Trancaços e manutenção da
greve por tempo indeterminado na Amazônia
Foto: Jean Oliveira/FNP
por Priscila Duque*
A greve petroleira já atinge as bases dos 17 sindipetros
brasileiros e na Amazônia vem ganhando cada dia mais adesões, conquistando o
comprometimento dos trabalhadores. O movimento já é pauta dos principais
veículos de comunicação e causa preocupação em Dilma/Bendine e no mercado
financeiro, que vê a greve como uma ameaça aos seus planos nefastos de retirada
de direitos e privatização da Petrobrás.
GREVE na AMAZÔNIA
Na última quinta-feira, 05, novamente foram realizados trancaços nas
unidades da Transpetro, em Belém e São Luís, e na Petrobrás Regional Norte
(UO-AM). Na Transpetro Belém houve adesão de 100% da operação, manutenção e
administrativo. Para furar a greve, vergonhosamente, o gerente do TA entrou
escondido pela BR Distribuidora. Na UO-AM, após duas horas de trancaço, foi
liberada apenas a entrada dos trabalhadores terceirizados, permanecendo a
mobilização dos próprios fora do prédio, com ratificação da greve por tempo
indeterminado.
Além disso, foi feito trabalho político de convencimento com os
petroleiros do prédio de Tecnologia da Informação (TIC), e a partir desta
sexta-feira, 06, esses trabalhadores irão aderir à greve nacional da categoria.
Tendência é zerar produção no Urucu
Na Província Petrolífera do Urucu (AM) apenas uma equipe de
contingência, formada por engenheiros, supervisores e gerentes, ou seja,
pessoas que estão desviadas das suas funções, operando os painéis da sala de
controle da planta, na tentativa de normalizar a produção. A medida adotada
pela companhia coloca em risco tanto trabalhadores quanto as instalações do
campo de Urucu, pois além do improviso para furar a greve, a planta está
vulnerável por não haver brigada de emergência.
Alguns companheiros da equipe de contingência já entraram em contato com a
direção do Sindipetro PA/AM/MA/AP, alegando exaustão e solicitando o
desembarque. O jurídico do sindicato já está intervindo para garantir o
desembarque dos companheiros o mais rápido possível. Além disso, os
trabalhadores que não embarcaram mantém firme a decisão de não ceder às
pressões e assédios da companhia para garantir a rendição da equipe de
contingência. A Petrobrás está bloqueando o contato dos petroleiros de Urucu
com o movimento grevista.
Os trabalhadores da Amazônia mantém a decisão de greve por tempo indeterminado
até que a companhia reveja sua política de ataque aos direitos da categoria e
ao caráter público da Petrobrás.
Esclarecimento sobre notícia veiculada no jornal “A Crítica”
A
Direção do Sindipetro PA/AM/MA/AP esclarece aos petroleiros que a notícia
veiculada pelo jornal “A Crítica”, do Amazonas, a qual coloca uma declaração
onde supostamente o diretor Silvio Cláudio afirma que a companhia colocou sua
segurança armada para intimidar os trabalhadores a sair à força da sala de
controle, não condiz com a declaração feita pelo diretor. Na verdade, o
Inspetor de Segurança do Urucu, Aluísio Neves, se negou a ameaçar os
petroleiros em greve e entregou sua arma, por apoiar o movimento. Diante da
negação do Inspetor em cumprir a ordem de intimidação, a Petrobrás ameaçou
chamar a polícia civil para realizar o trabalho sujo de repressão e
criminalização da luta.
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*Priscila Duque é jornalista e assessora do Sindpetro PA/AM/MA/AP.
A cada dia que passa, a greve dos petroleiros se fortalece, recebe apoios e solidariedade da sociedade e de diversas categorias profissionais e já é a maior greve desde 1995, quando Lula, PT e a CUT traíram os petroleiros e capitularam ao governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), derrotando a grandiosa mobilização.
