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domingo, 16 de abril de 2017

A Senhorita Andreza e nós


por Carlos Mendes

Nem heroína, nem mártir. Apenas uma jovem nascida num bairro pobre de Belém e igual a tantas outras que passou pela vida sem que a vida tivesse passado por ela. É fácil apontar o dedo falsamente moralista e dizer que ela não estudou porque não quis, que poderia ter se espelhado em alguém da vizinhança, focado em outro caminho na vida. 

Não falta quem diga também que estaria viva se não tivesse frequentado ambientes perigosos, onde as pessoas se drogam ou se reunem para praticar crimes. Andreza Ariani Castro, aos 22 anos, seguiu um caminho que poderia ter volta, mas não teve. Nessa idade, é mais fácil errar do que acertar e ela errou e pagou por isto, como dizem alguns donos da verdade, nas redes sociais. 

No Facebook, no Twitter, nos programas policialescos de rádio e de TV, a morte de Andreza é o assunto da hora. "Ela teve o que mereceu", sentenciou um desses julgadores cheio de virtudes e razões. "A senhorita Andreza levou o farelo", bradou outro moralista. Também há os que lamentam pelas duas crianças, filhas de Andreza, que agora não terão a mãe por perto, como antes já não tinham o pai, também assassinado.

Não importa se foi alguém de motocicleta, carro prata, carro cinza, carro preto, se foi milícia militar ou paramilitar, se foi "acerto de contas entre bandidos", o que importa é que a jovem da Cabanagem deixou de ser um problema, não se sabe se para a polícia, para o tráfico ou para os que comemoram a morte dela, inclusive compartilhando a fotografia com a cabeça coberta de sangue. Um sadismo escancarado.

Haverá inquérito ou investigação para saber quem matou Andreza? Parece que é pedir demais num Estado onde a impunidade de "justiceiros" mata jovens a toda hora, inocentes ou com ficha policial. Os governantes precisam dormir em paz, cercados de seguranças armados, cães de guarda e câmeras de vigilância. Isto é o bastante.

Nós, os que por omissão mantemos a inércia oficial, também corremos o risco de ser as próximas vítimas. Sem heroismo ou martírio. Aliás, nem precisamos de rótulos para virar estatística fúnebre. Afinal, já fizemos as nossas escolhas. Assim, podemos morrer de susto, de bala ou de vício, como na música de Caetano.

Pouco interessa que sejamos cidadãos "do bem", porque estudamos, temos profissão definida, a geladeira abastecida e bons amigos. Ou "do mal", porque somos iletrados, rebeldes, desempregados, com amigos "perdidos", a pele negra ou sexualidade diferente.

Somos iguais no abandono e na insegurança. Se culpados ou não por nossas escolhas, como Andreza Ariani Castro, pouco importa. Ela "pagou" pelo que fez ou deixou de fazer. 

E nós, também, devemos "pagar".
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Carlos Mendes é jornalista e editor do blog Ver-o-Fato.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Crônica de uma cidade arrasada II


Belém do Pará é uma cidade sitiada. Carro preto, carro prata. Homens encapuzados. Não adianta correr. Como dizem na quebrada, "é sal colorau". Expressão para o fim. Neste caso, de vidas. Dezenas e dezenas delas. Ano passado, segundo levantamento de matéria nesta semana do jornalista Carlos Méndes para O Estado de São Paulo, no Pará foram quase duas mortes por dia. O quinto estado mais violento do país. Na matéria, o promotor de justiça militar, Armando Brasil, falou que o povo está com medo. Óbvio ululante...

O povo está com medo e revoltado. Ninguém aguenta mais tanto abandono e descaso. A segurança pública é de responsabilidade, em primeira instância, do governador Simão Jatene (PSDB). Mas isso não isenta de responsabilidade o mandatário mor do país, do presidente da República fraco e ilegítimo, Michel Temer (PMDB). Contudo, o prefeito pode contribuir (e muito!) para reduzir o índice de violência e sofrimento físico, psíquico e social da população do município. Mas éo que nem de longe se presencia em Belém, no Pará e no Brasil.

