domingo, 22 de janeiro de 2017

Belém registra nova chacina

No mínimo 30 execuções da tarde de sexta a manhã de sábado (21). Tudo após um PM ser lamentavelmente morto por bandidos.
A resposta a morte do soldado foi uma carnificina nos bairros de Belém.

Segundo os jornais, chacina comandada por milícias, que contam com a participação de policiais.

A resposnsabilidade dessa barbárie é do governador do estado Simão Jatene (PSDB) e do presidente ilegítimo Michel Temer (PMDB).
Basta de mortes do povo pobre e de nossa juventude negra!

A legalização das drogas e a desmilitarização da PM são os caminhos para se por fim aos tenebrosos eventos que marcam o sistema penitenciário brasileiro e o genocídio diário de nossa população.
#BastaDeChacinas
#QueremosNossosJovensVivos

Chamem os pescadores

Por irresponsabilidade da Capitania dos Portos, uma embarcação que não deveria estar navegando com passageiros, naufragou na baía do Marajó. O Corpo de Bombeiros e Capitania foram ineficientes em encontrar vários corpos desaparecidos. Os familiares contrataram uns pescadores e todos os corpos foram encontrados e resgatados.
Agora a Aeronáutica e a Marinha do Brasil se dizem incapazes de retirar um teco teco de uma profundidade irrisória. Nele estavam o ministro do Supremo Tribunal Feder Teori e mais 4 pessoas.
Sugestão: duas embarcações e seis pescadores resolvem essa parada.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Belém amanhece com protesto contra o aumento

Vai ter protesto nesta sexta-feira, 20/01, contra o absurdo aumento da passagem de ônibus Belém.
Confira no vídeo gravado em um coletivo, o recado de Samia, estudante secundarista e militande do Coletivo Vamos à Luta e da Corrente Socialista dos Trabalhadores/PSOL.

video

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Santa Casa: caos nosso de cada dia

A Nova Santa Casa começa a apresentar os velhos problemas de superlotação e falta de médico. (Foto: Alzyr Quaresma/Arquivo)

A noite da última sexta-feira (6), foi de angústia para as grávidas que precisaram de atendimento na Santa Casa de Misericórdia do Pará, em Belém. Superlotado e com poucos médicos para dar conta da demanda, o hospital foi alvo de críticas por parte de pacientes, que denunciaram o problema em reportagem exibida pela GloboNews. Algumas gestantes de situação de risco ficaram até 12 horas sem atendimento. Muitas passaram mal e denunciaram que houve casos de grávidas darem à luz até mesmo em corredores e banheiros da Santa Casa.
Revoltados, familiares gravaram vídeo mostrando o drama de quem precisava de médico na instituição. As imagens mostram os corredores do setor de Triagem, onde é feita a avaliação e o protocolo médico, superlotados com mulheres chorando, sangrando e em vias de dar a luz.
As imagens mostram o local lotado, com grávidas esperando em pé por falta de espaço para sentar. Segundo elas, houve paciente que esperou até 12 horas para conseguir atendimento. Mesmo assim, nem todas puderam ser atendidas.
NO BANHEIRO
Mesmo as que vieram do interior com risco de perder o bebê não conseguiram atendimento e voltaram para casa ou tentaram ser atendidas em outras unidades hospitalares. A reportagem mostra que outras gestantes, mesmo em estado grave, também não conseguiram assistência. Nos corredores, algumas pediam ajuda, mas nenhum profissional chegou para prestar assistência imediata. Três delas – em situação de risco – foram transferidas de ambulância para outros hospitais após várias horas de espera.
Ainda de acordo com a reportagem, uma paciente do município de Ourém teria tido gêmeos no banheiro da Triagem. Outra teve o atendimento negado porque o médico alegou que ela não podia ter parto cesariano.
Inaugurada em 2013, a Unidade Materno Infantil “Dr. Almir Gabriel”, conhecida como Nova Santa Casa de Misericórdia do Pará, foi construída para ser referência no atendimento materno infantil. Desde que começou a funcionar no novo prédio, nesta nova fase esta é a primeira vez que a instituição é envolvida em denúncias de superlotação e de incapacidade de atendimento.
Em nota, a assessoria da Santa Casa informou que na noite de sexta-feira havia quatro médicos atendendo normalmente na Triagem. Mas reconheceu o problema, afirmando que a causa seria a alta demanda de pacientes nos últimos meses, principalmente vindas de outros municípios. Segundo a assessoria, o problema foi solucionado no dia seguinte.
(Diário do Pará, a partir do site Xinguara Ativa)

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Barros Barreto, uma tragédia anunciada



Imagem do reboco que caiu do teto da ala feminina. Enviada por WhatsApp. 
Atualizado às 21h23, 10/01/2017

No início da tarde de domingo, 08/01, desabou parte do reboco de concreto do teto do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB). Desta vez  no lado oeste do terceiro andar. Justamente na área externa da ala feminina, setor de infectologia. O HUJBB pertence a Universidade Federal do Pará (UFPA), assim como o HU Bettina Ferro de Souza (HUBFS - referência regional em otorrinolaringologia e oftalmologia). Ambos estão sob a administração da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares  (Ebserh).

