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quinta-feira, 9 de março de 2017

O Dia Internacional da Mulher

Ação política das operárias russas que desencadeou a revolução de fevereiro e deu origem ao Dia Internacional da Mulher, em 1917.
por V. I. Lênin

O resultado principal, fundamental, obtido pelo bolchevismo e pela Revolução de Outubro é haver atraído para a política justamente aqueles que eram mais oprimidos sob o capitalismo. Eram camadas que os capitalistas escravizavam, enganavam, roubavam, tanto no regime monárquico como nas repúblicas democrático-burguesas. Esse jugo, esse engodo, essa pilhagem do trabalho do povo, por parte dos capitalistas, era inevitável enquanto existisse a propriedade privada da terra, das fábricas, das usinas.
A essência do bolchevismo, do poder soviético, consiste em que ao desmascarar a mentira e a hipocrisia do democratismo burguês, ao abolir a propriedade privada da terra, das fábricas e das usinas, concentra todo o poder do Estado nas mãos das massas trabalhadoras e exploradas. Essas massas tomam a política em suas mãos, isto é, a tarefa de construir uma nova sociedade.
É uma tarefa difícil: as massas estavam escravizadas, sufocadas pela capitalismo, mas não existe nem pode existir outro caminho para sair da escravidão do salário, da escravidão capitalista.
Não é possível, porém, atrair as massas para a política se não se atraem as mulheres. No regime capitalista, de fato, a metade do gênero humano, constituída pelas mulheres, sofre dupla opressão. A operária e a camponesa são oprimidas pelo capital e, além do mais, mesmo nas repúblicas burguesas mais democráticas, persiste, em primeiro lugar, a desigualdade jurídica, porque a lei não lhes concede igualdade com os homens e, em segundo lugar — e essa é a questão essencial — elas sofrem a «escravidão doméstica», são «escravas domésticas», sufocadas pelo trabalho mais mesquinho, mais humilhante, mais duro, mais degradante, o trabalho da cozinha e da casa, que as relega ao âmbito estreito da própria casa e da própria família.
A revolução bolchevista soviética, arranca as raízes da opressão e da desigualdade das mulheres muito mais profundamente do que o tenha ousado, até hoje, qualquer partido e qualquer revolução. Entre nós, na Rússia soviética, não restou nenhum vestígio da desigualdade jurídica entre homens e mulheres. O poder soviético aboliu por completo a desigualdade particularmente ignóbil, abjeta e hipócrita que caracterizava o direito matrimonial e de família, a desigualdade em relação aos filhos.
Tudo isso é apenas o primeiro passo para a emancipação da mulher. Todavia, nenhuma das repúblicas burguesas, nem mesmo a mais democrática ousou dar esse primeiro passo. Não o ousou, tímida, detendo-se diante da «sagrada propriedade privada».
O segundo passo, o mais importante, consistiu na abolição da propriedade privada da terra, das fábricas e das usinas. Essa abolição, e somente ela, abre caminho para a emancipação completa e efetiva da mulher, para sua libertação da «escravidão doméstica», porque assinala a passagem da mesquinha e fechada economia doméstica para a grande economia socializada.
Essa passagem é difícil, pois é preciso transformar uma «ordem de coisas» das mais enraizadas, tradicionais, enrijecidas e inveteradas (na verdade trata-se de infâmias e barbarias e não de uma «ordem de coisas»). Mas a passagem foi iniciada; pusemo-nos ao trabalho e já marchamos por um novo caminho.
Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, as operárias de todos os países do mundo, reunidas em inúmeros comícios, enviarão sua saudação à Rússia soviética, que iniciou uma obra extremamente difícil, árdua, mas grandiosa, de porte mundial, precursora de uma verdadeira emancipação da mulher. Erguerão apelos corajosos para que não se deixem atemorizar pela reação encarniçada e às vezes feroz da burguesia. Quanto mais um país burguês é «livre» ou «democrático», tanto mais o bando dos capitalistas se desespera e enfurece contra a revolução operária; basta tomar como exemplo a república democrática dos Estados Unidos. Mas a massa dos operários já despertou. As massas adormecidas, ou semi-adormecidas, inertes, da América, da Europa e da atrasada Ásia despertaram definitivamente com a guerra imperialista.
Em todas as partes do mundo, rompeu-se o gelo.
A libertação dos povos do jugo imperialista, a libertação dos operários e das operárias do jugo do capital realiza progressos irresistíveis. Essa obra foi empreendida por dezenas e centenas de milhões de operários e operárias, de camponeses e camponesas. Por isso, essa obra, a libertação do trabalho do jugo do capital, triunfará no mundo inteiro.
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Primeira Edição: Publicado no suplemento da Pravda, nº 5, de 8 de março de 1921. (Obras Completas, vol. XXVI, págs. 193-194.)
Fonte: O Socialismo e a Emancipação da Mulher, Editorial Vitória, 1956.
Tradução: Editorial Vitória.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Nova York: "Foda-se a supremacia branca", entoaram centenas de estudantes contra Trump