A foto acima, do sofá e do lixo, fiz hoje de manhã na Conselheiro Furtado com Guerra Passos. É mais uma prova da violência a que o povo de Belém está submetido. Cotidianamente. 
Um sofá ainda em aparente bom estado. Quantas histórias guardaria? Não foi parar a toa ali. Quem deixaria ele quase no meio de uma avenida da capital? 

Acertou quem disse a chuva. Mas a chuva só não explica. A chuva sempre caiu. Como é comum a gente ver os mais velhos dizerem: "aqui não enchia". E se enche é porque tem um responsável. Ou vários. O povo e a chuva são vítimas.

Zenado Coutinho (PSDB), prefeito de Belém,  violenta a população quando faz propaganda eleitoral enganosa, um verdadeiro estelionato eleitoral. Violenta quando tem pedido definitivo de cassação de seu mandato por parte do Ministério Público Eleitoral do Estado. Violenta quando deixa de manter as coletas regulares de lixo, quando não oferece formas sustentáveis de coleta e destinação adequada dos resíduos sólidos. 
Zenaldo, Jatene, Temer, violentam o povo de todas as formas. 

Poderia ser a foto de um presídio tomado pelas facções. Poderia ser a imagem de mais um corpo estendido. Mas é de um sofá e seus amigos entulgos. Um sofá que deveria estar descansando o corpo de algum trabalhador. Que recebeu visitas. De tantas histórias para contar. Quem sabe? Hoje é mais um grande candidato a ser casa de parasitas. Ou, de repente, pega carona na próxima enxurrada até o canal mais próximo. De repente rola entupir o esgoto. Ser parte decadente de mais caos e violência para o povo.

Povo esse que não deve ficar assitindo a banda e o sofá passando, o carro preto e prata mantando, a polícia comandando milícia e o político desviando dinheiro público da saúde, educação, saneamento e segurança. As eleições passadas, com o inédito e surpreendente número de abstenções, votos nulos e brancos em todo o país, são a expressão do descontentamento dos brasileiros. 

Eles já cansaram desse velho Regime Político. As Jornadas de Junho de 2013 estão na história para corroborar com isso.
É a cara de um povo que aos poucos descobre que, como diria Fagner, "Pra ser feliz no lugar / Pra sorrir e cantar / Tanta coisa a gente inventama / Mas o dia que a poesia se arrebenta / É que as pedras vão rolar". 
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Editado às 22h25 de 25/01/2017.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Hydro Alunorte, da norueguesa Norsk Hydro, viola direitos trabalhistas em Barcarena

SINDICALISTAS SÃO IMPEDIDOS DE ENTRAR EM FÁBRICA DE ALUMINA NO PARÁ

Vista de entrada da Hydro Alunorte, em Vila do Conde, Barcarena/PA. Foto: link
Os diretores do Sindicato dos Químicos de Barcarena no Pará foram impedidos de entrar na empresa Hydro Alunorte para protocolar documento junto ao departamento de Recursos Humanos da empresa. 

O fato ocorreu nesta quarta-feira, 13, quando os sindicalistas fariam valer o resultado de uma consulta aos operários ocorrida semana passada, quando os funcionários que trabalham com resíduos sólidos rejeitaram a proposta da empresa e aprovaram o fim da super exploração, exigindo a volta da quinta turma de operários para esse setor. Hoje o setor de resíduo sólidos funciona com quatro turmas, o que faz com que os trabalhadores laborem por seis dias consecutivos e folguem apenas dois. Com 5 turmas, trabalharão seis dias e folgarão 4.

Ao impedir a entrada dos representantes do sindicato, a empresa, que hoje é de capital norueguês, rasga a convenção 87 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), a qual versa sobre a liberdade sindical. Além disso rompeu com o conceito de trabalho decente formalizado pela OIT em 1999.
Trata-se de grande abuso de autoridade, pois o Brasil e a Noruega são signatários dessa Convenção, onde reafirmam os seus compromissos de respeitar, promover e realizar, de boa fé, os princípios relativos aos direitos fundamentais no trabalho, ou seja, a liberdade de associação e o reconhecimento efetivo do direito de negociação coletiva, e a eliminação da discriminação em matéria de emprego e de profissão. 

