sábado, 5 de maio de 2018

Aniversário de Marx, presente dos jornalistas: Barbalhos são derrotados no TST


por Daniele Brabo

Ontem eu estava super cansada quando recebi a notícia de que vencemos. Estava na casa de amigos e simplesmente, na hora, não assimilei a informação. Passou como um “zap” ou feed qualquer em meio a outros assuntos.
Hoje a ficha caiu. Acordei e pensei: a justiça chegou. Nesses mais de 4 anos de espera eu desacreditei que a verdade prevaleceria. Em um país onde a corrupção é lei, políticos são protegidos e o povo padece como a ponta mais frágil do sistema, eu - povo - desacreditei de que existiria justiça. Mas ela veio. Ela chegou ontem. Definitivamente vencemos. O TST publicou: ganhamos a causa! (http://www.tst.jus.br/…/asset_publ…/NGo1/content/id/24575311)

Ainda há algum caminho a se percorrer. Cabe recurso protelatório. Porém, a causa foi reconhecida judicialmente. Eles entenderam que o tempo todo estávamos falando a verdade.
E que se frise que em nenhum momento foi/é por dinheiro (ele ainda deve demorar a sair, diga-se de passagem). Nada paga os reais danos morais. Ansiedade, compulsão, distúrbios de sono foram algumas conseqüências cruéis que se instalaram em mim. Revisar repetidamente a cena horrenda daquela demissão praticamente na calçada na Enéias Pinheiro... dia desses achei o vídeo na minha nuvem, nem consegui terminar de ver. Embrulha o estômago.
Aquele setembro de 2013 foi necessário. Hoje eu vejo os repórteres cobrindo pauta de Polícia com colete a prova de bala e penso no nosso lema: “AOS QUE VIRÃO”. Não existiria frase mais cabível a todo o sentimento que nos moveu. Tudo que veio depois - retaliações, demissões - não foi em vão.
Ao longo do processo eu repetia em mantra: estamos com a verdade! Não vamos perder! Porém, no fundo, eu duvidei que realmente a nossa voz seria ouvida. Mas ela foi.
“A Sexta Turma do Tribunal Superior do Trabalho, por unanimidade, considerou que a despedida consistiu em ato discriminatório e em conduta antissindical da empresa”, diz o texto no site do TST. Enfim hoje eu acordei, respirei fundo e tive a certeza: a verdade venceu.
Foto de 2014
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Nota do blog
O texto de Daniele Brabo, jornalista, foi publicado neste dia 05 de maio de 2018 em sua conta no Facebook. Brabo foi uma das demitidas, depois que expulseram na greve de setembro de 2013, as condições de moderna escravidão as quais eram submetidos nas redações do Diário do Pará e sua versão on line, DOL.
Os Barbabalho, proprietários do jornal, além de carrascos e perseguidores, são mentirosos, manipuladores e agora precisam ser derrotados também nas urnas. Há quase quarenta anos no poder, Jader quer deixar seu filho como herdeiro político, o ministro da integração nacional de Temer, Helder Barbalho. Como o pai, populista e corrupto. Denúncias não investigadas de seu tempo como prefeito de Ananindeua/PA e o uso da máquina ministerial para fins eleitoreiros, além de campanha antecipada e tráfico de influência, são marcas de Helder. Aliás, da família. Sua mãe, Elcione Barbalho e seu primo, José Priante, são deputados federais. Todos da mais antiga quadrilha em atividade política no país: o MDB. Desde a Ditadura Militar prestando verdadeiros desserviços ao país.
Aos "gatos pingados", como a direção do grupo RBA, empresa da família que engloba TV, rádios, jornal e portal, nossos parabéns! Vocês fizeram história e nos ensinaram mais uma vez que "só a luta muda a vida para melhor".
Bravo, Daniele! E parabéns aos demais amigos e companheiros que ousaram lutar e fazer uma das mais bonitas greves de nosso tempo. Nada melhor que ir dormir com essa notícia aos 200 anos do nascimento de Karl Marx, que dentre tantas questões fundamentais no campo das ciências humanas, dedicou-se com entusiamo para a produção jornalística e o estudo da imprensa. O pensador que melhor expôs os ardis dos patrões para explorar a classe trabalhadora, teve confirmada mais uma vez sua teoria. Tanto é que amanhã você não verá uma linha sobre a derrota de seus principais inimigos nas páginas de O Liberal, da família Maiorana. A greve já tinha cumprido sua tarefa e encerrara vitoriosa, mas sempre é bom confirmar, fato que nem a justiça burguesa, o Tribunal Superior do Trabalho (TST), pode negar: os grevistas tinham razão, jornalista vale mais e os barbalhos são escravocratas.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Barcarena a sombra de Mariana