“No ban. No registry. Fuck white supremacy!”: os secundaristas tomaram as ruas de NY contra Trump

Protesto contra Trump nas ruas de Nova York. Foto: Molly Crabaplle
por Eduardo Protázio, para o site da Juventude Vamos à Luta
“Nenhuma proibição. Nenhum registro. Foda-se a supremacia branca!”, “Nenhum ser humano jamais será ilegal!”… Essas e outras palavras de ordem e cantos eram entoados por milhares de jovens, amplamente estudantes de diversas escolas de Nova York no último dia oito (clique aqui para assistir vídeo), numa contundente resposta ao republicano Donald Trump e sua política nacionalista, anti-imigração, racista, cuja uma das maiores expressões é a ordem executiva assinada pelo presidente norte-americano que estabelece a construção de um muro em 3200 kilômetros na fronteira México-EUA, dando sequência aos 1000 km de muro da vergonha construídos pela gestão do democrata Bill Clinton. 
Dentre outras ações, defende a ampliação e modernização do poderio militar genocida, prática já aplicada anteriormente por Bush e Obama, afora as práticas de tortura que pretende estabelecer no país. Um regresso!
Sem dúvidas o dia 8/2 foi uma resposta necessária. Tal como tem se dado desde a sua vitória eleitoral, passando pelo dia da posse e os seguintes, com grandiosas manifestações pelo mundo inteiro, centrada em uma pauta que se estende às reivindicações em defesa dos direitos humanos em geral, especificamente a pauta das mulheres, do movimento negro e LGBT, bandeiras erguidas majoritariamente por jovens.
Juntar os explorados e oprimidos do mundo numa onda contra Trump e o imperialismo!
Aproveitar o 8 de março e unificar as lutas contra os governos! 
É fundamental que todos estes setores já em luta contra o novo chefe-imperialista convoquem o conjunto da classe trabalhadora para uma forte luta unificada, para que não se iludam e se mobilizem contra as mentiras feitas durante a campanha eleitoral. O magnata dizia que atuará ao lado dos trabalhadores na garantia do emprego, por exemplo, quando na realidade, por trás de sua máscara, servirá aos interesses daqueles com quem sempre esteve abraçado, os agentes do mercado financeiro, os banqueiros e multinacionais de Wall Street, conforme apontará a reforma tributária que brevemente será anunciada.
No último dia 13 dezenas de milhares de mexicanos saíram às ruas, num grandioso movimento contra o Muro e a anti-imigração, que ficou tido como a unificação do México, o que foi extremamente importante. Este fato serve como mais um belo exemplo de que as mobilizações precisam se intensificar e crescer, diante de um programa de esquerda, contra a opressão e os ataques dos governos, para cada vez mais abalar as estruturas do governo Trump e seus agentes imperialistas.
Por tudo isso é que está sendo organizada uma poderosa manifestação em todo o mundo, aproveitando o dia internacional de luta das mulheres, para se organizar uma paralisação internacional das trabalhadoras e trabalhadores, atingindo diretamente os que lhes superexploram. Diversos artistas, ativistas sociais e organizações políticas estão impulsionando este chamado. Devemos ampliá-lo.
É preciso exigir aqui no Brasil que as maiores centrais sindicais, como a CUT, CTB, Força Sindical, bem como as direções das entidades estudantis, da UNE, UBES etc., convoquem e construam esta paralisação nas categorias em que atuam. Ainda no Brasil, o dia 8 será um importante preparativo para o dia 15/2, este último sendo chamado como um dia de luta e paralisação nacional contra Temer e toda crise social a que passa o país. Portanto, é imprescindível que os setores da esquerda combativa, como CSP-CONLUTAS e Intersindical somem-se neste chamado, e convoquem paralisação nos dias 8 e 15 de março. Nenhum passo para trás, a juventude mostra o caminho.
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Eduardo Protázio é poeta, escritor, estudante de Letras da Universidade do Estado do Pará (UEPA), militante da Juventude Vamos à Luta e colunista do Além da Frase.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