Referência nacional em doenças tropicais e regional em HIV/Aids, o Barros Barreto é o reflexo do caos que vive a saúde e a educação públicas no estado do Pará. Tudo acentuado por sucessivas administrações superiores incompetentes, omissas e imorais.

Desde que o ex reitor Carlos Maneschy conseguiu aprovar de forma autoritária, e em uma questionada votação on line (via email) do Conselho Superior Universitário (CONSUN), a adesão dos dois hospitais da instituição à adminitração da EBSERH (no ano de 2015), as coisas só pioraram nos dois estabelecimentos.

Ebserh é privatização e precarização

Sancionada em dezembro de 2011 pela presidenta Dilma Rousseff (PT), a Lei 12.550 estabelece a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (empresa pública de direito privado). Desde então o que tem se atestado nos HU's pelo país é uma queda drástica nos serviços prestados a população e precarização das condições de trabalho dos servidores e prestadores de serviço desses estabelecimentos. No Hospital Universitário da Universidade Federal do Ceará, desde a adesão a Ebserh, 50% dos leitos foram fechados. No HU da Universidade Federal do Triângulo Mineiro as cirurgias eletivas foram reduzidas em 33%. Dados de 2015. No HUJBB cerca de metade dos leitos do hospital estão sem uso. São dados da Federação dos Servidores das Universidades Federais Brasileiras (FASUBRA) e do Sindicato dos Trabalhadores das Instituições Federais de Ensino Superior (SINDTIFES).

Esse quadro de ataques e redução de atendimentos não é por falta de demanda. Todos os dias assistimos ao desespero de quem precisa conseguir uma internação nesses hospitais.

Tragédia anunciada


Sobre os problemas do hospital e a queda do reboco do teto, falamos com a técnica de enfermagem do HUJBB e diretora do Sindicato dos Trabalhadores nas Instituições de Ensino Superior (Sindtifes/PA), Zila Camarão. Ela fez um comovente e revoltante desabafo do quadro caótico pelo qual passa o estabelecimento de assistência à saúde, de ensino, pesquisa e extensão no qual trabalha.

Sobre a queda do reboco do teto, Zila Camarão  diz que os diretores do HUJBB consideram esses episódios tão comuns, que a única providência tomada é fastar os cacos do local. Apesar da EBSERH ter captado R$ 17 milhões no ano de 2016, que deveriam ser investidos em melhorias do HUJBB e HUBFS. 

"A Ebserh e o reitor transformaram o Barros e o Bettina em verdadeiros cabides de emprego para seus apadrinhados", relata a sindicalista. Estão criando vários cargos desnecessários com salários altíssimos, como o cargo de gerente de hotelaria. "Pra quê gerente de hotelaria? Basta falar com qualquer servidor ou acompanhante de usuário aqui para saber que não existe roupa de cama e nem banho." Aliás, faltam alguns medicamentos, insumos básicos material técnico. As vezes falta água potável e/ou copos descartáveis. 

Crise

O Além da Frase conversou com vários servidores em distintos momentos do ano passado e agora nesse episódio da queda do teto. Estivemos em protestos, paralisações e greves. Percorremos os corredores e enfermarias do HUJBB. Sabemos que tem gente de todo canto do estado e até de fora. Em busca de cura. De apoio. Alento. As queixas são muito parecidas. Os acompanhantes e funcionários compram marmitas de fora. Os pacientes se aproveitam disso e também injerem dessas refeições. O que ompromete o tratamento, a dieta e representa risco patológico.

No dia 19/12/2016 no HU João de Barros Barreto, 12 homens encapuzados e com armas de grosso calibre rederam os vigilantes e servidores da portaria. Foram até a entrada principal do hospital, local onde estão os caixas eletrônicos de dois bancos. Não conseguiram abrir os caixas e saíram sem levar nada, porque o maçarico deles não funcionou até o final. Ninguém ficou ferido. Resta aguardar o inquérito aberto na Polícia Civil.