Maria do Socorro, presidente da Cainquiama, quilombola, ameçada de morte, em protesto
contra os crimes da Hydro Alunorte em Barcarena. Foto: Cainquiama/Facebook.
por Marcus Benedito
Maria do Socorro Costa da Silva, líder comunitária de uma das 60 comunidades tradicionais atingidas pelas indústrias do Distrito Industrial de Barcarena, nordeste do Pará, já teve sua casa invadida seis vezes. A última ocorreu dia 05 de janeiro de 2018. Um capitão da Polícia Militar do Estado do Pará e mais 4 policiais foram até sua residência e agiram de forma truculenta, sob a justificativa de que estavam fazendo busca de um “suspeito”. Evidente tentativa de intimidação. Fato de extrema gravidade que expõe uma das cadeias que envolvem multinacionais poderosas, agressões ao meio ambiente e desrespeito às populações tradicionais.
Socorro Silva, como a líder comunitária é conhecida, dentre várias lideranças, vêm sendo perseguida, pois resolveu se levantar contra os desmandos, não só da empresa norueguesa Norks Hydro, assim como da Bunge, Imerys, etc. Desde dezembro que os protestos no Distrito Industrial de Barcarena ficaram mais intensos, pois os efeitos nocivos dos empreendimentos tornaram-se insuportáveis. É o que denunciam milhares de pessoas, Ministério Público Estadual, Federal e Defensoria Pública do Estado do Pará.
Vermelho cor de morte
No dia 17 de fevereiro, o jornalista Carlos Mendes publicou com exclusividade em seu blog Ver-o-Fato, entrevista, fotos e imagens depois que uma das bacias de rejeitos sólidos da mineradora Hydro Alunorte transbordou, atingindo dezenas de comunidades em Barcarena, assim como igarapés, rio Mucurupi, solo e poços de toda a região.
Imagem do dia 17/02, após transbordo de lama tóxica
da Hydro. Fonte: Facebook.
O Relato de dona Maria Salustiana Cardoso, idosa de 68 anos, dá a dimensão do sofrimento e angústia pela qual passam 400 famílias que estão imediatamente no olho da tsunami de lama tóxica. Moradora de uma comunidade com o sugestivo nome de Bom Futuro, ela viu sua casa ser invadida por água na madrugada de sábado. Com a residência a menos de 40 metros de uma das bacias de rejeitos minerais da norueguesa Norks Hydro “ela foi acordada por uma chuva muito forte e entrou em pânico. A água havia entrado na residência e alagado tudo, causando-lhe prejuizos materiais. O que mais chamou a atenção dela, porém, foi a coloração da água. “Muito vermelha, parecia sangue”.”
A matéria de Carlos Mendes revolta, amedronta e espanta. Chamam de bacia, mas as montanhas de rejeitos tóxicos que transbordaram têm incríveis 30 metros de altura, mais se assemelhando a uma montanha ou morro, o que expõe o tamanho da gravidade e sanha dos governos que permitiram a instalação dessa máquinas de destruição na Amazônia. “Enquanto dona Maria Salustiana pedia a ajuda de vizinhos, também com suas casas inundadas, outro morador da área chegava com o alerta de que algumas bacias da Hydro haviam transbordado e vazado a lama vermelha, que passou a misturar-se com a água da chuva nas ruas alagadas.”.
Mais dia um protestos dos moradores de Barcarena contra os
crimes da Hydro Alunorte. Foto: Maycon Nunes.
Dona Salustiana retrata uma verdadeira calamidade. “O que está contecendo aqui é muito triste.”. Sua entrevista para Mendes faz a indignação fervilhar em qualquer um. “A água vermelha entrou por todos os cantos. O pessoal veio aqui pra ver e ficou com muito medo.”. Indagada sobre sua condição de saúde, ela responde que está “queimando por dentro”, pois foi obrigada a tomar água de seu poço, mesmo após este ser atingido pela água contaminada. “Estou com uma ardência, uma queimação dentro de mim, principalmente no estômago. Tem horas que não posso nem almoçar ou comer alguma coisa, porque esse ardimento no meu estômago não deixa. Eu estou secando de uma hora para outra, por dentro, me sentindo mal.”
A Norsk Hydro, que segue impune por todos os crimes até aqui cometidos contra os povos tradicionais e seu meio ambiente, teve a desfaçatez de negar o sinistro. Não precisa ser pesquisador para ver que esse povo vive um acentuado sofrimento psicossocial. Estão doentes do corpo e da alma. A lama tóxica, além de bauxita (responsável pela tonalidade vermelha), é composta de bário, chumbo, soda cáustica, alumina e outros metais pesados. O Instituto Evandro Chagas divulgou laudo na quinta-feira (22/02), em que atesta que foram encontrados esses metais na lama que invadiu tudo na madrugada do último dia 17.
Tragédia anunciada
Esta é a 16ª agressão ambiental de graves proporções promovidas pela Hydro nos últimos 20 anos. Encravada no coração de uma das maiores e mais importantes bacias hidrográficas da Amazônia, a Norsk Hydro, multinacional norueguesa, que tem como um dos garotos propagandas, o vocalista da banda A-HA, é proprietária da Hydro Alunorte e da Hydro Albrás. A primeira transforma a bauxita em alumina e a segunda, alumina em alumínio. Os resultados desse processo minero siderúrgico são catastróficos.
Idealizadas pelos governos militares, que sempre pensaram a Amazônia como um ilimitado paiol de riquezas, porém vazio de gente, vidas e vontades, foram construídas após muitas transações eivadas de escândalos, corrupção e morte. Para que duas megas indústrias eletro intensivas pudessem existir, era necessário produzir energia. Eis que o governo militar e seu então ministro da fazenda, Delfim Neto, conseguem a peso de muita propina, a tecnologia para que metade das turbinas fossem feitas em Paris e metade aqui, assim iniciam a construção de uma das maiores represas do mundo: a Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Isso tudo nos conta o jornalista Lúcio Flávio Pinto, em seu livro Tucuruí: a barragem da Ditadura.
Fez-se luz, a corrupção já tinha, necessitava apenas de um governo local subserviente. Nem precisou inventar a pólvora. Até ensaiou firula, resistir no início, mas não tardou e logo o então governador do estado do Pará, Jader Fontenele Barbalho, entrou em “acordo” com os japoneses, detentores da tecnologia, e essa monstruosidade pode ser assentada em Vila do Conde, Barcarena, às margens da magnifica baía do rio Pará, com impactos incalculáveis em tudo que habita a região, endividando os cofres públicos e adoecendo a população.
Há algo de podre no reino do Grão Pará
Não são só as carcaças das 5.000 mil cabeças de gado que afundaram com o navio Haidar em outubro de 2015 no porto de Vila do Conde, que fedem nos ares de Barcarena e região. Por essas bandas, há muito, que a sujeira dos governos exala seu odor e é vista na pele da população, que sofre com os impactos derivados do Distrito Industrial de Barcarena, o maior de todo o Norte do país. Até chuva ácida já foi comprovada em Barcarena. Felizmente o Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) e Ministério Público Federal no Pará (MPF-PA) apresentaram duas denúncias contra a Hydro Alunorte. Em uma delas são solicitados o embargo de parte das operações da empresa e que as famílias atingidas sejam indenizadas pelos prejuízos materiais e físicos causados.
Contudo, o prefeito de Barcarena, Antonio Carlos Vilaça (PSC), o governador Simão Jatene (PSDB), seguem agindo como se nada tivessem a ver com essa barbárie que ocorre em Barcarena. A grande mídia do estado, nas mãos da família Barbalho e Maiorana, encobrem como poeira da lama tóxica, os reais motivos dessa tragédia se abater na regiã. Quase nunca citam os responsáveis. Pelo contrário, até pouco tempo a TV Liberal mostrava o Morten Harket, vocalista do A-HA, chegando em seu cavalo Audi para o próprio vistoriar como andavam as atividades de sua empresa. Lógico, numa peça esdrúxula e muito distante da realidade. A propaganda aceita quase tudo. E a farsa mostrava funcionários das Norsk e povo da região, como se não adoecessem, devido as péssimas condições de trabalho e como moradores de um paraíso na terra. Só que não.
Vilaça até hoje, nada fez para que os responsáveis pela tragédia do Haidar, fossem punidos e para que seu povo fosse devidamente indenizado. Pelo contrário, até água mineral parou de distribuir para a população ribeirinha. Jatene, através da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS), faz vista grossa e permite que empresas como Hydro, Imerys e Bungue sigam impunimente causando prejuízos de proporções incalculáveis para o meio ambiente e o povo da região do Baixo Tocantins, principalmente de Barcarena. Até o banco de dados onde constava o registro de uma área de preservação foi deletado do banco de dados da SEMAS. Fatos gravíssimo, que exige comissão independente para investigar e punir os culpados, a começar pelo governador Jatene. Pior que tudo, a floresta e a área desapareceram para dar lugar às famigeradas bacias da Hydro Alunorte.
Total apoio às famílias! Indenização e remoção para um local seguro já!
É preciso se solidarizar e defender as lideranças comunitárias ameaçadas de morte
A Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SDDH-PA), a Defensoria Pública do Estado do Pará e outras entidas acompanham o caso de diversas lideranças da região que vêm denunciando na corregedoria de polícia e ministérios públicos as ameaças de morte que têm sofrido por exporem o que a Hydro até semana passada negava: as bacias de rejeito da Hydro Alunorte podem romper a qualquer momento.
O país ainda vive sob o signo da tragédia de Mariana. A BHP Billiton/Samarco/Vale também negavam irregularidades nas suas operações e foram responsáveis pela destruição do rio Doce e pela morte de cerca de 20 pessoas no estado de Minas Gerais, quando uma bacia de rejeitos da empresa se rompeu despejando toneladas de lama tóxica sob a comunidade de Bento Rodrigues e ecossistema do Doce. Nada foi feito para recuperar o rio Doce e até hoje ninguém foi devidamente indenizado.
Esse filme não é ficção. Desde dezembro que o alerta vermelho, cor da lama da morte, se acendeu em Barcarena. Inclusive, vários funcionários da Norsk Hydro, que não querem se identificar com medo de represálias, assumem que a situação é grave e que não está descartado rompimento das bacias de rejeitos da Hydro Alunorte.
O que exige da gente solidariedade para com os que lutam em defesa de suas vidas e do meio ambiente na região. A cadeia de produção da bauxita mata. Porque o a lógica do capitalismo, o lucro, também mata. Eis o lago Batata em Oriximiná, que morreu vermelho e não pode mais contar história. Foi poluído por ter sido usado como receptador de descarte da mineradora Mineração Rio do Norte, no vale do Rio Trombetas, Oeste do Pará. É preciso lutar e exigir punição para os proprietários da Norsk Hydro, para Vilaça, Jatene e Temer, verdadeiros responsáveis por essa calamidade pública.
Indenização já para todas as 400 famílias atingidas pela poluição da Hydro Alunorte e demais empresas do Distrito Industrial de Barcarena!
Que os governos distribuam água potável e comida para população das 60 comunidades!
Por um plano imediato de remoção das famílias (de acordo com suas vontades e necessidades)!
Por um projeto de recuperação e despoluição do meio ambiente, dos igarapés, rios e solo de Barcarena!
Punição e confisco dos bens de todos os executivos da Nork Hydro, Vilaça, Jatene e de seus secretários!
Estatização sob o controle dos trabalhadores da Hydro Alunorte, Hydro Albrás e demais empresas envolvidas em crimes ambientais em Barcarena e todo país!

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Eliane Brum, Tuíca, tartaruga, peixe, Belo Monte e dor da fome

Em reportagem publicada dia 07 de janeiro numa série especial simultânea para o El País e site Amazônia Real, a jornalista Eliane Brum nos leva a conhecer a vida de um personagem, o pescador conhecido como Tuíca, Antonio Davi Gil, bem como de sua família e todos os problemas desencadeados pela construção da Usina Hidrelétrica de belo Monte, no rio Xingu, Pará.

Com uma linguagem simples, Eliane se confunde com o local. Consegue captar a essência do Amazônida, de sua gente e de tudo aquilo que aqui habita e depende. Fala com tamanha proximidade que parece que a gente estava no papo. Sua letras nos embalam, ainda que a cena descrita seja um cenário de dor, sofrimento, tragédia.