Foto: FNP
por Jean Oliveira, para a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP)
Alagoas/Sergipe
Na base do Sindipetro AL/SE, as unidades de Pilar, Furado
e Transpetro Alagoas, em Alagoas continuam paralisadas. A categoria fez
carreata para visitar as sondas de Alagoas com o objetivo de reforçar a
paralisação nessas áreas, principalmente junto aos terceirizados. O movimento
também conta com a paralisação de 90% do efetivo Petrobrás e TRANSPETRO TA e
100% de adesão da Transpetro Dutos.
Em Carmópolis, por mais que haja pressão, por parte da
empresa, para que os petroleiros voltem à unidade, a greve continua forte, com
adesão de 80% do ADM e 90% dos operadores, envolvendo todas as estações, exceto
Coqueiro e Riachuelo. Três estações estão completamente paradas: Entre Rios,
Nova Magalhães e Jericó.
Na FAFEN, muitos petroleiros ouviram a convocação do
Sindipetro AL/SE e compareceram na porta da fábrica para participar de uma
assembleia. Ficou deliberado pela continuidade do movimento grevista. A
produção continua sendo mantida de forma irresponsável por uma equipe de turno
e o grupo de contingência formado pela empresa desde o dia 31 de outubro.
Na Sede, a mobilização continua forte, com adesão superior
a 90% do adm. No Tecarmo, mesmo com a “Judicialização”, via interdito
proibitório, os trabalhadores seguem fortes na luta, com adesão de 80% da
operação. Um grupo grande de operadores da Transpetro que estavam confinados em
hotel próximo como equipe de contingência, aderiram ao movimento, fortalecendo
a luta.
Litoral
Paulista
Na RPBC, em Cubatão, mais de 30 petroleiros de base
compareceram à refinaria e ajudaram o Sindicato a organizar durante a manhã um
forte operativo nas portarias da unidade, fechando inclusive a entrada do CEAD
e do SMS. A adesão à greve é de 100% no turno e 90% no ADM.
Na Alemoa, em Santos, trabalhadores e diretores do
Sindicato fecharam as principais entradas para o terminal. Com a denúncia de
que o grupo de contingência estaria entrando na unidade utilizando uma passagem
não autorizada na Codesp, parte dos manifestantes se dirigiram ao local, por
onde ninguém passou. A greve no terminal tem adesão de 100% do turno e
administrativo. Houve atraso de uma hora na entrada dos terceirizados.
No Litoral Norte, com 100% de adesão operação e de
supervisão, 90% da manutenção e 80% do ADM, a greve dos petroleiros segue no
Tebar. A produção da unidade já despencou em 40%. Mais de 40 trabalhadores
madrugaram na entrada principal do terminal. Outros grupos, com cerca de 10
petroleiros, também ficaram nas outras três portarias da companhia com faixas
de protesto, desde às 4h30 da manhã.
Na Unidade de Tratamento de Gás Monteiro Lobato (UTGCA),
em Caraguatatuba, mesmo após o ato de repressão orquestrado pela gerência da
UTGCA, que acionou a justiça para acabar com o piquete na frente da unidade, o
movimento segue forte. A adesão é de 100% da operação, 100% dos técnicos de
manutenção sobreaviso e 70% adm (manutenção e SMS). Os trabalhadores em greve
continuam se revezando para manter a escala (12 horas) que fariam se estivessem
trabalhando mesmo com o clima de tensão imposto pela empresa. Muitos
companheiros têm recebido telegramas com aviso de demissão com a justificativa
de “abandono de emprego”. No Terminal de Pilões, em Cubatão, segue a greve com
adesão de 80% no turno e 90% no ADM.
Pará/Amazonas/Maranhão/Amapá
No Sindipetro PA/AM/MA/AP hoje teve um trancaço no
Maranhão Terminal de Itaqui com forte 100% de adesão da operação. Na sede da
UO-AM, a adesão é de a greve tá forte a maioria ficou % dos trabalhadores mesmo
após o interdito proibitório instaurado pela justiça.