Então como justificar uma truculência partindo da Hydro Alunorte contra o presidente e o secretário do Sindicato, os quais foram recentemente eleitos e legitimados pelos trabalhadores com a fenomenal marca de 77% dos votos? Será que na Noruega, sede da NORSK HYDRO, eles agem com essa violência contra os representantes dos trabalhadores?

Fica aqui nosso repúdio a toda forma de discriminação e truculência contra aqueles que lutam por direitos e liberdade sindical. Que a Hydro Alunorte respeite seus trabalhadores, pois antes de serem sindicalistas, são funcionários e que com seus trabalhos ajudam a construir há mais de vinte anos esta empresa.

domingo, 6 de setembro de 2015

A Síria é aqui


por Marcel Padinha

Tô aqui pensando em um monte de coisas... em um monte de ações que poderiam e podem ser tomadas para barrar essa barbárie. Mas... acima de tudo estou pensando na força que tem uma imagem... na força da mídia. E ao mesmo tempo na força da imagem de uma criança morta. Por tudo que uma criança representa ou achamos que possa representar. Falo isso, porque vivi e vivo Belo Monte.

O lugar no Brasil onde há pelo menos 04 anos mais se vitima mulheres no Brasil, crianças e adolescentes inclusive.

Altamira enterrou há alguns meses os corpos de 04 pessoas, uma delas criança de 09 anos. Estava desaparecida durante meses. Foi encontrado seu corpo...

Estuprada e morta. Estuprada e assassinada em um lugar que se tornou completamente estranho para ela.  A cidade onde viveu seus nove anos, a cidade onde por costume brincava na rua... o holocausto do mundo está na esquina.

A geopolítica do mundo é o nosso quintal. Há um mês cinco jovens foram assassinados cruelmente pela polícia em Altamira... que nunca negou o crime, inclusive.

Isso não circulou, não virou imagem... Não era na porta da Europa.

Hoje, em virtude da política de remoção das famílias atingidas por Belo Monte, trocam-se casas, ruas e vizinhos...  Em uma palavra: trocam-se vidas e dignidade por verdadeiros campos de refugiados dos grandes projetos feitos pelo governo em parceria siamesa junto as grandes empreiteiras....

Tô aqui pensando em nossas crianças... em nossos jovens.... em nossos lugares de existência e dignidade.

Estou aqui pensando que só a luta muda a vida para melhor.
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*Marcel Padinha é professor da Faculdade de Geografia da UFPA

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Total solidariedade aos professores do Paraná - Basta de repressão


Os professores do Paraná tem sido um exemplo nacional de luta e resistência contra o ajuste fiscal e arrocho salarial do governo Dilma (PT/PMDB), governadores e prefeitos. Em fevereiro, a greve impôs uma primeira derrota ao "pacotaço" do governo Richa (PSDB), que pretendia retirar direitos da categoria. 

Desde o último sábado os professores entraram novamente em greve para impedir a votação do projeto de lei enviado por Richa que quer retirar direitos previdenciários dos servidores estaduais.

Para impedir que os trabalhadores derrotem de novo o pacote de ajuste e sigam dando exemplo a outras categorias que também estão sofrendo o impacto dessa política, o governo tucano colocou a polícia para reprimi-los brutalmente. Cerca de 50 pessoas estão feridas, sendo que oito em estado grave. Os professores precisam de toda a nossa solidariedade!