É o que a gente vai encontrar na reportagem abaixo. Belo Monte deixou impactos tão fortes, que o grosso desse tsunami ainda nem rebentou de verdade. Aos poucos, vozes críticas, como a grande repórter, vão se encontrando com os guerreiros e sofredores xinguanos e amazônidas. E o mar de destruição e crimes desse e outros empreendimentos são expostos e combatidos. Lutar, navegar e pescar é preciso. Porque viver é preciso. E Tuíca que nos diz que pescar não é nada fácil. Não é um esporte. É difícil. Pescando, forçando a vista, quase fica cego. Belo Monte piorou tudo isso. Ninguém melhor que Eliane Brum para nos contar essa história:


O RIBEIRINHO E A TARTARUGA

Nada é simples entre o rio, o humano e o não humano



Tuíca quase não enxerga. Uma película branca cobre os seus olhos, o esquerdo com mais ferocidade. Aos 51 anos de uma vida de pesca, caça e enxada na floresta amazônica, às vezes ele se levanta e a coluna vertebral não o acompanha. Tuíca então se assemelha a uma tartaruga, “quase cheirando o chão”, até que lentamente as vértebras se espicham. Ainda assim é um dos pescadores mais extraordinários da região. Porque Tuíca adivinha os bichos com sentidos que a floresta inventou pra ele. É um homem de silêncios e, como tantos ribeirinhos ali, de tristeza por uma vida que é sempre um quase. Quando tudo quase está bem, há um barramento.

Desde que o peixe rareou, pelo desequilíbrio causado por Belo Monte, as tartarugas passaram a ser mais atacadas


Desta vez, um barramento concreto. Desde que a Usina Hidrelétrica de Belo Monte se instalou no Xingu, os peixes começaram a rarear. Em vários lugares e também na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Vitória de Souzel, criada em 2016, bem ao lado do Refúgio de Vida Silvestre Tabuleiro do Embaubal. Com a escassez de peixes, Tuíca e os outros precisam ir cada vez mais longe para alimentar a família, a dele com oito filhos. E esse cada vez mais longe é também invadir o território de outros pescadores, o que pode gerar tensão onde havia paz. O desequilíbrio instalado por Belo Monte ecoa muito mais longe e em camadas mais profundas do que os relatórios da burocracia.

Essa é a agonia de Tuíca e de muitos outros. Alguns deles capitulam e, para não passar fome, voltam-se para o comércio ilegal de tartarugas. Se durante o percurso de migração das tartarugas há caça em grande escala, organizada em ambiente de cidade, na região protegida da floresta o que existe é também uma pressão pela fome.

Os ribeirinhos são grandes sobreviventes - ou viventes. Não fosse essa capacidade de abrir caminhos entre tantas barreiras que desabam sobre as suas vidas, a maioria delas produzida pelo Estado e por grandes obras e projetos, não estariam ali. São, eles mesmos, resultados de uma longa cadeia de acontecimentos, a maioria descendentes de nordestinos pobres trazidos para a Amazônia para cortar seringa no final do século 19 ou como “soldados da borracha”, na Segunda Guerra Mundial, e depois abandonados na floresta sempre que o preço do produto caiu.

Tuíca carrega essa sina no corpo. Acredita que perdeu seus olhos por forçá-los cortando seringa desde criança, no bruxoleio da lamparina. No passado, ele também foi um grande caçador de tartarugas. E esse orgulho ainda aparece como uma dessas contradições de homem que vive entremundos. Além de adivinhar os bichos, Tuíca é também um criador habilidoso de traquitanas de caça, com muito pouco ele faz muito de tudo. E aquilo em que ele é bom, mais do que bom, passou a ser crime. O que ele é de melhor, já não pode ser.

Uma tartaruga-da-amazônia durante a desova na Ilha do Juncal, em outubro de 2017 
O impasse de Tuíca é o mesmo de muitos ribeirinhos que vivem com suas famílias na região do Tabuleiro. É o de não ter mais peixe e o de ter fome que não é só de comida, mas também de outras necessidades que vão aparecendo num mundo tão perto da cidade, nos filhos que vão para a escola se iluminar das letras para não ser analfabeto da escrita como o pai. E tendo essa fome toda ver a tartaruga passando.

Assim, no tempo do nascimento dos filhotes, a bióloga Cristiane Costa Carneiro leva famílias de ribeirinhos de diferentes comunidades para que ajudem a salvar os retardatários, para que as tartaruguinhas não morram na enchida da maré. É também uma estratégia para que crianças e adultos tenham um encontro que não seja apenas entre fome e comida. Mas é complicatório, como me explicou um menino. Para as crianças ribeirinhas, é claro como noite de lua cheia o sentido de proteger os filhotes, porque um dia eles vão crescer e virar comida. E faz todo sentido proteger comida, num cotidiano em que ela não brota na prateleira de supermercado, mas precisa ser pescada, cultivada, extraída ou caçada. Num cotidiano em que a alimentação é um processo que envolve o corpo desde o princípio.

Pergunto a dois pequenos: “Por que vocês estão ajudando a tartaruguinha a sair do ninho?”. Maxwell da Conceição, de 9 anos, diz: “Para ela ficar grandona”. Max Abreu, de 7, completa: “Pra depois nós comer um pouquinho”.

Ivanilson da Conceição Gil, de 4 anos, foi uma das crianças ribeirinhas que ajudou a desenterrar os filhotes atrasados e levá-los até o rio 
Tuíca compreendeu que a tartaruga devia viver, porque também ensinou aos doutores o que era uma tartaruga. E, quando ensinou, falou da beleza do bicho, que é também um adivinhador sagaz dos humanos. “Se eu vou no rio entrar numa ilha dessa aqui eu vou prestar atenção em tudo. Na maresia, no jeito dela, porque a tartaruga é grande. Mas mal você vê a maresiazinha dela num mato desse aí. E mal trisca num cipó. Ela não sai batendo num trem desse não. Só quando ela se espanta. Mal você vê ela triscando. Uma raminha, um cipozinho. E quando ela buia, mal você vê uma tiriricazinha. Ela é grande, mas ela sabe muito de água. Ela sabe mais do que eu.”

Ele ri. E explica, com admiração: “Se você fizer um barulhinho assim (faz um barulho com a boca) no casco, e a maresia do casco der na tartaruga, você não pega ela mais. Ela não carece lhe ver, não, só a maresia triscou nela, mas ela já vai. Ela não vai nem olhar o que é. Se a cigana (um tipo de pássaro) gritar chê, chê, chê, ela já buia pra ver o que é, já sabe que é gente. E ela não buia errado, não, só buia certo na gente. Puxa o olhar pra ver onde tá a zoada. Põe a cabeça pra fora e fica rodando. É a cigana que avisa ou o calango que cai dentro da água. Tei tei tei. Ela olha certinho pra gente. É impressionante”.

Tuíca pesca com a ajuda de outros sentidos, já que os olhos cobertos pela catarata pouco enxergam 
Tuíca, quando caçava mais Luiz e mais outros, “não triscava”. “A gente é silêncio demais no mato, não faz maresia de nada, não trisca em nada”. Mas Tuíca compreendeu, deixou as tartarugas viverem sem ter o casco fincado pelo seu tapuá. Mas e agora, que o peixe sumiu? Como Tuíca protege seus oito filhos? Tuíca fica então ameaçado também. Sem peixe, Tuíca é um homem à deriva. E por isso constrói uma canoa em que caiba todos os seus oito filhos. Uma canoa bem grande, uma em que não sobre um.

Talvez seja preciso entender o que é tristeza e o que é alegria para Tuíca.

Pergunto a ele qual foi o dia mais triste da sua vida. E ele diz: “Você pensa no seu filho e você vai pro rio e não traz o peixe. Passa três dias e vem sem nada. Aí você sabe que lá em casa ficou difícil. Você corre pra lá, corre pra cá. Você tem que levar. Mas você não leva e fica sem jeito de chegar em casa sem nada. Aí é triste porque as crianças falam: 'pai, quero comer'. E não tem”.

Pergunto a ele qual foi o dia mais alegre da vida dele. E Tuíca diz: “Quando eu vou, e eu venho cheio de peixe, eu venho animado.”

As pessoas da cidade acham que pescar é fácil. Os pescadores “esportivos”, que vão se divertir nos rios do Brasil, também pensam que pescar é fácil. Mas pescar para ganhar a vida é demasiado difícil. Tuíca quase não dorme. Ou dorme de pedacinho. “Eu não amanheço o dia em rede, não, e nem anoiteço em rede. Difícil. Aqui eu amanheço na maré. Por exemplo, a maré vai, daqui a pouco ela vazou. Se eu tivesse aqui pescando, já tava no rio uma hora dessa. Aí só ia chegar pra cá 6 horas da tarde. Aí quando for umas 2 da madrugada, já tô saindo. Aí só chego de manhã.”