Em uma reunião com o reitor Emanuel Tourinho sobre a segurança no hospital, a representante do Sindtifes lembrou o magnífico das promessas de campanha. "Se elas tivessem sido cumpridas, a gente não estava passando por esses problemas", ressaltou a servidora. Tourinho assumiu há cerca de 120 dias. 

O caos nos hospitais universitários do Pará tem nomes, CNPJ e endereço. É o antigo e atual reitor. São os diretores biônicos impostos pela EBSERH. O Barros Barreto, não é de hoje que o sindicato, servidores e usuários denunciam, é um barril de pólvora. 

Há 4 anos caiu novamente o reboco do teto. Em outra ala. Três pacientes se feriram. Há enfermarias que quem ameça cair são os aparelhos de ar condicionado. Em outros lugares estão caindo água, de infiltrações no teto. Só não cai o número de apadrinhados e aliados do reitor que são remanejados da UFPA para os HU's para desenvolverem sabe-se lá o quê e receberem altos salários e gratificações da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Zenaldo envolvido em mais uma denúncia de crime eleitoral

Na última terça-feira, 03/01, a Prefeitura Municipal de Belém (PMB), através do prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho/PSDB e, segundo o deputado federal Edmilson Rodrigues/PSOL, seu irmão Guto Coutinho, exoneraram de uma vez só mais de mil pessoas dos quadros da prefeitura. Todos ocupavam o chamado DAS (cargo de livre nomeação/exoneração). 

Segundo o parlamentar do PSOL, a decisão do prefeito "Não foi para poupar recursos públicos". Edmilson fez um comentário em uma postagem no Facebook do jornalista Carlos Mendes acerca dessas exonerações. Ele relata que questionou uma dirigente do PSDB acerca do fato. De acordo com Rodrigues, a explicação da tucana foi assim: "os partidos da base de apoio e os políticos com mandato que apoiaram o prefeito ainda cassado, mais os vereadores que passarão ou estão na bancada governista estão fazendo uma pressão muito grande por secretarias ou cargos na prefeitura. Alguns, inclusive, chantageando com ameaça de ir para a oposição se não tiverem seus pleitos atendidos". 

Ou seja, seria mais um caso de troca de favores e do já manjado toma lá, dá cá. Em troca de apoio, prefeituras, governos e parlamentares conseguem empregos temporários ou distribuem benefícios como o Cheque Moradia (estadual e municipal) para cabos eleitorais. O fato é que o pleito passou e rearranjos necessitam ser tomados, como bem expôs Rodrigues em seu comentário. Segundo ele, "ninguém reconhece que já tem seus apadrinhados na estrutura da prefeitura. Por isso, o prefeito Guto, digo Zenaldo decidiu exonerar a fim de que apareçam os "pais das crianças" e ele possa fatiar a prefeitura entre os que não têm ou não querem manter seus traquinos nos antigos cargos." 

A coisa é muito grave e demonstra a podridão do nosso sistema político. Talvez por isso, a maioria da população tenha se abstido, votado nulo ou branco no último pleito eleitoral. As pessoas já estão enojadas com tanta podridão e não se sentem mais representadas por esses velhos políticos. 

Fica simples perceber porque tanto o governo do estado, como prefeituras e demais órgãos da administração direta e indireta não fazem concursos públicos. A justificativa deles é de que não há recursos para a realização do certame, mas só neste início de ano vários órgãos do estado, como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS) e a Universidade do Estado do Pará (UEPA) abriram Processo Seletivo Simplificado de Contratação Temporária para centenas de cargos. 

Um verdadeiro crime contra a moralidade pública, contra o erário do estado e a dignidade das pessoas, as quais são obrigadas a se sujeitar a uma relação clientelista, paternalista, coronelista, conservadora e de trabalho precarizado. Como é o caso dos recentes distratados da PMB. Edmilson Rodrigues diz ainda que “Muitos, certamente, não retornarão aos cargos, apesar do bronzeamento e das muitas roupas molhadas pelas chuvas durante a campanha, quando lhes era afirmado que os que não fossem fazer bandeiradas nas ruas seriam exonerados”. 

Profissão perigo

Dentre os exonerados da Prefeitura Municipal de Belém, fato curioso e surpreendente: aparece na lista (abaixo) o nome da atriz Marília Carla Araújo (foto). A mesma que aparecia na propaganda de rádio e TV de Zenaldo nas eleições de 2016, que falava com jeitão paraense e geralmente atacava o principal adversário do tucano. Isso tudo segundo denúncias que estão rolando nas redes sociais. 