Em Urucu (AM), a gerência está recuperando a produção
através do trabalho da contingência. Os petroleiros que deveriam embarcar em
Urucu cruzaram os braços. Os trabalhadores que estão sem embarcar estão
engrossando a greve na porta do Prédio de Manaus. Na Transpetro Miranar, em
Belém, os trabalhadores continuam em greve, que foi aprovada, em assembleia,
por ampla maioria.
Rio
de Janeiro
Os petroleiros estão desde às 8h da manhã desta segunda
(9) em vigília na frente do Edifício Sede da Petrobrás, no Centro do Rio. O
protesto irá continuar por todo o dia como forma de pressão sobre a direção da
empresa que hoje retomou o diálogo com os sindicatos e federações. O
Sindipetro-RJ também realizou um ato no TBG, na Praia do Flamengo, como forma
de fortalecer a mobilização da greve nacional da categoria.
No TABG, a greve está forte. Houve um acordo com a
gerência proposto pelo Sindipetro-RJ e os trabalhadores assumiram o controle e
acompanhamento das atividades. No TBIG, em Angra dos Reis, a greve está forte
com adesão de 80% no turno, quase 100% na manutenção e muito apoio no
administrativo. O terminal está operando de forma irregular e insegura, com 2
grupos se revezando de 12 horas, utilizando pessoas em desvio de função e sem
habilitação para desenvolver as atividades em curso. Em condições normais, o
trabalho é desenvolvido por 5 grupos com escala de 8 horas. No Cenpes, vão ser
realizadas reuniões setoriais nesta noite para avaliar se haverá corte de
rendição de turno.
São
José dos Campos
Na Revap, em São José dos Campos, os operadores continuam
fazendo corte de rendição e no dia de hoje seguem mobilizados na porta da
unidade.
O velho continente, os lobistas e os negócios da Petrobras
por Diego Escosteguy, com Flávia Tavares, Marcelo Rocha e Leandro Loyola
Em 19 de abril de 2008, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Acra, capital de Gana, para uma das 28 visitas diplomáticas que fez à África em seus oito anos no Planalto. Naquela manhã de sábado, Lula foi recebido no aeroporto pelo presidente ganense, John Agyekum Kufuor, que lhe entregou flores amarelas, brancas e rosa. Deu tchauzinhos, passou em revista as tropas, ouviu os hinos dos dois países e assistiu a um show de danças típicas. Depois da solenidade, seguiu para o Castle Route, palácio do governo local, para começar a tratar de negócios.
A diplomacia de negócios na África era central à política externa do governo Lula. Havia um componente ideológico de esquerda na aproximação com a África. Ele se revelava no desejo de Lula e do PT em ajudar esses países a superar problemas sociais crônicos. Mas o Brasil também ganhava muito – e ninguém começou a ganhar mais que as empreiteiras brasileiras. Elas passaram a ter negócios em 70% dos países africanos. Mesmo que isso significasse, para os brasileiros, ver Lula apertar a mão de ditadores como Obiang Nguema, da Guiné Equatorial, que se mantém violentamente no poder há 35 anos, ou do líbio Muammar Khadafi, apeado do poder durante a Primavera Árabe. Em 90% das conversas, os chefes de Estado africanos pediam a presença de uma empresa brasileira em seus países: a Petrobras.
Os pedidos faziam sentido. Países como Gana detêm muita matéria-prima, sobretudo na área de energia, como campos de petróleo e gás, mas pouca experiência ou recursos para transformar riquezas naturais em dinheiro para seus povos – ou líderes políticos corruptos. Percebendo isso, o governo Lula determinou que a Petrobras buscasse oportunidades de parceria nesses países. Determinou também que o BNDES financiasse os projetos em que empreiteiras brasileiras tivessem participação.