A vida do pescador é determinada pela lua e pelas marés – e destruída pelas grandes obras que bagunçam a natureza


A lua, que manda nas marés, também manda no pescador. “Se a maré de boca da noite tiver vazando, eu boca da noite já saio também. Aí, quando der umas horas, quando tá perto pra encher, eu venho embora. Aí tem o luar que não presta pra pescar. Aquele luarzão é ruim de peixe. Aí eu espero a lua assentar que eu saio. Conforme a hora que ela assentar, se esconder do mato pra cá, eu saio.” E assobia, pra explicar como a lua assenta.

Quando peço pra me contar sua história, Tuíca diz que está velho demais pra contar ela inteira. Não por fraqueza, mas porque é muita vida. E quando a vida é tanta, já não cabe num contar só. Mas conta que seu nome do documento é Antonio Davi Gil, mas que virou Tuíca por causa de um jogador do Paysandu de quem o pai gostava muito. E Tuíca, o nome, pegou mais que aninga na beira do rio. Conta mais um pouco sobre o nomear das coisas. Onde ele mora se chama Ilha da Paz, mas o lugar já teve outros chamamentos. E nenhum dos nomes, nem o da paz, foi ele quem colocou. “É sempre o pessoal dos documento que bota nome”. E assim Tuíca diz um bocado.

A mulher briga com ele para que arrume um emprego na cidade, mas Tuíca tem agoniação. “Eu não gosto de cidade. Não gosto de cidade. Eu não fui criado em cidade. É passar dois, três dias, me agonia”. E repete, como se fosse eu também a mandá-lo pra rua: “Não tem cidade boa pra mim. Não tem cidade boa pra mim, não. Aqui é tranquilo demais. Aqui você ata a rede aqui, ó, tranquilo. Não tem perturbação de ninguém”.

E não tem. Mas desde Belo Monte também não tem peixe. E ainda tem tartaruga.
Tuíca retorna ao seu redemunho.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Hydro pode causar tragédia maior que de Mariana em Barcarena

A Hydro é responsável por uma tragédia de proporções incalculáveis e que superaria Mariana em centenas de vezes. É o que temem ambientalistas e as populações tradicionais que diariamente denunciam os absurdos e crimes ambientais promovidos pela empresa no município de Barcarena, a cerca de apenas 60 Km de Belém. É o que diz a matéria abaixo sobre terríveis vazamentos que estão a ocorrer nas bacias de contenção de lama tóxica da empresa.


CHEGA DE MENTIRAS, HYDRO


Do alto é possível observar claramente o transbordamento dessa bacia da Hydro
Aqui, no detalhe, o que a foto de cima exibe fica mais evidente
por Carlos Mendes, para o Ver-o-Fato

De helicóptero, a serviço da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas), técnicos do órgão comprovam o transbordamento dos rejeitos minerais de uma das bacias da multinacional norueguesa Norks Hydro.

Isso ocorreu devido às chuvas, fazendo escorrer para fora da barragem a temida lama vermelha rumo as florestas, igarapés e rios da região, como denunciaram ao Ver-o-Fato moradores das comunidades vizinhas à empresa. Ou seja, as famílias mais expostas à contaminação.

A Hydro nega, em nota, os vazamentos, e dá a entender que está tudo bem. Mas como está bem, se as comunidades se queixam que não podem mais beber a água dos poços artesianos, se a lama da cor de sangue apareceu trazidas pelas águas das chuvas e o medo toma conta de todos.

Funcionários da própria Hydro em contato com o blogue confirmam as denúncias dos moradores, mas pedem que seus nomes sejam preservados, para evitar demissões.

Não é exagero dizer que a Hydro está mentindo, ao negar o que vídeos de moradores, fotos e imagens de helicóptero em missão oficial da Semas mostram: isto é, exatamente o contrário do que a empresa diz.

Técnicos do Instituto Evandro Chagas estão em Barcarena para coletar amostras de águas nos locais indicados pelos moradores. Ao mesmo tempo, os Ministérios Públicos Federal e Estadual avaliam a situação, que já exige uma postura mais incisiva dos fiscais da lei.

Barcarena e seu povo merecem respeito. Coisa que a Hydro não manifesta. Ao contrário, é arrogante, manipuladora e mentirosa. Comporta-se como se estivesse acima das leis brasileiras.

Pior é deixar que ela assim se sinta.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A esquerda brasileira no labirinto do PT


Adolfo Santos e Diego Vitello – Dirigentes nacionais da CST-PSOL

O julgamento do ex-presidente Lula tem enfiado amplos setores da esquerda num verdadeiro labirinto. Prisioneiros da propaganda do lulopetismo e seus aliados, estes grupos políticos se perdem em justificativas, explicações, acusações e propostas estapafúrdias. Nenhuma delas conduz ao caminho para superar uma direção que traiu os interesses da classe trabalhadora, quando é imperioso construir uma saída frente a uma das maiores crises política, econômica e social da história recente do Brasil. Escrevemos este texto para aportar ao debate apresentado pelo PT e pela maioria das correntes do PSOL em defesa de Lula e contra sua condenação por fatos relacionados com a corrupção.

Nestes dias assistimos fatos concretos que ajudam a compreender melhor esta discussão. As mobilizações convocadas em apoio de Lula demonstraram mais indiferença que interesse por parte da população trabalhadora em relação ao processo do julgamento. Os atos do dia 23/01 em Porto Alegre e 24/01 em São Paulo, onde o PT, a CUT, a CTB e o MTST jogaram toda a força de seus aparatos, não moveram nenhuma parcela expressiva da classe trabalhadora, que não compactua com a corrupção desenfreada deste regime em decomposição. No ato não estiveram presentes os batalhões pesados do operariado com fortes colunas de metalúrgicos, bancários, carteiros, petroleiros ou trabalhadores do transporte. Pelo contrário, a maioria dos atos era composta de militantes de organizações que se alinha
ram ao campo lulista.

Felizmente, algumas organizações da esquerda, dirigentes políticos e sindicais e principalmente importantes setores da base da classe trabalhadora e também do próprio PSOL, de diferentes categorias e da juventude, resistem à lógica do “mal menor” e às mais diversas acusações, por não nos alinharmos com a defesa de Lula e seu projeto. São muitas as opiniões que circulam em documentos, jornais e nas redes que manifestam a rejeição a defender a principal figura do PT das acusações de corrupção. Como parte desses setores, que não aceitam livrar a cara dos que se integraram a este regime podre, a CST publicou vários artigos, colocando claramente que os crimes de corrupção devem ser investigados, os culpados punidos e seus bens confiscados. Lula e a direção histórica do PT são parte desses esquemas de propinas, desvios de dinheiro público e enriquecimento ilícito. Por isso entendemos que não é tarefa da esquerda consequente a defesa de Lula, nem de outros tantos envolvidos em corrupção.

Pois disso se trata. O ex-presidente Lula não está sendo acusado nem julgado por perseguição política, por apoiar a ocupação de terras, por desapropriar prédios e entregar-los aos sem teto, por romper com o sistema financeiro, por confiscar os bens dos empresários que inflacionam os preços ou que sonegam impostos ou por desobediência civil. Em qualquer caso de uma condenação dessas, a CST estaria de forma incondicional na defesa de Lula ou de qualquer outro. Mas infelizmente, não se trata disso. Lula, à cabeça de seu partido, integrou-se ao regime burguês decadente que governa nosso país. Seguiu os passos dos governos que o antecederam e que sempre denunciamos, e integrou-se aos esquemas de corrupção.

 “A opção de Lula e da cúpula petista de aderir ao projeto de submissão imperialista, converteu as velhas lideranças de esquerda em capachos do sistema financeiro, do agronegócio e das multinacionais e levou inevitavelmente a utilizar os mesmos esquemas e os mesmos métodos corruptos dos governos e regimes anteriores […] O PT e a maioria de seus dirigentes e parlamentares financiaram suas campanhas graças às contribuições de madeireiros, bicheiros, multinacionais e banqueiros… Cabia-lhes, depois pagar a conta, lembrando o velho ditado que diz: quem paga a banda, escolhe a música”Do artigo: “Corrupção e neoliberalismo”, publicado pelo mandato do deputado federal Babá, PSOL/RJ, em agosto de 2005.