Caso se confirme o fato, trata-se de flagrante crime eleitoral, o que exige do Ministério Público Eleitoral do Estado uma resposta contundente. Esperamos que a justiça eleitoral e o próprio MPE in vestigue essa farra com recursos públicos, ponha um ponto final nessas contratações imorais através de processo seletivo e se exija concurso público para acabar de uma vez por todas com essa farra e o clientelismo imperante na nossa política.
Crime eleitoral? Nas redes e WhatsApp a lista corre solta.

Marília Carla Araújo aparece entre os exonerados da PMB.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A cidade que flutua

Escrevi este texto numa viagem ano passado para Afuá, Ilha do Marajó. Preservei o texto da forma que saiu. Por isso às vezes está no presente, às vezes no passado recente. Enfim. Um dia edito. Espero que gostem!

por Marcus Benedito


Saímos às 19h da Rampa de Santa Inês. Tomamos o barco motor Fé em Deus de Afuá. Logo cedo, chegamos e armamos nossas redes. Alguns papos com outros passageiros. Uns cigarros. Dá-lhe carregamento de cargas no porão e no primeiro convés. (As letras estão tremidas devido o trepidar do motor do navio.)

A travessia do Rio Amazonas em frente de Macapá tem certa dose de emoção em decorrência do vento e da maresia. Na minha infância, confesso, essa travessia parecia mais assustadora. Será por quê na infância tudo é superlativo para a gente? Será por quê a generosidade da criança garante sempre mais cor, realismo, verdade à  vida e esta acaba sendo mais saboreada, vivida, testada? Enfim... O fato é que quando eu estava nas férias escolares, não perdia tempo, aproveitava para ir ao encontro de meu pai, matar a saudade e ficar que nem o rabo dele o acompanhando em suas viagens no Rodrigues Alves nas linhas de Cametá, Santarém e Macapá.

Como dizia, nesse tempo essa travessia em um navio de 3 conveses, que carregava centenas de toneladas de cargas, me era muito assustadora em função do banzeiro. Lembro que chegaram até a mudar os horários de saídas do Rodrigues de Belém para Macapá e vice versa para as 9h da manhã, para que passasse nessa travessia de Macapá sempre de manhã. É o tempo quando os ventos não estão muito irritados. Hoje essa maré não está tão braba assim. A gente já pode fazer essa viagem a noite. E confesso novamente: a noite é mais gostoso. É um encanto, principalmente quando tem luar.

À medida que nos afastamos da capital amapaense, as estrelas vão aparecendo uma a uma. Cada qual rasgando a noite ao seu jeito, inundando a escuridão de brilho. Claro, nada comparado ao que faz a lua! Navegar nos rios da Amazônia é uma verdadeira poesia... Obviamente que uma poesia pode ser o que você quiser que seja. Para mim é uma poesia concretista, bagunçada, alegre e triste. À noite, as estrelas e a lua invadem os rios, tomam os navegantes e nos bebem por completo. Sem deixar de mencionar o belo balé formado pelas pessoas em suas redes. Coloridas, cheias de seus motivos, indo e vindo. Claro, sob a vontade do suserano mor dessas paragens, o Rio Amazonas. Com cheiro de barco, barulho de motor, e nas embarcações regionais (como a que nos encontramos), com um gosto de mixto quente, cerveja, flerte, olhares, sorrisos, compadecimento, adeus.

Vai e vem


Entre os passageiros encontramos de tudo. De veteranos a marinheiros de primeira viagem. Há os que estão de mudança e viajam naquela esperança de encontrar um mundo melhor. Vindos de todo canto. Em busca do velho eldorado. Há pessoas de outros estados. Maranhenses, cearenses, goianos. Tem comerciantes, famosos caxeiros viajantes. Há os que sempre viajam. Semana sim, semana não. Vire e meche estão de subida ou descida. Há os que voltam com a criança que nasceu na cidade grande, o que vieram se tratar de alguma enfermidade, os que não conseguiram cura e voltam em um caixão. De viagens, como dito no início, não sou virgem. Nem de viajem com j e nem de viagem com g. Mas meu parceiro de trabalho, que me acompanha nessa missão até Afuá, este sim é. Terapeuta ocupacional, pai de dois filhos, casado, carinha gente boa. Na dele, comeu um mixto quente com guaraná, perguntou onde era o banheiro, foi dormir.

