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domingo, 18 de fevereiro de 2018
A esquerda brasileira no labirinto do PT
Adolfo Santos e Diego Vitello – Dirigentes nacionais da CST-PSOL
O julgamento do ex-presidente Lula tem enfiado amplos setores da esquerda num verdadeiro labirinto. Prisioneiros da propaganda do lulopetismo e seus aliados, estes grupos políticos se perdem em justificativas, explicações, acusações e propostas estapafúrdias. Nenhuma delas conduz ao caminho para superar uma direção que traiu os interesses da classe trabalhadora, quando é imperioso construir uma saída frente a uma das maiores crises política, econômica e social da história recente do Brasil. Escrevemos este texto para aportar ao debate apresentado pelo PT e pela maioria das correntes do PSOL em defesa de Lula e contra sua condenação por fatos relacionados com a corrupção.
Nestes dias assistimos fatos concretos que ajudam a compreender melhor esta discussão. As mobilizações convocadas em apoio de Lula demonstraram mais indiferença que interesse por parte da população trabalhadora em relação ao processo do julgamento. Os atos do dia 23/01 em Porto Alegre e 24/01 em São Paulo, onde o PT, a CUT, a CTB e o MTST jogaram toda a força de seus aparatos, não moveram nenhuma parcela expressiva da classe trabalhadora, que não compactua com a corrupção desenfreada deste regime em decomposição. No ato não estiveram presentes os batalhões pesados do operariado com fortes colunas de metalúrgicos, bancários, carteiros, petroleiros ou trabalhadores do transporte. Pelo contrário, a maioria dos atos era composta de militantes de organizações que se alinha
ram ao campo lulista.
Felizmente, algumas organizações da esquerda, dirigentes políticos e sindicais e principalmente importantes setores da base da classe trabalhadora e também do próprio PSOL, de diferentes categorias e da juventude, resistem à lógica do “mal menor” e às mais diversas acusações, por não nos alinharmos com a defesa de Lula e seu projeto. São muitas as opiniões que circulam em documentos, jornais e nas redes que manifestam a rejeição a defender a principal figura do PT das acusações de corrupção. Como parte desses setores, que não aceitam livrar a cara dos que se integraram a este regime podre, a CST publicou vários artigos, colocando claramente que os crimes de corrupção devem ser investigados, os culpados punidos e seus bens confiscados. Lula e a direção histórica do PT são parte desses esquemas de propinas, desvios de dinheiro público e enriquecimento ilícito. Por isso entendemos que não é tarefa da esquerda consequente a defesa de Lula, nem de outros tantos envolvidos em corrupção.
Pois disso se trata. O ex-presidente Lula não está sendo acusado nem julgado por perseguição política, por apoiar a ocupação de terras, por desapropriar prédios e entregar-los aos sem teto, por romper com o sistema financeiro, por confiscar os bens dos empresários que inflacionam os preços ou que sonegam impostos ou por desobediência civil. Em qualquer caso de uma condenação dessas, a CST estaria de forma incondicional na defesa de Lula ou de qualquer outro. Mas infelizmente, não se trata disso. Lula, à cabeça de seu partido, integrou-se ao regime burguês decadente que governa nosso país. Seguiu os passos dos governos que o antecederam e que sempre denunciamos, e integrou-se aos esquemas de corrupção.
“A opção de Lula e da cúpula petista de aderir ao projeto de submissão imperialista, converteu as velhas lideranças de esquerda em capachos do sistema financeiro, do agronegócio e das multinacionais e levou inevitavelmente a utilizar os mesmos esquemas e os mesmos métodos corruptos dos governos e regimes anteriores […] O PT e a maioria de seus dirigentes e parlamentares financiaram suas campanhas graças às contribuições de madeireiros, bicheiros, multinacionais e banqueiros… Cabia-lhes, depois pagar a conta, lembrando o velho ditado que diz: quem paga a banda, escolhe a música”Do artigo: “Corrupção e neoliberalismo”, publicado pelo mandato do deputado federal Babá, PSOL/RJ, em agosto de 2005.
Lula e o PT são parte do processo de corrupção sistêmica no Brasil
É consenso entre a maioria das organizações de esquerda que no Brasil existe um processo de corrupção sistêmica. Grosso modo, o sistema político para os maiores partidos (PMDB, PT, PSDB, PP, etc.) funciona assim: as grandes empresas, como é o caso da Odebrecht, OAS, JBS, Itau e outras, financiam campanhas políticas milionárias, de candidatos de diferentes legendas. Terminado o pleito, os vencedores, através do executivo e do legislativo, passam a defender os projetos de interesse dessas empresas, seja com projetos de lei, concessão de obras e serviços públicos. As empreiteiras, umas das que mais financiam as campanhas, são favorecidas com obras superfaturadas, que lhes permitem altíssimos lucros e um generoso excedente para destinar ao financiamento dos partidos e políticos de forma individual. As obras da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016 foram uma verdadeira farra com o dinheiro público que beneficiou empresários e políticos, Sérgio Cabral, que sempre foi aliado de Lula, é o melhor exemplo disso. Se pesquisarmos o financiamento eleitoral do PT, do PMDB, ou do PSDB, veremos que esses partidos e seus dirigentes, se beneficiaram fartamente dos dinheiros das empreiteiras. Os que defendem Lula, e portanto negam que esteja envolvido nos esquemas de corrupção, entendem que o PT e seus dirigentes não são parte da corrupção sistêmica em nosso país?
Além disso, sob pretexto da “governabilidade”, e a troca de apoio aos seus projetos, o partido no governo, distribui cargos para seus “aliados” que passam a controlar pequenos “feudos”, como ministérios, secretarias, direção de estatais, desde as quais comandam fortes esquemas de desvio de dinheiro. É só lembrar as fotos do apartamento alugado para guardar malas, caixas e pacotes desbordando dinheiro desviado por Geddel Vieira Lima, queridinho nos governos de Lula, Dilma e Temer, onde ocupou importantes cargos. Escândalos de corrupção como Mensalão, Petrolão e o Trensalão do tucanato de São Paulo, se enquadram nesse tipo de corrupção, que é o mais comum. O PT não foi o inventor destes esquemas, mas os adotou e os expandiu.
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