram assassinadas em bairros pobres paraenses. Testemunhas apontaram a presença de motoqueiros com capacetes e capuz como autores. Na página da Rotam no Facebook, não é de hoje que são feitas referências ao “motoqueiro fantasma” que entra em ação para executar criminosos. Um jovem de 17 anos e um cobrador de ônibus estavam entre os mortos na quarta. A busca do caçadores, ao que aparenta, foi aleatória e matou pessoas que estavam no lugar errado na hora errada.
O mesmo procedimento ocorrido em São Paulo em 2006 e 2012 depois de ataques do PCC. Policiais eram os maiores suspeitos. As punições de policiais assassinos não aconteceu e por isso cenas assim se repetem. Resta brava e dura luta das Mães de Maio contra o banditismo policial.
O resultado dessa trajetória que agora vem à tona no Pará já é conhecido. Policiais assassinos provocam mais homicídios, num efeito bola de neve. Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, quando tiveram grupos de extermínios, produziram epidemias que levaram essas três capitais a liderarem o ranking de homicídios até o ano 2000. A epidemia causou um buraco na geração de homens jovens das periferias nessas capitais nos anos 11980 e 1990. Agora, o vírus da violência se dissemina entre os paraenses, com a colaboração dos policiais incapazes de controlar a raiva e irracionalidade.
Os números já revelam os efeitos colaterais dessas crenças distorcidas. Em 2011, o Estado do Pará ficou em 4º lugar no ranking de homicídios das 27 unidades federativas do Brasil, com 40 ocorrências por 100 mil habitantes Há 10 anos, em 2001, os paraenses estavam entre os mais pacíficos, com 15 ocorrências por 100 mil, o que lhes garantiam a 20ª posição no ranking. O crescimento em uma década foi de 166%, segundo dados do Mapa da Violência. Policiais que acreditam nos homicídios como ferramenta de controle social estão entre as causas da epidemia de que extermina os pobres paraenses, assim como ocorre atualmente  em outras capitais, principalmente no Nordeste. Junto com a epidemia de violência, surgem as milícias e as quadrilhas fardadas.
Existe uma vacina contra a epidemia de mortes. Deixar de lado que o ódio e o homicídio são soluções. A consciência das instituições de que os assassinatos de suspeitos só produzem mais desordem e violência deve ser o antídoto. Violência é o caminho contrário ao da civilização e só nos leva em direção à barbárie.
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*Na secção 'Da ponte' do Jornalismo B