Afuá para esse mano que vos fala, esta sim é novidade. Do Marajó já conhecia quase todas as cidades. No tempo em que trabalhei no combate e prevenção aos acidentes de motor em pequenas embarcações com escalpelamento, vira e meche eu aportava em São Sebastião da Boa Vista, Breves, Muaná, Ponta de Pedras, Soure, Salvaterra, Oeiras do Pará, Portel, Gurupá. Falta conhecer Cachoeira do Arari de Dalcídio Jurandir e Giovane Galo, Santa Cruz do Arari, Chaves e Anajás. Uma hora dessas apareço por lá. Por hora estou rumando para Afuá, extremo norte do maior arquipélago plúvio-marítimo do mundo.

Barco e rio


Como todo rio amazônico, no maior não haveria de faltar as embarcações. São dezenas, ou melhor, centenas delas. Pequenas, médias e grandes. De transporte de cargas e/ou de passageiros. Um fato curioso: desde que saímos da Rampa de Santa Inês percebo outro barco de dois conveses, mais ou menos do mesmo porte do nosso, contudo, com algo que me deixou muito intrigado: além do farol de milha dianteiro, ele também tem um na popa. Não consigo imaginar outra finalidade para ele que não seja a de segurança naval. Como os nossos rios não estão para peixe, deve ter sido uma forma encontrada para afugentar os piratas. Temíveis corsários que amargam cotidianamente a vida dos ribeirinhos desta região.

São 22h31 e nenhum sinal de sinal da Vivo. Muito menos da Tim. Também, se os tivesse, talvez nem lhes teria escrito ou ao menos iniciado esta crônica de minhas viagens pelas cidades e comunidades amazônicas. Comecei a levar a sério isso há alguns anos. Mas não tão a sério assim, porque todos os meus escritos estão espalhados por casa. Desta vez, pelo menos estou a fazer em um caderno Tilibra pequeno, com caneta de tinta esferográfica azul , alimentado pela expectativa de conhecer mais uma cidade e a minha habitual falta de sono.

Quanto ao barco com o holofote trazeiro, após algumas horas de observação e me valendo de sua maior proximidade, posso asseverar que seu uso deve ser mesmo para despintar os piratas. Algo para fazê-los pensar ainda ao longe que as pretensas vítimas estão indo, quando na verdade estão vindo.

Quanto a brandura de navegar no Rio Amazonas a noite, que me surpreendera ao sair de Macapá, acabo de queimar minha língua. Não sabia que no nosso caminho estava a Baía do Vieira. O Amazonas adquire nomes diversos ao longo de sua passagem pelo Marajó. Aqui é Vieira. E que gingado tem o Vieira! O barco começou a balançar mais que bandeira em vendaval. O banzeiro não me amedronta, o único infortúnio é que as redes começaram a chocar-se uma nas outras. O pior foi a minha, que me jogava contra um esteio da embarcação. Mas superada a baía, veio a calmaria e às 1h15 do dia 10 de agosto de 2016 o barco motor Fé em Deus de Afuá atracou na cidade conhecida como Veneza do Marajó, Afuá.

Cidade suspensa


Construída sobre pontes, devido se tratar de uma área de várzea e igapós, paisagem típica nessa porção da Amazônia, Afuá tem características peculiares. Podemos dizewr que a cidade flutua sob as águas turvas dos rios. Trata-se de uma ilha. Os rios que cercam a cidade são Afuá, Cajuuna e Marajozinho, além de vários igarapés que entrecortam o lugar.

Fundada em 1891, a partir de uma comunidade católica, hoje o município tem uma população estimada em cerca de 37.398 habitantes (dados Wikipédia 2015) distribuídos entre a sede e a zona rural. Em que pese que desde os anos 90 o êxodo rural esteja muito presente, levando as pessoas a ocupar de forma desordenada a cidade, o que acaba por revelar inúmeros problemas sociais, como a falta de saneamento, emprego e serviços públicos de saúde.

As moradias são em sua maioria feitas de madeira, assim como as ruas, ainda que hajam algumas poucas de alvenaria. Não há presença de nenhum veículo automotor na cidade. O meio privilegiado de transporte é a bicicleta. Inclusive em frente da cidade há um grande estacionamento para as magrelas. O carro deles é uma bicicleta adaptada com quatro rodas, duas pedaleiras e pode transportar cargas e de 4 a 6 pessoas. Sem dúvidas uma engenhosa criação que garante um charme a mais para a localidade.

Durante o horário comercial, o silêncio habitual sede espaço para a rádio cipó, que além de algumas músicas populares no país inteiro, o forte é a propaganda dos estabelecimentos comerciais.