Lula e o PT são parte do processo de corrupção sistêmica no Brasil

É consenso entre a maioria das organizações de esquerda que no Brasil existe um processo de corrupção sistêmica. Grosso modo, o sistema político para os maiores partidos (PMDB, PT, PSDB, PP, etc.) funciona assim: as grandes empresas, como é o caso da Odebrecht, OAS, JBS, Itau e outras, financiam campanhas políticas milionárias, de candidatos de diferentes legendas. Terminado o pleito, os vencedores, através do executivo e do legislativo, passam a defender os projetos de interesse dessas empresas, seja com projetos de lei, concessão de obras e serviços públicos. As empreiteiras, umas das que mais financiam as campanhas, são favorecidas com obras superfaturadas, que lhes permitem altíssimos lucros e um generoso excedente para destinar ao financiamento dos partidos e políticos de forma individual. As obras da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016 foram uma verdadeira farra com o dinheiro público que beneficiou empresários e políticos, Sérgio Cabral, que sempre foi aliado de Lula, é o melhor exemplo disso. Se pesquisarmos o financiamento eleitoral do PT, do PMDB, ou do PSDB, veremos que esses partidos e seus dirigentes, se beneficiaram fartamente dos dinheiros das empreiteiras. Os que defendem Lula, e portanto negam que esteja envolvido nos esquemas de corrupção, entendem que o PT e seus dirigentes não são parte da corrupção sistêmica em nosso país?

Além disso, sob pretexto da “governabilidade”, e a troca de apoio aos seus projetos, o partido no governo, distribui cargos para seus “aliados” que passam a controlar pequenos “feudos”, como ministérios, secretarias, direção de estatais, desde as quais comandam fortes esquemas de desvio de dinheiro. É só lembrar as fotos do apartamento alugado para guardar malas, caixas e pacotes desbordando dinheiro desviado por Geddel Vieira Lima, queridinho nos governos de Lula, Dilma e Temer, onde ocupou importantes cargos. Escândalos de corrupção como Mensalão, Petrolão e o Trensalão do tucanato de São Paulo, se enquadram nesse tipo de corrupção, que é o mais comum. O PT não foi o inventor destes esquemas, mas os adotou e os expandiu.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

PSOL: Pré candidato a Presidência da República faz debate em Belém


Na próxima quarta-feira, 07/02/2018, o professor de economia da Unicamp e pré candidato a Presidência da República pelo PSOL, Plinio Jr., estará em Belém para debater com a militância e simpatizantes do partido a necessidade de a organização ter uma candidatura radical e coerente, longe do lulopetismo, que represente os anseios da classe trabalhadora, juventude e povo pobre.
O evento ocorrerá no auditório do Hotel Sagres, a partir das 18h. Todos e todas convidados!
Abaixo você lerá o Manifesto da pré candidatura do psolista.

É tempo de ser exigente, Plinio presidente!

A guerra aberta da burguesia contra os trabalhadores coloca o PSOL numa encruzilhada histórica. Após treze anos de existência, o partido tem de decidir se será apenas uma legenda eleitoral ou se terá coragem de disputar a consciência e os corações dos/as trabalhadores/as e colocar na ordem do dia a urgência da superação das relações sociais, políticas e culturais responsáveis pelas mazelas do povo, pelo machismo, pelo racismo, pela LGBTfobia e pela destruição da natureza.

A eleição é um momento importante de diálogo com os/as trabalhadores/as. A burguesia não perde tempo e procura por todos os meios enquadrar o debate nacional na agenda reacionária do ajuste econômico que vem sendo aplicado pelo governo de Michel Temer/Henrique Meirelles. Em nome dos imperativos dos negócios, coloca o rebaixamento progressivo das condições de vida das classes subalternas e o fim das liberdades democráticas como única solução para a grave crise que abala a vida nacional. A PEC 55 (que congela por 20 anos os investimentos nas áreas sociais), a Reforma Trabalhista, a Lei da Terceirização, a Reforma da Previdência e os ataques aos direitos das mulheres e da população LGBT, são algumas das medidas em curso que fazem parte da agenda de austeridade fiscal.

Para que nós não fiquemos condenados às escolhas da agenda reacionária, que se circunscreve à discussão do ritmo e da intensidade do ataque contra o povo, a esquerda socialista precisa entrar em campo. O tempo urge! Não podemos mais permanecer sem um/a candidato/a! Sob o risco de ser tragado pela crise política e moral que soterra o sistema político corrupto brasileiro e de ser confundido como linha auxiliar do PT, o PSOL está obrigado a apresentar-se na eleição de 2018 com personalidade própria. A grave crise econômica, social, política, moral e ecológica em curso não pode ser dissociada da estratégia catastrófica do PT na Presidência da República.

Ao trair os anseios populares de que a esperança venceria o medo, os governos de Lula e Dilma reproduziram as relações sociais e políticas responsáveis pela perpetuação da segregação social, da dependência externa e da destruição ambiental, o que fortaleceu o capitalismo brasileiro e abriu caminho para sua ofensiva atual. Em resposta à ofensiva do capital, os trabalhadores e trabalhadoras, com seus métodos de luta, entram em cena.

O maior exemplo foi a jornada de luta do primeiro semestre, que culminou com a greve geral do dia 28 de abril e a Marcha a Brasília com 150 mil pessoas. E os novos processos das lutas em curso demonstram que a força das bases tectônicas segue se movimentando. O desafio do PSOL é definir uma agenda, um programa e um candidato inequivocamente comprometido com uma alternativa socialista ao ajuste neoliberal e uma radicalização da democracia diante da crise da Nova República. Ao contrário do que ocorre nos partidos burgueses, imersos no cretinismo parlamentar, tais definições não podem ficar nas mãos de uma oligarquia dirigente.

Os militantes do partido não abrem mão de debater política e de dirigir os destinos do partido. A definição do conteúdo e da forma da candidatura à Presidência da República em 2018 deve ser adotada em fóruns democráticos, amplos, capazes de debater os problemas fundamentais dos/as trabalhadores/as e suas possíveis soluções. A agenda e o programa que apresentaremos à população brasileira devem ser a síntese desse debate. Entretanto, temos a convicção de que os seguintes eixos devem servir de referência para tais formulações:

> Rejeitar tanto as alternativas reacionárias e conservadoras quanto as apresentadas pelo PT e pelos demais partidos que deram sustentação aos governos de Lula e de Dilma. O “menos pior” não nos contempla e apenas pavimenta o caminho de novas derrotas.

> Dar conteúdo político à agenda de transformação social levantada pela juventude que protagonizou as Jornadas de Junho de 2013 – “direitos já”;

> Tirar suas consequências práticas inescapáveis – “fim dos privilégios do capital e das desigualdades sociais”. Lutar pela revogação de todas as leis promulgadas pelo governo Temer e contra toda as amarras econômicas que servem aos interesses do capital, a começar por desmontar o Sistema da Dívida Pública, que desvia boa parte dos recursos públicos para o bolso dos mais ricos.

> Rejeitar o grande acordo nacional que envolve o executivo, legislativo e o STF que tem o objetivo de salvar os corruptos e aplicar a agenda neoliberal, apostando na refundação da república com base no poder popular.

> Construir as condições necessárias para a formação de uma aliança política estratégica – que não pode se esgotar nas eleições de 2018 – com os partidos da esquerda socialista – PCB e PSTU –, bem como com os movimentos sociais combativos, que bravamente resistem ao avanço galopante da barbárie capitalista.

> Ser parte do apoio a todas as lutas e mobilizações em curso. É dentro dessa perspectiva que diversas organizações e militantes decidiram lançar a pré-candidatura de Plínio de Arruda Sampaio Jr. para a Presidência da República e conclamam os/as militantes do PSOL a lutar pela unidade da esquerda socialista em torno de uma alternativa radical para o Brasil.

Quem é Plínio?

Plínio de Arruda Sampaio Júnior é professor livre-docente do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE/UNICAMP). Com pesquisas na área de história econômica do Brasil e teoria do desenvolvimento, dedica-se ao estudo do impacto da globalização capitalista sobre a economia brasileira. Membro do conselho editorial de diversas revistas acadêmicas, entre as quais Novos Temas e Marxismo XXI, possui dezenas de artigos, publicados no Brasil e no exterior.

É autor de Entre a nação e a barbárie: dilemas do capitalismo dependente (Vozes, 1999) e de Crônica de uma crise anunciada: Crítica à economia política de Lula e Dilma (SG-Amarante, 2017); e organizador dos livros Capitalismo em crise: a natureza e dinâmica da crise econômica mundial (Sunderman, 2009); e Jornadas de Junho: a revolta popular em debate (ICP, 2014).