Na numerosa comitiva que acompanhava Lula em Acra havia dois convidados especiais. Um deles era o empresário José Carlos Bumlai, um dos melhores amigos de Lula e então conselheiro da empreiteira Constran. Ao lado de Bumlai estava Fábio Pavan, lobista da Constran em Brasília – e, naquele momento, encarregado de conseguir contratos em Gana na área de energia e biocombustíveis. Pavan ocupava, em Brasília, o cargo que, duas décadas antes, nos governos de José Sarney e de Fernando Collor de Mello, pertencera a Bumlai: prestar – e cobrar – favores a políticos que tenham relação com a Constran. Esse tipo de relação promíscua alimenta há décadas a corrupção no mundo da política, e não apenas no Brasil. Não é fortuito que, no curso da operação Lava Jato, a Polícia Federal (PF) tenha descoberto evidências de que a Constran também participara do esquema de corrupção na Petrobras liderado por Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, e Alberto Youssef, um dos principais doleiros do país. E que contribuíra para campanhas políticas em 2010. A Constran nega as acusações.
Bumlai é desconhecido fora da política, mas dentro dela é uma estrela. Tinha livre acesso ao Palácio do Planalto e oferecia churrascos ao amigo Lula. Também filtrava nomeações políticas para os maiores cargos da República, como diretorias na Petrobras. “Estive com Bumlai duas vezes, pedindo ajuda para ser diretor. Era um cara muito forte no PT”, disse o lobista João Augusto Henriques, quase nomeado diretor internacional da Petrobras em 2008, por indicação do PMDB. Bumlai já foi acusado de usar a influência de Lula em favor de negócios particulares. E não só particulares. Antes que o tesoureiro petista Delúbio Soares tombasse no caso do mensalão, Bumlai mantinha frequentes contatos com ele, segundo extratos telefônicos da CPI que investigou o caso. Na Operação Vampiro, em que a Polícia Federal investigou fraudes em licitações no Ministério da Saúde, ainda no começo do governo Lula, o nome de Bumlai apareceu, em depoimentos e grampos telefônicos, como arrecadador de fundos para o PT, ao lado de Delúbio. No mais recente depoimento que prestou ao Ministério Público, o operador do mensalão, Marcos Valério de Souza, fez acusações semelhantes. Bumlai sempre negou peremptoriamente qualquer atividade ilegal. Mas nunca negou a amizade com Lula.
Na visita a Acra, Lula deixou claro que estava ali para tratar de um tema central: energia. Logo na chegada a Gana, criticou a indústria do petróleo e defendeu investimentos em biocombustíveis no país, com a ajuda do Brasil. Pouco depois, Fábio Pavan, que se apresentava como “diretor de desenvolvimento” da Constran, comemorou publicamente uma parceria com uma empresa local, a Northern Sugar Resources, para produzir etanol. A Constran entrava com a usina, a Northern com a cana, e o BNDES com o dinheiro para a empreitada. Pavan disse que o investimento total seria de US$ 306 milhões, dos quais US$ 260 milhões iriam do BNDES para a Northern. “É um projeto vencedor”, disse Pavan. Acrescentou que se tratava do primeiro empréstimo público concedido pelo Brasil a Gana. Um ano mais tarde, a Constran anunciava a construção de duas hidrelétricas, além da usina de etanol. Os três empreendimentos juntos deveriam somar US$ 850 milhões e ter, claro, financiamento do BNDES. Em 2009, Pavan afirmou que “Gana tem a melhor porta de entrada da África”, por causa das estabilidades política e econômica, além do “baixo nível de corrupção”. “O Brasil estava dormindo e acordou”, disse o embaixador de Gana no Brasil, Samuel Dadey.