Assinam esta nota: 
Juventude Vamos à Luta
Corrente Socialista dos Trabalhadores - PSOL

terça-feira, 7 de abril de 2015

Educação SIM, cadeia NÃO! Vamos à Luta contra a redução da maioridade penal!


por Eziel Duarte e Mariana Nolte

No dia 31 de março, foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara parecer favorável à admissibilidade da PEC 171/93 que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Ainda que a decisão ainda não seja definitiva e precisa passar pelos deputados federais e senadores através da Câmara e do Senado, a votação na CCJ já é o primeiro passo de um brutal ataque à juventude brasileira. Esse fato se torna ainda mais absurdo quando vemos que 60% dos deputados que votaram a favor da PEC estão sendo investigados por crimes e que tudo indica que os presidentes da Câmara e do Senado, os corruptos Eduardo Cunha e Renan Calheiros, ambos do PMDB, estão envolvidos no esquema de corrupção que está saqueando e privatizando a Petrobras. Os bandidos de colarinho branco que desviam dinheiro das escolas, hospitais e sonegam impostos estão a solta e agora querem penalizar a juventude por um problema pelo qual eles mesmos são responsáveis!

A juventude pobre e negra penalizada

“Se o jovem sabe que vai ser punido, não irá cometer um crime” é parte do discurso pró-PEC 171/93. No entanto, segundo a Secretária Nacional de Segurança Pública, apenas 0,9% dos crimes são cometidos por adolescente de 16 a 18 anos e, considerando apenas homicídios e tentativas de homicídio, o percentual cai para 0,5%. Ou seja, um discurso que não expressa os dados da violência no Brasil e que tenta mascarar a realidade da juventude, principalmente os jovens pobres e negros.

Na prática, adolescentes já são encarcerados pelo sistema “socioeducativo” que são, na verdade, verdadeiras prisões. Quase 60% dos “menores infratores” não estudavam na época que cometeram o primeiro crime, 75% já usavam drogas e, no Rio de Janeiro, por exemplo, 95% dos internos não completaram o ensino fundamental. Jovens entre 18 e 24 anos são 30% dos presos no país e o problema da violência não foi resolvido. Além disso, 61% dos encarcerados no Brasil são negros, sendo que 66% da população que “vive” nos presídios sequer concluíram o ensino fundamental.

Punir ou educar?

Quando analisamos o crime cometido por um menor, a tendência é de observarmos apenas a foto do ato infracional e não o filme completo que irá revelar a causa e o efeito que levou esse jovem a cometer crimes. No entanto, esses dados colocam a nu o coração do problema. Se à juventude são negados direitos sociais fundamentais como educação e saúde públicas, gratuitas e de qualidade, moradia e saneamento básico, o Estado a empurra para o colo do crime organizado e do narcotráfico, pois não lhe dá outra opção. A condição de miséria social produzida pelos governos é que gera a violência.

Hoje a política para juventude pobre e negra é a bala no peito nas favelas, é o “baculejo” e uma voltinha de camburão talvez para nunca mais. Essa realidade ficou evidente na última semana com a morte de Eduardo, menino de 10 anos, e de mais três jovens menores de idade, no Complexo do Alemão (RJ), durante operação da Polícia Militar. Fatos como esse, que fazem parte do cotidiano dos trabalhadores, trabalhadoras e jovens nas favelas, fazem com que o Brasil seja o país que mata 82 jovens por dia sendo que 77% são negros.

Os responsáveis tem nome, sobrenome e partido político 

O governo Dilma (PT/PMDB/PCdoB) que tem em sua base aliada o corrupto PP de Jair Bolsonaro (PP), que diz que “bandido bom é bandido morto”, é também responsável, junto com os governadores e prefeitos, pelas mortes desses jovens e pela falência do sistema educacional. Dilma e o PT não só governam com aqueles que bradam a volta do regime militar, mas apoiam e compõem governos como o de Pezão (PMDB) no RJ, que aplicaram uma política de (in)segurança pública que mata meninos como Eduardo todos os dias nas favelas. Foi Dilma quem autorizou no ano passado, no mesmo dia em que se completavam 50 anos do Golpe Militar, a invasão do Exército ao Complexo da Maré que até hoje permanece lá reprimindo, sequestrando, torturando e matando moradores. Também não podemos esquecer que, para a realização da Copa da FIFA, milhares de famílias foram removidas dos terrenos onde estavam suas casas para dar lugar a estádios e estacionamentos. Perguntamos à presidenta: onde estão hoje essas crianças e jovens que perderam sua moradia?  Além disso, o ajuste fiscal de Dilma e Levy que já retirou direitos trabalhistas através das MPs 664 e 665 e já cortou R$7 bilhões da educação -  em um total que pode chegar a R$111 bilhões de todas as áreas sociais - tem seu principal alvo a juventude pobre e negra, agravando dados como o que afirma que apenas 1% dos jovens moradores das periferias entram na universidade (pesquisa da UFPA).