No dia 8 de março de 1917 as trabalhadoras russas incendiaram o mundo!


por Joice Souza

Você já deve ter ouvido a história de como surgiu o 8 de março. A partir da década de 60, em meio à guerra fria, circulou e se consolidou a versão de que o dia internacional das mulheres trabalhadoras foi instaurado em função da morte de 129 operárias norte-americanas durante uma greve em 1857, em um incêndio provocado por seus patrões.

No entanto essa história nunca ocorreu. Ela é fruto de uma confusão ou talvez de uma das maiores fanfics do stalinismo mundial. Esse mito nos levou a relembrar o 8 de março como o dia em que operárias foram queimadas vivas, a greve derrotada e a burguesia saia vitoriosa esmagando, com a força física, os métodos da classe.  Mas essa história é um mito! Há publicações fartas que demonstram que essa narrativa é fruto de um conjunto de informações desencontradas e confusão de datas. 

As operárias tomavam as ruas no inicio do século XX

Claro o mito da greve de 1857 possui vários elementos verdadeiros.  De fato, em 1910 a comunista Clara Zetkin propôs ao congresso da Segunda Internacional Comunista a fixação do dia internacional de lutas das mulheres trabalhadoras a ser comemorado no dia 29 de março. O “womans day" era realizado nos EUA com grandes marchas organizadas por mulheres  desde o inicio do século XX sempre entre fins de fevereiro e início de março, tendo como pauta o direito ao voto, melhores salários e condições de trabalho, jornada de trabalho, etc. 

O “DIA DA Mulher” ganhava força no inicio do século à medida que ganhava força a participação das trabalhadoras no movimento operário. Segundo Aleksandra Kollontai, o número de trabalhadoras sindicalizadas  saltou de pequenos grupos dispersos em fins do século XIX para formar “um poderoso exército de mais de um milhão de mulheres socialistas" em 1913.

Não fomos incendiadas. Incendiamos o mundo!

Também é verdade que o fato que consolidou em 1922 o oito de março como Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras foi uma importante marcha de operárias em greve. Porém, essa greve não foi derrotada por um incêndio. Teve início em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário juliano) o poderoso levante de trabalhadoras (e trabalhadores) de Petrogrado  iniciado por operárias tecelãs, que atropelaram a orientação da direção do partido  bolchevique de não realizar greve, num levante espontâneo, que segundo Trotsky, deu o pontapé à primeira etapa da Revolução Russa: a chamada revolução de fevereiro.

Era o dia internacional das mulheres (que na época não tinha data fixa). A socialdemocracia russa preparava panfletos. A Rússia explodia em greves num novo ascenso operário que desde 1915 rompia com o período de refluxo e derrotas vividos durante cinco anos. Mesmo assim as direções do movimento operário haviam desaconselhado a realização de greve por acreditar que “não eram momentos propícios à hostilidade" e agitavam a necessidade de uma “ação revolucionária”, porém sem data determinada. Mas quando amanheceu o dia 23 de fevereiro, as fábricas têxteis do bairro de Vyborg não funcionaram.

Contrariando a orientação de suas direções, operárias tecelãs entraram em greve e enviaram comissões a outras categorias. As direções, de início a contragosto, acompanharam a marcha. Leon Trotsky nos fala sobre esse episódio nos primeiros capítulos de seu livro História da Revolução Russa escrito em 1930:

“De fato, estabeleceu-se que a Revolução de Fevereiro foi desencadeada por elementos da base que ultrapassaram a posição das suas próprias organizações e que a iniciativa foi espontaneamente tomada por um contingente do proletariado explorado e oprimido mais que todos os outros – as trabalhadoras do têxtil, cujo número, deveria-se pensar, devia-se contar muitas mulheres soldados. (...) O número de grevistas, mulheres e homens foi, nesse dia, cerca de 90 000. (...) Em diversos bairros apareceram bandeiras vermelhas cujas inscrições atestavam que os trabalhadores exigiam pão, mas não queria mais autocracia nem guerra. O 'Dia das Mulheres' tinha conseguido. Ele estava cheio de entusiasmo e não tinha causado vítimas." (TROTSKY, 1930)

Aquele 23 de fevereiro não terminaria ali. Nos dias seguintes mais operários/as se juntavam às manifestações, as forças policiais se dividiam entre a repressão e a simpatia ao movimento e as palavras de ordem por pão, paz e terra ecoavam pelas ruas de Petrogrado.