Fazer negócios na África, como sabem homens como Bumlai ou Pavan, não é nada fácil. A burocracia e a corrupção são obstáculos insuperáveis para quase todos que se aventuram por lá. Apesar das declarações triunfais de Pavan, os negócios da Constran em Gana deram errado. A Odebrecht tomou o lugar da Constran. Pavan prosseguiu em seu safári. Para fazer dinheiro em Gana, correu à Petrobras. Em outubro de 2011, segundo documentos obtidos por ÉPOCA, Pavan, ao lado do ganense Dadey, já ex-embaixador, marcou uma reunião dos diretores da empresa britânica Minexco (leia o e-mail acima) com o então diretor internacional da Petrobras, Jorge Zelada, indicado pelo PMDB. A Minexco, em parceria com a petroleira estatal de Gana, queria que a Petrobras virasse sócia na exploração do campo de Tano, no litoral ganense.
Para chegar até Zelada, Pavan e os executivos da Minexco tiveram de passar pelo crivo do lobista João Augusto Henriques, aquele que esteve com Bumlai e, como revelou ÉPOCA no ano passado, era o intermediário para qualquer negócio na área internacional da Petrobras. Marcou-se um encontro no escritório de João Augusto no Rio. João Augusto desistiu na undécima hora, segundo os envolvidos. Num lance comum nessas aventuras subterrâneas, João Augusto aproximou-se do ex-embaixador Dadey e se livrou de Pavan, o intermediário concorrente.
Mesmo com a astúcia do lobista João Augusto, a operação da Petrobras com Gana foi barrada na diretoria da estatal. Em 2011, anos depois da visita a Gana, havia na Petrobras apenas o eco dos discursos triunfalistas de Lula. A empresa, segundo documentos internos obtidos por ÉPOCA, investira bilhões de dólares em seis países africanos. As operações eram promissoras, em especial na Nigéria, mas não produziam dinheiro suficiente para que aventureiros como Pavan ou João Augusto laçassem novos negócios no continente. O caixa da Petrobras começara a secar. Eram negócios demais, seja nas refinarias de Paulo Roberto Costa, seja nas compras e vendas da turma do PMDB, liderada por João Augusto. A política de vender combustível barato ao brasileiro, tendo de importá-lo cada vez mais caro, também contribuía para o sumiço de bons negócios.
A frustração com a operação Gana talvez tenha levado João Augusto, o caçador da Petrobras na África entre 2008 e 2012, a lembrar melhores temporadas. Uma das caçadas de João Augusto aconteceu em 2009, na Namíbia. Ali, segundo disse a ÉPOCA, foi uma caçada a dois: PT e PMDB. O grupo inglês Chariot, que detinha direitos de exploração num campo offshore na Namíbia, em sociedade com a British Petroleum, estava em busca da experiência da Petrobras para extrair petróleo de águas profundas. Os ingleses vieram ao Brasil. Não sabiam em que porta bater. E bateram, segundo João Augusto, na porta do sindicalista Armando Tripodi, do PT, então chefe de gabinete de José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras.
“Na Namíbia, o assunto veio pelo chefe de gabinete do Gabrielli, o Armando. O grupo deles (dos empresários ingleses e do PT) queria vender poços na Namíbia por US$ 150 milhões”, disse João Augusto. Ele queria dizer que essa turma esperava que a Petrobras entrasse de sócia na operação, mas, para isso, se comprometesse a pagar adiantado o valor a que teria direito quando – ou se – o petróleo fosse encontrado. João Augusto conta que propôs uma alternativa mais sensata, que poderia passar pelo Conselho de Administração. “Vamos vender pelo que o negócio vale hoje e, se tiver óleo, pagam-se os US$ 150 milhões.” Exatamente o tipo de raciocínio que a Petrobras, segundo ele, deveria ter aplicado na polêmica compra da refinaria de Pasadena, em 2006. “Não sou vestal. Gosto de dinheiro. Mas nunca faria uma sacanagem como a que fizeram em Pasadena”, disse João Augusto.