Ocupar as ruas contra a redução da maioridade penal e contra o ajuste fiscal

Como diz o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), a juventude precisa estar no banco das escolas e não no banco dos réus. Por isso, é necessária uma ampla mobilização, nas ruas e nas redes, dos estudantes, trabalhadores e suas entidades, movimentos e associações de bairros, mandatos parlamentares etc. para barrar de vez essa PEC que ataca que ataca os direitos da juventude. 

Também é necessário derrotar o ajuste fiscal e os cortes de verbas nas áreas sociais de Dilma e Levy que já está aprofundando a crise social que afeta principalmente a juventude que o Congresso Nacional quer colocar nas cadeias. É necessário suspender o pagamento da dívida pública que corrói 47% do nosso Orçamento para encher o bolso dos banqueiros e investir todo esse dinheiro em educação, saúde e moradia para dar vida digna à juventude e pôr fim à violência. Precisamos dar um basta à violência policial, às UPPs e à militarização das favelas que está assassinando os nossos jovens e apoiar todas as lutas dos moradores das periferias que estão se revoltando contra essa realidade!
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Eziel Duarte é militante do Vamos à Luta UFPA e Mariana Nolte é da CST-PSOL RJ


Fonte do texto: http://vamosalutanacional.blogspot.com.br/
Fonte da charge: http://soumaisenem.com.br/noticias/reducao-da-maioridade-penal-possivel-tema-de-redacao-no-enem

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Esquadrão da morte 2.0. E a epidemia de violência no Pará