Vinho e comida


Em frente a quadra de esportes e na porção horizontal ao rio Afuá, tem um grande palco. Local dos shows e apresentações que ocorrem todo mês de julho, durante o Festival do Camarão, que em 2016 chegou a sua XXXIII edição. Nem precisa dizer, mas o camarão é o orgulho dos moradores da cidade e um dos carros chefe da culinária local. Claro, associado ao açaí, que nesses municípios do arquipélago do Marajó e Baixo Tocantins não são sobremesa. São prato principal. Sempre acompanhado de peixe, camarão, carne, frango, arroz ou feijão. Não importa! Pra este povo açaí é comida e ele não pode faltar.

O bom é que por essas bandas ainda não chegou a maldita extração para importação, o que tem feito o vinho do fruto ficar extremamente inflacionado, principalmente na Região Metropolitana de Belém (RMB). Em Afuá o litro custa de 3 a 5 reais. Média. Em Belém, a este preço, não se compra nem a churamba, que é a lavagem dos caroços após ser extraído o grosso da polpa do fruto.

Povo das águas


Rua de Afuá. Foto: Mauricio Paiva.
Outro brilho especial a Afuá é conferido pela estudantada. Os estudantes das comunidades ribeirinhas chegam cedo. Ainda não era 7h e a praça, onde também tem a quadra de esportes coberta, já estava repleta deles. Com seus uniformes, mochilas e cadernos, cada qual na sua. Paquerando, conversando, contando da vida e aguardando o horário do toque da campainha de entrada das escolas de ensino fundamental e médio.

As pessoas são tipicamente hospitaleiras, mas não de muita conversa. Gente trabalhadora, marcada pela labuta diária, de cor que revela a intensa exposição ao sol, ao sofrimento de viver num país subdesenvolvido no trópico úmido, mas com um brilho nos olhos que garante que a alegria, no menor descuido, rápido pula para fora e se mostra nos dentes sorridos e nos apertos de mão acalorados.

A maioria dos que vivem na sede do município é empregada do intenso centro comercial ou depende de benefícios sociais ou são servidores públicos. A população da zona rural, que de quando em quando povoam as manhãs dos dias úteis do município, são os responsáveis pelo grande vai e vem de pequenas embarcações nos rios que banham a cidade. E tem embarcação para todo tipo de finalidade. Que transporta gente e cargas, que transporta fruto do extrativismo vegetal, que transporta peixes e animais em geral. Inclusive aviste aqui embarcação que transporta combustível de forma irregular. O que sujeita seus condutores a sérios perigos. Outro dia um barco explodiu no porto de Abaetetuba. São os perigos pelos quais essa população batalhadora tem que passar para cumprir aquilo que sentenciou o escritor português do século XIX: “Navegar é preciso”. Mas a busca de dignidade e de vida com qualidade também é preciso. As autoridades são os principais responsáveis por isso. Triste, difícil e sofrida realidade.

 As crianças


As crianças são sempre um capítulo a parte. Em Afuá não poderia ser diferente. Acompanhando os pais, avós ou responsáveis, elas enfeitam os lugares como borboletas embelezam jardins. Com sua habitual honestidades, elas gritam, brincam, choram, exigem, doam, pintam e bordam.

Afuá é uma cidade de crianças. Caminhei por várias ruas. Floriano Peixoto, João Paulo, Generalíssimo... Elas lá. De todas as idades. Vestidas, nuas, jogando vôlei, bola, mergulhadas na mágica da imaginação. Vi um garotinho de mais ou menos um ano e pouco. Ele estava ao lado de outra um pouquinho mais velha. Carrega um martelo à mão. Pensei:

– Quem deixou este pequeno com um martelo na mão?!

Lembrei do dia que meu sobrinho, o mais velho, deu uma martelada na cabeça do meu irmão. Felizmente nada grave, a não ser a dor. Mas o que fazer? Errado foi quem deixou ele com o martelo à mão. Poderia ter caído em seus dedinhos do pés, poderia ter-se machucado feio. Acabou numa dor de cabeça.

As crianças maiores de Afuá brincavam de queimada. Acredito que era uma atividade escolar, pois percebi a presença de uma “tia” que parecia sua educadora física. Eram umas trinta crianças com idades de 11 a 14 anos. Uma grande e barulhenta queimada. No barco mesmo haviam várias. Já era tarde da noite e elas transitando por lá. Eu sou do tipo preocupado. Fiquei pensando na segurança delas. Na vulnerabilidade das mesmas. E se uma cai n’água? E o pior: ninguém vê? Nem é bom pensar...