Filiado ao PT, participou da elaboração dos programas econômicos do partido até 1990, quando coordenou a elaboração do programa da candidatura de Plínio de Arruda Sampaio a governador de São Paulo. Nesse período, colaborou ativamente como assessor econômico da legenda, tendo sido o responsável pela crítica ao Plano Collor no programa nacional do PT.

Em 1991, muda-se para França em viagem de estudo, onde fica até 1994. Neste período, Plinio consolida sua visão crítica sobre a sociedade brasileira, afasta-se politicamente da direção do partido que acelerava sua guinada conservadora de acomodação à ordem e reforça sua convicção na organização popular como único meio de superar as mazelas do povo. De volta ao Brasil, passa a colaborar ativamente com os movimentos sociais, assessorando e organizando cursos de formação junto ao Movimento dos Sem Terra, Movimento dos Pequenos Agricultores, Movimento dos Atingidos por Barragens, Pastoral Operária, Grito dos Excluídos, Pastorais Sociais, Central dos Movimentos Populares e Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.

Em 2000 e 2002, participa ativamente das Campanhas pelo Plebiscito da Dívida Externa e pelo Plebiscito da Alca. Crítico dos rumos do governo Lula, foi um dos organizadores do Manifesto dos Economistas e do Tribunal Aberto em Defesa dos Radicais e um militante da campanha contra a Reforma da Previdência, tendo corrido o país afora debatendo com estudantes e trabalhadores os desvios neoliberais da gestão petista.

No Fórum Social Mundial de 2005, rompeu com o PT, junto com centenas de militantes históricos. No mesmo ano, ingressou no PSOL. Em 2010, colaborou ativamente com a campanha de Plínio de Arruda Sampaio para a Presidência da República. Nos últimos anos, tem se dedicado à tarefa de reorganização partidária da esquerda socialista.

Subscrevem a pré-candidatura para Presidente da República de Plínio Jr:
Luciana Genro – Fundadora do PSOL e candidata à Presidência da República em 2014 Babá – Fundador do PSOL Renato Cinco – Vereador PSOL Rio de Janeiro/RJ Roberto Robaina – Vereador PSOL Porto Alegre/RS Ricardo Antunes – Sociólogo e Professor da Unicamp Paulo Arantes – Filósofo e professor da USP Pedro Ruas – Deputado Estadual – Porto Alegre Alex Fraga – Vereador Porto Alegre – Porto Alegre Fernanda Melchionna – Vereadora Porto Alegre – Porto Alegre Fernanda Miranda – Vereadora Pelotas – Pelotas Sandro Pimentel – Vereador de Natal/ RN Robério Paulino – Professor da UFRN, ex-candidato à Prefeitura de Natal e ao Governo do RN Henrique Carneiro – Professor da USP/SP Jorge Luis Martins (Jorginho) Advogado – Franca/SP João Machado Borges Neto – Dirigente do PSOL – São Paulo/SP Silvia Santos – Coordenou a campanha de legalização do PSOL Carlos Gianazzi – Deputado Estadual PSOL/SP Sâmia Bonfim – Vereadora PSOL São Paulo/SP Álvaro Bianchi – Professor da Unicamp/SP Eric Toussaint – Membro do CADTM (Comitê para a Abolição das Dívidas Ilegítimas) Ruy Braga – Professor da USP/SP Rosi Messias – Executiva Nacional do PSOL Marino Mondek – Florianópolis/ SC Liliana Maiques – Tesoureira do PSOL Carioca e Setorial de mulheres do PSOL Aldo Santos – Presidente da Associação dos Professores de Filosofia do Brasil Bárbara Sinedino – Coordenadora Geral do SEPE/RJ Michel Lima – Diretório Nacional do PSOL Ana Carolina Andrade – Setorial de Mulheres do PSOL -São Paulo/SP Douglas Diniz – Diretório Nacional do PSOL Sônia Godeiro – Médica – Dirigente da Oposição SINDSAÚDE/RN Santino Arruda – Dirigente do SINAI-RN, Intersindical – Avançar PSOL/RN Silvana Soares de Assis – Oposição APEOESP – São Paulo/SP Tiago Mateus de Azevedo – Secretário Geral PSOL SC – Rio do Sul/SC Organizações: Alternativa Socialista Nova Práxis Coletivo do PSOL Governador Dix-Rosado (RN) Coletivo do PSOL Angicos (RN) Comuna Comunismo e Liberdade – CL Corrente Socialista dos Trabalhadores – CST Frente de Oposição Socialista – FOS Grupo de Ação Socialista – GAS Luta Socialista – LS Movimento Esquerda Socialista – MES

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

A Hydro promove barbárie em Barcarena

São gravíssimos os fatos que ocorrem em Barcarena, ao lado de Belém, capital do Pará. Não é de hoje que a região sofre com os grandes projetos instalados em Vila do Conde, no município de Barcarena, às margens de um dos mais fantásticos ecossistemas do planeta: a baía do Rio Pará ou do Marajó.
Desde quando o então governador Jader Barbalho (PMDB) se vendeu para os japoneses interessados nos incentivos dados pelos militares para que indústrias neocolonizassem a Amazônia. Vieram os grandes projetos mineros siderúrgicos. Indústria pesadíssima. Verdadeiros dragões encravados no coração da floresta e de seus rios e lagos. Para que o mega parque de alumina e alumínio pudesse existir ao largo de um destruidor mega porto, era necessário fazer energia. Por isso o show de horrores e corrupção que está aí: usina hidrelétrica de Tucuruí. Uma das três maiores do mundo. E Barcarena abrigou o maior complexo industrial da Amazônia Legal. Explorando e adoecendo seu povo, poluindo tudo, matando tudo.
Hoje a Albrás/Alunorte está sob o controle da multinacional norueguesa Nosrk Hydro e a Hydro patrocina mais do que diz sua propaganda fajuta na TV com o A-HA. No olho da pororoca estão as populações tradicionais. Tal qual a canadense Belo Sun (com os dentes prontos para rapinar o ouro do Xingu), que patrocina a violência e o abuso às liberdades constitucionais, ao passo de invadirem um seminário na Universidade Federal do Pará (UFPA), agredindo a renomada Prof. Dra. Rosa Acevedo Marin, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) desta instituição, a Hydro e tantas outras empresas não se milidram quanto a prática de crimes.
Para isso contam com as elites locais, os governos e seu aparato repressor.
É o que várias comunidades vem denunciando há tempos. Mas agora as coisas ficaram muito mais evidentes. As multinacionais já não conseguem comprar todo mubdo. Como também já não conseguem mais calar a voz do povo indignado São mais de 60 comunidades tradicionais que sofrem de forma direta os impactos da forma criminosa como estas indústrias vem desenvolvendo suas atividades na Vila do Conde e região.
É o que veremos na matéria abaixo do renomado repórter Carlos Mendes publicada em seu blog Ver-O-Fato. É preciso denunciar e lutar contra esses abusos. O governador Jatene, o secretário de segurança pública, o comando da Polícia Militar do Estado do Pará e a Hydro serão responsabilizados se algo vier a ocorrer contra a vida e dignidade das liderenças comunitárias de Barcarena.

LÍDER COMUNITÁRIA QUE DENUNCIOU HYDRO FAZ OCORRÊNCIA DE INVASÃO DE DOMICÍLIO CONTRA CAPITÃO DA PM E 5 MILITARES

por Carlos Mendes

A líder comunitária de Burajuba, em Barcarena, Maria do Socorro Costa da Silva, há tempos está jurada de morte por forças poderosas que atuam naquele município, hoje transformado em lixeira de empresas multinacionais.

Ne véspera do Natal, sem qualquer ordem judicial, a casa de Socorro foi invadida por policiais militares comandados pelo capitão Gama e um soldado identificado por José, além de outros 4 militares. Eles alegaram, para entrar no domicílio sem o consentimento dos proprietários, violando a Constituição Federal, que estavam à procura de um indivíduo não identificado.

 Segundo boletim de ocorrência registrado na Corregedoria da Polícia Militar por Socorro Silva, os militares interrogaram os moradores sobre os pertences da casa, acusando-os de ter muitas coisas. Socorro não estava na residência na hora da invasão.

Ha cerca de 15 dias, Socorro e o líder comunitário Bosco de Oliveira estiveram no programa "Linha de Tiro", ao vivo, transmitido habitualmente toda quinta-feira à noite pelo Facebook e na página do Ver-o-Fato, denunciando a empresa norueguesa Hydro por crimes ambientais. Eles também já fizeram outras denúncias pela imprensa contra grandes grupos multinacionais, como Bunge e Imerys, por poluição de rios, igarapés e matas da região.