Importante destacar que o levante de Petrogrado não foi um levante só de mulheres desprezado pelos homens, como defendem setores do pós-modernismo sempre que querem problematizar um suposto papel secundário das mulheres na revolução. A greve do dia 23 foi um poderoso dia de levante de trabalhadoras e trabalhadores impulsionado por um de seus setores mais precarizados, as tecelãs, contra o absolutismo do Czar e que atropelou e arrastou consigo uma direção que inicialmente estava vacilante. No texto mulheres militantes nos dias da Revolução de outubro, Aleksandra Kollontai fala sobre o papel das mulheres. Dele, destaco o seguinte trecho:

As mulheres que participaram na Grande Revolução de Outubro – quem eram elas? Indivíduos isolados? Não, havia multidões delas; dezenas, centenas e milhares de heroínas anônimas que, marchando lado a lado com os operários e camponeses sob a Bandeira Vermelha e a palavra-de-ordem dos Sovietes, passou por cima das ruínas do czarismo rumo a um novo futuro. (...) No ano de 1917, o grande oceano de humanidade se levanta e se agita, e a maior parte deste oceano feito de mulheres… Algum dia a história escreverá sobre as proezas dessas heroínas anônimas da revolução, que morreram na Guerra, foram mortas pelos Brancos e amargaram incontáveis privações nos primeiros anos seguintes a revolução, mas que continuou a carregar nas costas o Estandarte Vermelho do Poder Soviético e do comunismo. (Kollontai, 1927)

Essas trabalhadoras conquistaram o que nenhuma democracia burguesa havia dado até então. O Estado Revolucionário garantiu igualdade política e jurídica a mulheres e homens, o direito ao divórcio e ao aborto, a construção de creches, restaurantes e lavanderias públicas e consolidou  em 1922 o dia  8 de março como Dia Internacional das Mulheres em alusão a greve das tecelãs de Petrogrado.

A Revolução Russa foi um divisor de águas nas lutas feministas do início do século XX, pois de um lado as trabalhadoras em todo o mundo abraçavam o socialismo e reivindicavam para si conquistas das trabalhadoras soviéticas; por outro lado, as mulheres burguesas se lançavam em defesa de sua classe, pois lutavam por questões pontuais: igualdade de gênero, desde que isso não significasse perder seus privilégios. Muitas foram às associações, clubes e grupos de mulheres (em geral da alta-sociedade) contra o comunismo, fundados naquele período.

Infelizmente, o triunfo do stalinismo e a burocratização do estado soviético, a partir de 1923, interrompeu esse processo de (auto) libertação das mulheres antes que ele se completasse, revertendo diversas conquistas das mulheres e jogando o 8 de março no esquecimento por décadas. Somente nos anos de 1960 é que o Dia Internacional da Mulher veio a ser retomado: tanto pelo stalinismo mundial, que o resgatou já com o mito da greve de 185, como pela burguesia em 1975, quando a ONU reconheceu oficialmente a data buscando dar respostas ao novo ascenso da luta das mulheres que se gestava naquele período.

Seguir o exemplo das tecelãs de Petrogrado! Viva a luta das mulheres! Viva a Revolução Russa!

100 anos após a Revolução, o capitalismo mostra sua face patriarcal na Rússia: em janeiro deste ano foi aprovada a lei que descriminaliza a violência doméstica e em todo o mundo a crise capitalista atinge com mais força as mulheres superexploradas e oprimidas.  Poderosos levantes de mulheres explodem no mundo contra o patriarcado e relembrar a história do 8 de março, dia em que iremos mais uma vez às ruas, é muito importante para demonstrar que essa data não é sobre a burguesia e seus métodos assassinos e cruéis, nem sobre repressão. É sobre o poder das mulheres trabalhadoras e seus métodos. O 8 de março é um dia para ir à luta e incendiar o mundo como o fizeram as tecelãs em 1917.
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Joice Souza é jornalista e militante da tendência sindical Combate - Classista e pela Base.