por Bruno Paes Manso*
Rio de Janeiro, 1958. Notícias de roubos e assaltos fazem com que a imprensa compare a então Capital Federal à Chicago de Al Capone. Em resposta, o Comando do Exército cria o Grupo de Policiamento Especial, liderado pelo policial Milton LeCocq, que se notabiliza pela truculência. Em 1962, durante um tiroteio com um criminoso conhecido como Cara de Cavalo, o policial é baleado e morto. Seus parceiros pedem o sangue do assassino. Começa a nascer a Scuderie LeCocq, com seu símbolo de caveiras e tíbias enlaçadas, grupo que ajudaria a moldar a ideologia e as imagens da violência que contaminariam os maus policiais nas décadas seguintes.
São Paulo, novembro de 1968. Um investigador da polícia civil chamado Davi Parré é assassinado. No enterro, Correinha e outros policiais prometem na frente da imprensa que irão matar “dez bandidos para cada policial morto”. Olho por olho, dente por dente. As atividades do Esquadrão da Morte paulista têm início com a caçada à Saponga, apontado como o autor do assassinato do policial. Detentos são tirados do Presídio Tiradentes e os “presuntos” são arremessados nas estradas, alguns deles com cartazes que divulgam o nome do esquadrão.
Vingança e extermínio. A epidemia começa quando o homicídio deixa de ser o mal a ser combatido pela polícia para se transformar numa forma ilusória de controle do crime. Homicidas viram heróis oficiais, como ocorreu com o delegado Fleury, chefe do esquadrão em São Paulo. A ideia de que a morte de um “bandido” deixa o mundo mais seguro é popular, sedutora e por isso se dissemina. Vira o combustível que move as ações violenta das instituições de segurança, um veneno que vem matando lentamente os jovens pobres na sociedade brasileira.
Ocorre que não temos mais a desculpa da ignorância. O passado já nos ensinou os efeitos colaterais desse processo de autoextermínio. Em vez de apagar o fogo, a violência da polícia joga mais gasolina no incêndio.
Foto: Rodolfo Oliveira/ Ag. Pará/Fotos Públicas
Foto: Rodolfo Oliveira/ Ag. Pará/Fotos Públicas
É justamente esse impasse que a sociedade paraense enfrenta neste momento. Sede de vingança, raiva e irracionalidade de policiais que foram atacados, uma mistura de sentimentos com forte potencial para autodestruição. As ideias de extermínio, mesmo que antigas e sabidamente estúpidas, hoje se  disseminam rapidamente no Pará, na velocidade das redes sociais. Foi o que ocorreu na noite de terça-feira,  quando o policial das Rondas Ostensivas Metropolitanas (Rotam), cabo Figueiredo (Pet entre os amigos), foi assassinado ao chegar em casa. Promessas de vingança começaram a se disseminar via Twitter, WhatsApp e Facebook, inclusive em nome de lideranças de associações de praças. O esquadrão da morte 2.0. O governo paraense diz que os perfis nas redes sociais eram falsos. Ainda precisa investigar o envolvimento de policiais.
Fato é que a resposta no dia seguinte foi real. Durante a madrugada, nove pessoas foram assassinadas em bairros pobres paraenses. Testemunhas apontaram a presença de motoqueiros com capacetes e capuz como autores. Na página da Rotam no Facebook, não é de hoje que são feitas referências ao “motoqueiro fantasma” que entra em ação para executar criminosos. Um jovem de 17 anos e um cobrador de ônibus estavam entre os mortos na quarta. A busca do caçadores, ao que aparenta, foi aleatória e matou pessoas que estavam no lugar errado na hora errada.
O mesmo procedimento ocorrido em São Paulo em 2006 e 2012 depois de ataques do PCC. Policiais eram os maiores suspeitos. As punições de policiais assassinos não aconteceu e por isso cenas assim se repetem. Resta brava e dura luta das Mães de Maio contra o banditismo policial.
O resultado dessa trajetória que agora vem à tona no Pará já é conhecido. Policiais assassinos provocam mais homicídios, num efeito bola de neve. Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo, quando tiveram grupos de extermínios, produziram epidemias que levaram essas três capitais a liderarem o ranking de homicídios até o ano 2000. A epidemia causou um buraco na geração de homens jovens das periferias nessas capitais nos anos 11980 e 1990. Agora, o vírus da violência se dissemina entre os paraenses, com a colaboração dos policiais incapazes de controlar a raiva e irracionalidade.
Os números já revelam os efeitos colaterais dessas crenças distorcidas. Em 2011, o Estado do Pará ficou em 4º lugar no ranking de homicídios das 27 unidades federativas do Brasil, com 40 ocorrências por 100 mil habitantes Há 10 anos, em 2001, os paraenses estavam entre os mais pacíficos, com 15 ocorrências por 100 mil, o que lhes garantiam a 20ª posição no ranking. O crescimento em uma década foi de 166%, segundo dados do Mapa da Violência. Policiais que acreditam nos homicídios como ferramenta de controle social estão entre as causas da epidemia de que extermina os pobres paraenses, assim como ocorre atualmente  em outras capitais, principalmente no Nordeste. Junto com a epidemia de violência, surgem as milícias e as quadrilhas fardadas.
Existe uma vacina contra a epidemia de mortes. Deixar de lado que o ódio e o homicídio são soluções. A consciência das instituições de que os assassinatos de suspeitos só produzem mais desordem e violência deve ser o antídoto. Violência é o caminho contrário ao da civilização e só nos leva em direção à barbárie.
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*Na secção 'Da ponte' do Jornalismo B 

segunda-feira, 31 de março de 2014

"Hoje fui estuprada. A calcinha, em frangalhos no chão, só não ficou mais arrasada do que eu"


Quem me estuprou


Foto: Marcos Felipe
Por Aline Valek*

Hoje fui estuprada. Subiram em cima de mim, invadiram meu corpo e eu não pude fazer nada. Você não vai querer saber dos detalhes. Eu não quero lembrar dos detalhes. Ele parecia estar gostando e foi até o fim. Não precisou apontar uma arma para a minha cabeça. Eu já estava apavorada. Não precisou me esfolar ou esmurrar. A violência me atingiu por dentro.