"Já tive minha casa invadida por seis vezes e até hoje sofro ameaças de morte", afirmou Socorro. Por outro lado, Bosco Oliveira também já foi vítima de atentado a bala e invasão de domicílio e tem sido alvo de "armações" de policiais que a todo custo tentam incriminá-lo, sem provas.

 Proteção e denúncia

 O advogado Ismael Moraes, defensor das 60 comunidades de Barcarena, informou ao Ver-o-Fato que, baseado no BO feito por Socorro Silva à corregedoria da PM irá solicitar garantias de vida para ela e para Bosco Oliveira, denunciando a invasão de domicílio à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão e à Promotoria Militar para que sejam tomadas providências.

De acordo com Moraes, a responsabilidade pelas perseguições aos líderes comunitários é do governo Simão Jatene, que nada tem feito para apurar os crimes denunciados pelas entidades e movimentos sociais de Barcarena. Nota do blogue: o Ver-o-Fato não conseguiu falar com os militares citados no BO de dona Socorro Silva, mas abre espaço para que eles se defendam e apresentem suas versões dos fatos acima publicados, já objeto de investigação pela Corregedoria da PM.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Tem um filme por trás da foto


por Marcus Benedito 

Uma imagem. Milhões de interpretações e palavras. Mas o assombro maior é porque é um garotinho preto. E os assombrados já têm um estereótipo montado. Pretinho, sem camisa. No frio do mar gelado. Abobalhado ao mirar os fogos. Pobre, lascado. É o que pensaram. No outro plano, os de branco. Curtindo a virada. Aperentemente ignoram o menino. Importando-se mais com suas autoimagens, autoretratos, festa entre amigos. 
O fato é que, infelizmente, a maioria que não nutre qualquer carinho ou preocupação para com os meninos pretos, que vestem berbudão, andam descalços, sem camisa, se viu de alguma forma nesta foto do Lucas Landau. Que aliás, disse não ter lucrado um centavo com ela. Pelo menos “até encontrar o menino e/ou seus pais”. Mas o mais importante que tudo isso é a cotidiana constatação de que a pobreza existe. A violência cotidiana existe. 
Na virada do ano, em Belém, foram executados por bandidos num carro preto, pelo menos 5 meninos. 5 adolescentes. Precisa dizer a cor do tom de pele deles? Pretos. De famílias humildes. Bairros periféricos. Uma verdadeira guerra aos pobres. Genocídio da juventude negra. Motivo de campanha permanente da Anistia Internacional com o tema “Queremos nossos jovens negros vivos!”. 
Enquanto filas se formam na Flórida (EUA) para comprar maconha para fins recreativos, um estrondoso avanço contra a falida “guerra às drogas”, o Brasil detém uma das maiores populações carcerárias do planeta. Mais de 600 mil pessoas. Fruto da perniciosa Nova Lei de Drogas sanciona por Lula da Silva em 2004. Mais de 40% se quer foi julgado. Maioria esmagadora acusado de tráfico de maconha. Nos depósitos desumanos chamados prisões país afora. Maioria jovens. Precisa dizer o tom da cor da pele deles. Quase todos pretos. Pobres. Sem defensores públicos, tampouco advogados. Distantes das vistas do Conselho Nacional de Justiça. Todo mundo sabe que essa barbárie existe. Mas nos órgãos competentes e principalmente nos governos e parlamentos quase ninguém faz nada. E a crise se grava. 
Explodem nas ruas e rebelioes em penitenciárias superlotadas país afora. Jovens, réus primários. Pegos com quase nada de birra. Juntos a mestres do crime organizado. Combinação explosiva. Tragédia pura. O fato, novamente, é que tudo isso comprova que os meninos pretos, de bermudão, sem camisa, descalços e de estômago vazio existem aos milhões neste país. Vulneráveis a todo tipo de aliciamentos e perigos. Principalmente do tráfico, exploração e abuso sexual. 
Segundo o IBGE, em recente pesquisa divulgada, são 54 milhões de pessoas que vivem com menos de R$ 340 por mês. 54 milhões de brasileiros vivendo na miséria absoluta. Precisa dizer a cor do tom da pele deles? Maioria esmagadora de pretos e pardos. Nas ruas, sem carinho, sem atenção. Torço para que este maravilhado garotinho na foto não esteja nesta condição. Mas tem uma grande chance de estar. Ainda mais ali em Copacabana. Rodeada de comunidades de gente trabalhadora, honesta, pobre e preta. 
A foto do Landau foi muito além da imagem. Mexeu com os indivíduos. Como o próprio disse: possibilitará “várias interpretações”. Muitas legítimas. Outras carregadas de hipocrisia. Principalmente quando partem de veículos de comunicação e pessoas racistas, preconceituosas com a classe trabalhadora e que fecham o vidro do carro quando um menino de bermudão, pretinho e descalço vai vender uma balinha ou pedir algum trocado. E nós seguimos com um filme de terror diário para ser vencido. O filme da discriminação, desemprego, violência e tortura, que atingem, principalmente, o povo preto e pobre. 
Por isso nos cabe arregaçar as mangas e ir à luta contra esse regime apodrecido, governado por corruptos, num sistema excludente. Seis brasileiros controlam a metade das riquezas deste país. Precisa dizer a cor do tom da pele deles? Todos brancos. Magnatas. Com suas coberturas. Lá de cima, assistindo a todo esse panavoeiro. Resolutos. Pouco se lixando para os mais de 13 milhões de desempregados deste país. Para os 12 mil que perderam o emprego só em novembro/2017 devido a contrarreforma Trabalhista. Só pensam em seus lucros e dividendos. 
Meia dúzia de bilhardários responsáveis pela legião de homens e mulheres sobrevivendo na indigência e subemprego. Romper essa lógica é o caminho para ver além da foto. E o #ForaTemer e a greve geral não poderão ser meros coadjuvantes nesse roteiro. São condições fundamentais para nos livrarmos desse regime apodrecido e melhor acompanhar e proteger os milhões de meninos e meninas pret@s, que não tiveram a condição de terem suas vidas possivelmente mudadas, fruto de uma fotografia polêmica na última passagem de ano. 
***

Marcus Benedito é servidor público no Pará e militante da CST/PSOL. Publicado originalmente no site da CST/PSOL.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Ghouta de esperança

Um print da destruição promovida por Assad contra o povo de Ghouta
"Hoje começou uma operação de resgate de 29 pessoas em estado crítico em Ghouta, após vários meses de negativas do governo Assad. O genocida Assad mantém, desde 2013, o cerco a cidade de Ghouta, próximo a Damasco, um reduto que ainda é controlado pelos rebeldes. 400 mil pessoas sofrem com este criminoso cerco, os mais afetados são as crianças, onde a desnutrição severa atinge cerca 12% das crianças menores de 5 anos. Assad prefere destruir a Síria e o povo sírio a entregar o poder. A Síria tem que ser livre e justa, sem as patas de Assad, Estado Islâmico, Putin, Trump, de países imperialistas e dos governos árabes capachos. Pela autodeterminação nacional ao povo curdo!"
(Taílson Silva, professor de Geografia)

Saiba mais em site de Portugal:

http://pt.euronews.com/2017/12/27/comecou-operacao-de-salvamento-humanitario-na-regiao-de-ghouta-oriental?utm_term=Autofeed&utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#link_time=1514363733

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O que significa a ocupação de Jerusalém?

por Miguel Lamas – UIT-QI

A ordem de Trump de transferir a embaixada ianque para Jerusalém respalda a pretensão israelense de apropriar-se de toda a cidade histórica, de profunda significação cultural e religiosa, e termina de desmontar a farsa da suposta “paz” baseada nos dois Estados (Israel e Palestina).

No tratado de Oslo de 1992, Yasser Arafat, o histórico dirigente palestino (falecido em 2004, envenenado por serviços de Israel) aceitou a ideia de um futuro Estado palestino localizado nos territórios de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental (os territórios ocupados por Israel em 1967), que representam um conjunto de apenas 22% do território histórico palestino, e de reconhecer Israel em suas fronteiras anteriores a 1967, que ocupavam 78% da Palestina histórica. Um ponto importante desse acordo foi que Palestina conservaria a metade oriental de Jerusalém. Grande parte do povo palestino aceitou esse acordo, ainda perdendo muito, com a esperança de que por fim haveria paz. Porém o acordo foi uma armadilha.