A proposta prosperou, segundo ele. João Augusto firmou um contrato com a Chariot e recebeu uma parte pela intermediação. Em maio de 2009, a Petrobras anunciou a compra de 50% do bloco na Namíbia do grupo Chariot, por US$ 16 milhões. Se a operação comercial desse certo, a Petrobras pagaria um “bônus de produção” de 4,75% da parcela produzida – ou US$ 118 milhões. “Eu tinha um sucesso, um percentual. Se Namíbia desse óleo, eu estava rico”, disse João Augusto. Só ele, ou a turma do sindicalista Armando Tripodi também? “Não sei dizer. Cuido apenas do meu dinheiro. Mas quebramos a cara. Deu seco. Acontece muito.” A operação de perfuração custou US$ 86 milhões. O projeto foi abandonado.
Depois de tantas caçadas frustradas, a Petrobras resolveu reunir seus ativos na África e buscar um sócio disposto a investir nas operações. A ideia era fundir todas numa operação conhecida como Petroáfrica. Como antecipou ÉPOCA em abril do ano passado, o sócio escolhido foi o grupo BTG Pactual, do banqueiro André Esteves. Para conseguir fechar o negócio, o BTG contratou vários conselheiros, entre eles o lobista Hamylton Padilha – outro dos grandes caçadores da Petrobras, ao lado de João Augusto e Fábio Pavan. Bons caçadores atuam juntos. Segundo João Augusto, Padilha foi parceiro dele no lobby para que a Petrobras contratasse um navio-sonda da Vantage Drilling, por US$ 1,6 bilhão, em 2009. O negócio, segundo João Augusto, rendeu US$ 10 milhões em comissão – parte disso paga, diz ele, a deputados do PMDB. A operação Petroáfrica deu certo. Em junho do ano passado, a Petrobras se uniu ao BTG, numa nova subsidiária, não com todos, mas apenas alguns ativos, sobretudo na Nigéria. O BTG pagou US$ 1,5 bilhão por metade das operações. Técnicos da estatal ouvidos por ÉPOCA consideraram o valor baixo, levando em consideração o que a empresa já investira e quanto ela ainda poderia ter de retorno. Mesmo que o valor da operação possa ser questionado, já dá retorno à Petrobras e ao BTG. Documentos do BTG afirmam que o preço foi compatível com valores de mercado. Procurado, o BTG não se manifestou.
Fábio Pavan confirma que esteve com Bumlai e Lula na viagem a Gana. “Estava lá cuidando dos projetos da Constran, quando soube que o presidente Lula iria ao país para inaugurar o escritório da Embrapa. Decidi ficar e participar do evento. Bumlai também foi”, diz. Procurado para falar sobre o relacionamento entre Lula e Bumlai, o Instituto Lula não respondeu até o fechamento desta edição. Pavan confirma ainda que, em 2011, Samuel Dadey, ex-embaixador de Gana no Brasil, o procurou para que articulasse uma reunião de representantes da GNPC, a estatal do petróleo de Gana, e da britânica Minexco com dirigentes da Petrobras. “Procurei alguns amigos que tinham relação com a Petrobras, mas a reunião acabou não ocorrendo”, diz. “O que me deixou bastante aborrecido.” A UTC Engenharia, controladora da Constran, informou que comprou a empresa em janeiro de 2010 e passou a administrá-la apenas em fevereiro daquele ano. Nesse período, informou a assessoria da UTC, a Constran não fez negócios na África. A Petrobras informou que não comentaria o assunto. O gerente executivo de Responsabilidade Social da Petrobras, Armando Tripodi, ex-chefe de gabinete de Gabrielli, não foi localizado. De acordo com documentos do BTG Pactual, todas as empresas contratadas para auxiliar o banco na África, inclusive a de Padilha, eram obrigadas a assinar uma cláusula compatível com as normas internacionais anticorrupção. ÉPOCA foi à caça dos empresários Bumlai e Padilha, mas não os localizou.