Sigamos falando da festa e da gritaria. A festa chamada queimada. Elas lá entretidas. Aquele corre-corre. Joga bola pra lá, joga pra cá. Mais gritaria. Diverti-me muito vendo essas cenas. Já os marmanjos, quatro no total, jogavam vôlei na quadra ao lado. Fiquei impressionado. Os caras são bons! Mas a molecada chama atenção. Uma bola desferida por uma garota em um menino. Tocou nele e caiu no chão. A professora gritou: sai fulano. Contrariado, ele saiu. 
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Fonte da primeira imagem: http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=1797010

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Contratação sem concurso repercute na internet

Processo Seletivo: mensagem no site da SEMAS/PA

O Edital 01/2017 da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (SEMAS/PA) publicado ontem no Diário Oficial do Estado do Pará às páginas 20, assim como no site do órgão, segue repercutindo muito mal nas redes sociais. 

Trata-se de um processo muito utilizado pela administração quando esta quer burlar a legislação vigente e a moralidade pública: aplica-se um Processo Seletivo Simplificado de Contratação Temporária. Os críticos da seleção dizem que ela é eivada de questionamentos, sendo um dos principais, a ausência de um certame mais justo e que garantisse a equidade de direitos para os postulantes do cargos públicos, qual seja o concurso público. 

O processo contará de três fases, que inicia com a análise do currículo, feito por banca do quadro (no Edital não diz se comissionados ou efetivos) da SEMAS, indicados pelo secretário Luis Fernandes Amaral e finaliza com entrevista. Tudo eivado, segundo os críticos, de muita subjetividade. O que estaria sendo utilizado para favorecer possíveis apaniguados dos altos quadros da SEMAS e do governador Simão Jatene (PSDB).

Indignação

No Facebook, Twitter e no aplicativo de mensagens áudio visuais instantâneas, WhatsApp, a bronca contra esse PSS da SEMAS/PA é geral. Em uma das mensagens ele chega a ser chamado de "trem da alegria dos tucanos para pagar dívida de campanha com os cabos eleitorais". 

No print acima, que circula em um grupo de servidores públicos, um usuário diz que "É assim q estão pagando os votos, com esses "processos seletivos",são favas contadas os nomes já estão escalados".

Esse tipo de processo pode até ser "legal", mas passa longe de ser moral. Em fins de 2016 o governador Jatene viu seu filho ser preso pela Polícia Federal, devido a envolvimento com a máfia de royalties da exploração mineral. O sobrinho do governador, que da noite para o dia se tornou multi milionário, também tem o nome envolto em investigações e empreendimentos malogrados em Castanhal, Nordeste paraense. Agora vem mais essa medida questionável e inaceitável. Caminhos tortuosos para um governo há muito fragilizado.

Edital 01/2017 

No site pode-se acessar o Edital publicado ontem. Nele consta a indicação de diversos cargos de nível superior e de nível médio. A população está indignada e exige concurso públicos, afinal, são quase duzentas vagas de empregos, as quais serão selecionadas pelo que os internautas chamam de "clubinho do tucanato". Eis os principais prints do Edital 01/2017, de 02 de fevereiro de 2017.

Esperamos que os Ministérios Públicos, entidades de classe e a Associação dos Concursados do Pará (ASCONPA) se manifestem contra essa tenebrosa imoralidade contra os cidadãos e esse desrespeito com os serviços públicos do estado.





 
 




 







Massacre em presídio de Manaus deixa 55 detentos mortos

Autoridades afirmam que trata-se de enfrentamento entre presos do Primeiro Comando da Capital e da Família do Norte

por Gil Alessi, para El País

Uma rebelião no Complexo Penitenciária Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, deixou 55 detentos mortos — a primeira informação dava conta de 60 mortos. O levante na unidade começou na tarde de domingo, e a situação foi controlada apenas durante a manhã desta segunda-feira, após pouco mais de 17 horas. O secretário de Segurança Pública, Sérgio Fontes, falou que se trata de um “massacre” provocado pela briga entre as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC), originária de São Paulo, e a Família do Norte, do Amazonas. A maioria dos mortos pertence ao PCC. “Esse é mais um capítulo da guerra silenciosa que o narcotráfico mergulhou o país”, afirmou. Ao menos 12 guardas prisionais foram feitos reféns e posteriormente liberados sem ferimentos. O secretário de Administração Penitenciária do Estado, Pedro Florêncio, afirmou que alguns presos agredidos foram encaminhados para hospitais da região.