Israel, com apoio imperialista, jamais aceitou na prática nenhum direito palestino a um Estado próprio, nem sequer nesses pequenos territórios. Colonizou Gaza e Cisjordânia com 400.000 colonos sionistas, ocupando as melhores terras e ficando com 95% das fontes de água e se adonou também da maior parte de Jerusalém Oriental. Ergueu um muro que está cercando os territórios habitados por 3 milhões de palestinos removendo-lhes 48% do escassos territórios que lhes sobrava, que está em sua maior parte ocupado militarmente por Israel.

Como se isso já não bastasse, periodicamente Israel lhes destrói suas fontes de água, arrancam suas oliveiras, base de sua economia agrícola, e bombardeia centrais elétricas e universidades. Em vários oportunidades bombardeou a pequena Faixa de Gaza e a submeteu a um bloqueio durante anos, afundando sua população no desemprego e na fome. Hoje já há outros 6 milhões de palestinos com seus filhos, netos e bisnetos refugiados em diversos países do Oriente Médio.
***
Traduzido por Lucas Andrade – CST-PSOL

sábado, 23 de dezembro de 2017

rio o riso


homem-peixe
homem-água
não mate a mata
seu moço
O rio Acará
O riso do menino
Guerreiro. mensageiro
Nem o estado fez
Menino fez
Mensagem de paz
Viva o rio
Viva o riso
Viva o menino!

foto e texto: marcus benedito

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Havia uma formiga no meio do caminho

por Eduardo Protázio

A caminho da Biblioteca pública, ainda na parada de ônibus, sob um sol de rachar a cuca, percebi que algo não andava bem. Para além do calor e o desconforto em suar desenfreadamente, assim melando e pregando o tecido da roupa na pele - o que seria normal, ou não, vide o já aparecimento do famoso “inverno amazônico” amenizando as temperaturas equatoriais -, algo estava distinto.
Outras sete, ou oito pessoas aguardavam seu transporte. Os borracheiros trabalhavam comumente à ilharga da via. Talvez a apreensão por carregar na bolsa um computador portátil e o temor do surrupio, já que assalto pras bandas dali têm sido constantes. Mas ainda não era isso. O tempo passa lento, arrastado. O sol e o calor certamente atrasam o relógio e a gente pena ainda mais. A espera do Tamoios, em pé, notei que havia uma formiga em mim. Exatamente. Uma formiga, dessas meio engrandecidas, grande o bastante para os parâmetros formigueiros, própria da família Formicidae e vinda do não-tão-distante reino Animália, e pertencente à ordem Hymenoptera.
Era isso que tirava a naturalidade do espaço-tempo. Mas sim, como pudera?!, justo em mim!? Não pude vê-la na hora, mas a senti. Caminhava com suas seis perninhas. Subia, descia. Prum lado, pra outro. Em meu ombro. Não, no braço. Pra lá e pra cá passeava o inóspito inseto. Noutro instante, após sacudir a camisa para enxotá-la de mim, a vi caminhando no interior da roupa, trepada em busca de uma saída, eu acho. Foi então que, para o meu espanto maior: tratava-se de uma cortadeira. Meio avermelhada, meio marrom. Agora não lembro bem, mas se confundia com o tom têxtil. No momento imediato tentei agarrá-la de maneira sutil, com um par de dedos no intuito de apenas lançá-la ao vento. Imaginei ter feito isso e logrado ao obejtivo.
Depois de um tempo breve subo no coletivo. Meio estabanado com um monte de bregueço nas mãos: bolsa, carteira, telefone móvel. Pago a passagem, ultrapasso a roleta, busco um bom lugar longe do sol. Troco de assento e me aquieto. Lendo Padura, curtos minutos depois, sinto a pequenina rival novamente caminhar em minhas entranhas. Passara pelo sovaco até se agarrar no tecido da vestimenta outra vez. Parece que sabia ter sido localizada. Sinto o seu passear e num instante prendo-a entre indicador e polegar.
Ainda em misericórdia, poupo a sua vida como antes. Solto-a e espano a camiseta com fervor. Uma simpática senhora, da outra fileira de assentos, me olha espantada. Devo ter estremecido a calmaria daquela viagem, mas o tremor da situação me exigia ações bruscas e, uma tensão maior me fazia voltar a suar descompassadamente. Não sentindo mais o pequeno ser, pensei: “deve ter saído, caído, morrido… sei lá”. Segui a leitura com Leonardo. Viagem que segue.
Em meio ao engarrafamento, na esquina das Mercês com a Almirante Barroso, o sol passara pro meu lado. Sentia-me incomodado. Tráfego parado. Aquele canto é fogo depois de uma da tarde. Foi aí que a miserável, brevemente esquecida, tornou a se mostrar. O trânsito anda. Para novamente. “Olha a água, caralho!!!!”, gritam da rua. Um vendedor pede pra subir. O motora nega. Ela me morde. Tensão. “Bora, água e refri!! Água e refri!! Água e refri!!”. Bem nas costas. Um pouco abaixo do ombro direito. Sujeitinha covarde. Indivíduazinha mais sem escrúpulos. Poderia, a partir daí, a minha vida entrar em um lento processo terminal. Seria um tiro letal? Lógico, com uma abocanhada do mal dessas.
Começo, então, inevitavelmente, a travar uma batalha mortal por minha vida e a tranquilidade que sonhara em ter numa simples ida à biblioteca. Era preciso arrancar aquelas duas pequena garras de minha carne rapidamente, antes que a gangrena chegasse. Senti a sua mordida voraz e de pronto a agarrei com força, muita força, que pode-se ouvir a quilômetros longínquos (só eu escutei, na verdade) o estalar de sua estrutura artrópode. Não tive dó, nem piedade. Esqueci da compaixão e sequer me passou pela cabeça o ditame do quinto mandamento de que fala um manuscrito religioso. Foi com tudo.
Durante uns seis, sete segundos a amassei, para vingar o que acabara de fazer. Atacar alguém por trás não é legal, não é leal e diz muito sobre o caráter de alguém. Logo vi que não caberíamos mais os dois no mundo. “Ou ela, ou eu”, pensava. Esmaguei-a rapidamente. Sacudi a roupa para lançá-la à própria sorte e cair no chão quente e metálico da condução. Pude, assim, trazer um pouco de paz à tensão que impunha o longo momento de convívio com a minúscula adversária.
Um tempo depois, ainda cogitando ser possível a vida da formiga não ter sido abalada fatalmente, pensava no que acabara de acometer: um homicídio violento a um ser que, de conjunto, nos faz bem. Mas não ali. A situação a qual me sujeitara. Naquele momento não havia como pensar na vida do planeta, no ecossistema e o equilíbrio que cada ser, mesmo os mais pequenos, produzem à natureza. Não posso descrever agora em que as formigas nos são úteis ou aliadas, mas, “aliás, nós podemos dizer que são nossas amigas.”, dizia um artigo da Fiocruz.
A saga rumo à Biblioteca seguia e um leve incômodo com o pós-mordida também. Uma coceira suave. Logo imaginava o pior: “E se aquela maldita me infectar?! Posso morrer aqui… mas assim?!, por uma mísera formiga!?. Afinal, já ouvi falar de graves infecções causadas por picada de formiga… umas que levaram até a internações hospitalares”.
Desci do ônibus e no passo apressado, quase corria para chegar o quanto antes ao banheiro da Biblioteca. Lá eu poderia tirar a camiseta e finalmente liquidar a vil formiga. Isso se a desgraçada se atrevesse a seguir em vida. Se por acaso ainda estivesse presa à roupa, e pior, viva e relutante contra seu fim, trataria de jogá-la dentro do vaso sanitário, esperaria um tempo para vê-la penar, se afogando e tentando alcançar a beira da privada para fugir da água. Assim que se aproximasse de sua esperança desesperadora, apertaria o gatilho e a água em forma de uma mini tsunami trataria de levá-la ao seu fim.
Que se vá e morra no inferno das formigas, amparada pela rainha-de-fogo, uma pixixica maior. Agonize eternamente pelo mal que fez em vida na Terra. Mas, infelizmente, para sanar a minha perversa gana, isto não procedeu. Tirei a camisa. Avistei com atenção e cuidado. Não encontrei a dita. Abanei o vestido com força. Queria ter a certeza de não mais ver o sórdido inseto novamente. Procurei em outras partes do traje. Calça, sapato. Nada. Vesti e arrumei-me às vestes. Tornei-me calmo. Busquei um assento para me acomodar e seguir com Padura. O pior havia passado. Era só uma formiga.
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Eduardo Protázio escreve crônicas e poesias. É estudante de letras e dirigente do PSOL/PA.