A calcinha, em frangalhos no chão, só não ficou mais arrasada do que eu. Depois que ele terminou e foi embora, fiquei alguns minutos com a cara no chão, tentando me lembrar do rosto do agressor. Eu não sei o seu nome, não sei o que faz da vida. Mas eu sei quem me estuprou.

Quem me estuprou foi a pessoa que disse que quando uma mulher diz “não”, na verdade, está querendo dizer “sim”. Não porque esse sujeito, só por dizer isso, seja um estuprador em potencial. Não. Mas porque é esse tipo de pessoa que valida e reforça a ação do cara que abusou do meu corpo.

Então, quem me estuprou também foi o cara que assoviou para mim na rua. Aquele, que mesmo não me conhecendo, achava que tinha o direito de invadir o meu espaço. Quem me estuprou foi quem achou que, se eu estava sozinha na rua, na balada ou em qualquer outro lugar do planeta, é porque eu estava à disposição.
Quem me estuprou foram aqueles que passaram a acreditar que toda mulher, no fundo no fundo, alimenta a fantasia de ser estuprada. Foram aqueles que aprenderam com os filmes pornô que o sexo dá mais tesão quando é degradante pra mulher. Quando ela está claramente sofrendo e sendo humilhada. Quando é feito à força.

Quem me estuprou foi o cara que disse que alguns estupradores merecem um abraço. Foi o comediante que fez graça com mulheres sendo assediadas no transporte público. Foi todo mundo que riu dessa piada. Foi todo mundo que defendeu o direito de fazer piadas sobre esse momento de puro horror.

Quem me estuprou foram as propagandas que disseram que é ok uma mulher ser agarrada e ter a roupa arrancada sem o consentimento dela. Quem me estuprou foram as propagandas que repetidas vezes insinuaram que mulher é mercadoria. Que pode ser consumida e abusada. Que existe somente para satisfazer o apetite sexual do público-alvo.

Quem me estuprou foi o padre que disse que, se isso aconteceu, foi porque eu consenti. Foi também o padre que disse que um estuprador até pode ser perdoado, mas uma mulher que aborta não. Quem me estuprou foi a igreja, que durante séculos se empenhou a me reduzir, a me submeter, a me calar.

Quem me estuprou foram aquelas pessoas que, mesmo depois do ocorrido, insistem que a culpada sou eu. Que eu pedi para isso acontecer. Que eu estava querendo. Que minha roupa era curta demais. Que eu bebi demais. Que eu sou uma vadia.

Ainda sou capaz de sentir o cheiro nauseante do meu agressor. Está por toda parte. E então eu percebo que, mesmo se esse cara não existisse, mesmo se ele nunca tivesse cruzado o meu caminho, eu não estaria a salvo de ter sido destroçada e de ter tido a vagina arrebentada. Porque não foi só aquele cara que me estuprou. Foi uma cultura inteira.

Esse texto é fictício. Eu não fui estuprada hoje. Mas certamente outras mulheres foram.
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*Aline Valek edita o blog Ficções da Aline Valek. 
Atualizado às 18h, 03/04/2014

Ninguém merece ser estuprada(o)


Por Primavera Radical

Queremos lembrar daquel@s que nem de longe têm sido aceit@s pacificamente em nossa sociedade, que apesar das conquistas seguem sendo agredidos, violentados e assassinados diariamente; que se vestem de irreverência e com muito jogo de cintura sobrevivem a toda intolerância e violência descabida à sociedade que diz quem e como devemos ser e nos comportar.

Vivas aos que lutam pela escolha de serem livres, serem aceit@s: gays, lésbicas, bis, trans, travestis e drags que também não merecem ser estuprad@s!!

Essa luta é de todxs, pois "Quando uma mulher avança, nem um homem retrocede!"!