Esta é a segunda rebelião mais letal da história do sistema prisional brasileiro, ficando atrás apenas do Massacre do Carandiru, ocorrido em São Paulo em 1992, no qual 111 presos foram assassinados pelas tropas da Polícia. O juiz Luís Carlos Valois, que esteve no Compaj para negociar o fim da crise disse que viu muitos corpos e que era difícil precisar o número de mortos "pois muitos estavam esquartejados". “Nunca vi nada igual na minha vida, aqueles corpos, o sangue”, afirmou. No domingo seis detentos foram decapitados e tiveram seus corpos arremessados para fora da unidade. Para as autoridades, o grau de crueldade com que os presos foram mortos são um sinal de que a intenção foi mandar um recado para os rivais. Vídeos com pilhas de corpos esquartejados e carbonizados empilhados dentro do Compaj circularam na Internet. Uma das imagens era a de uma cabeça decapitada ao lado de um coração. De acordo com a Umanizzare, empresa responsável pela gestão do Compaj, a unidade abriga 1072 internos, e é o maior presídio do Amazonas.





Desde outubro do ano passado o rompimento entre o Primeiro Comando da Capital a o Comando Vermelho, facção criminosa fundada no Rio de Janeiro e aliada da Família do Norte, elevou a tensão nos presídios do Norte e Nordeste do país. A facção amazonense, inclusive, foi pivô deste rompimento: três lideranças do PCC foram brutalmente degoladas entre junho e julho de 2015 dentro de presídios de Manaus a mando das lideranças da FDN.
O secretário também afirmou que foram ouvidos disparos de arma de fogo no início da rebelião, por volta das 15h de domingo. “Precisamos averiguar se eles usaram armas”, disse Fontes. De acordo com ele, antes do levante houve uma fuga no Instituto Penal Antônio Trindade (Ipat), também em Manaus, que teria sido uma "cortina de fumaça" para a rebelião. Um dos presos que fugiu do Ipat chegou a postar no Facebook uma foto de sua fuga da unidade com a legenda "Fulga (sic) da cadeia".

O Compaj, onde ocorreu a rebelião, é um presídio dominado pela Família do Norte. Na unidade os detentos do PCC são minoria e ficam confinados em dois pavilhões e uma área conhecida como o "seguro", onde ficam separados do restante da população carcerária. Documentos obtidos pelo EL PAÍS apontam que uma das lideranças do grupo José Roberto Fernandes Barbosa, conhecido dentro do sistema carcerário como Messi, chegou a negociar com as autoridades para acabar com a área reservada aos presos do PCC. De acordo com informações da PF, em meio a uma onda de violência na capital em 2015, Barbosa foi convocado para uma reunião no Compaj, com o então secretário de Administração Penitenciária do Estado, o coronel reformado Louisimar Bonates. Durante o encontro ele fez a solicitação de acabar com a área destinada aos presos paulistas em troca da pacificação das ruas e presídios. O acordo acabou não se concretizando.


Pichação com as iniciais do Comando Vermelho e da Família no Norte dentro de presídio em Manaus.

A região Norte é fundamental para o tráfico internacional: as principais rotas de droga passam por suas fronteiras, uma vez que estes Estados fazem divisa com grandes países produtores de cocaína, como Peru, Bolívia e Colômbia – além da Venezuela, famosa pela permissividade em suas fronteiras. O controle das cadeias locais estabelece o poder sobre essa atividade. Já no Nordeste ficam alguns dos pontos de escoamento da droga que vai até a África e Europa.
 
Nos últimos anos, o PCC fortaleceu sua presença em algumas das mais importantes rotas do tráfico internacional de drogas e armas. A facção é responsável pelos principais carregamentos de cocaína vindos da Colômbia e Bolívia e maconha do Paraguai. O Comando Vermelho, por sua vez, perdeu preponderância nestas rotas após a prisão de Luiz Fernando Costa, o Fernandinho Beira-Mar, em 2001 na Colômbia. À época, ele negociava com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia para a compra de cocaína.

Rastro de violência

O fim da aliança entre as facções já deixou um rastro de sangue no sistema prisional. Em outubro, na penitenciária agrícola de Monte Cristo, em Boa Vista, ao menos 10 presos do CV foram mortos quando detentos ligados ao PCC arrebentaram os cadeados que separam as alas e invadiram o setor da facção fluminense. Segundo o Sindicato dos Agentes Penitenciários de Roraima, pelo menos seis presos foram decapitados e queimados, o que dificultou a identificação dos corpos. O conflito ocorreu durante o horário de visita, o obviamente mais importante e pretensamente protegido no código não escrito dos detentos, o que foi lido como mais um indicativo da divisão profunda entre as facções. Horas depois, numa prisão de Porto Velho, um motim semelhante deixou oito presos mortos.