terça-feira, 15 de setembro de 2015

Desemprego e racismo no Brasil


por Makaíba

Segundo o IBGE, existem hoje quase 8 milhões de desempregados no Brasil. As demissões acontecem em alguns setores importantes da economia como na indústria (montadoras de automóveis), construção civil (empreiteiras ligadas as obras da Petrobras) e no comércio. E com o plano de ajuste econômico de Dilma e Levy tirando os direitos da maioria do povo trabalhador a serviço dos interesses do grande capital, a situação só tende a piorar, por mais que partidos da base governista, como PT e PC do B, insistam em afirmar o contrário.

O que de verdade esses partidos não dizem, sobre a onda de desemprego atual e o ajuste econômico do governo federal, é que as duas coisas são uma só: ou seja, é o custo da crise econômica capitalista mundial que cabe ao Brasil, colocado nas costas do trabalhador brasileiro. Da mesma forma como fazem os governos e partidos a serviço da burguesia grega, italiana, espanhola, etc., contra os trabalhadores daquelas nações europeias.

Mas, como estamos falando de Brasil, para sabermos mesmo quem são os mais prejudicados com a onda de desemprego atual e os que sofrerão diretamente com as drásticas consequências do plano de ajuste econômico da dupla Dilma/Levy, temos que levar em conta outros dados estatísticos do IBGE que dizem respeito ao percentual e as condições de trabalho dos “não-brancos” na população brasileira. E, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, não estamos falando de “minoria”, mas, da maioria da população. É que, quanto mais próximo do topo da pirâmide social brasileira, mais clara é a pele. Quanto mais próximo da base da pirâmide, mais a pele é escura. Nesse sentido, os negros (parcela da população que inclui pretos e pardos) são a maioria em 56,8% dos municípios brasileiros. E o maior número de trabalhadores negros está concentrada na indústria e no comércio.

Então, juntando os dados sobre o desemprego e os dados sobre o perfil da população brasileira, mais as consequências do plano de ajuste de Dilma/Levy, não é difícil de concluir que os mais prejudicados serão, mais uma vez, os negros e negras desse país. É, realmente a história por aqui continua se repetindo como uma farsa. A tal “democracia racial” nesse país não serve apenas para encobrir a tragédia do racismo made-in-brazil. Ela é útil também para “democratizar”, entre a maioria da população que é negra, os prejuízos na economia nacional produzidos pelo capitalismo brasileiro, administrado por uma minoria branca burguesa dominante, no meio de uma crise mundial.

Ao afirmarmos que a maioria negra da população será a mais prejudicada com a onda de desemprego e os ajustes na economia promovida pelo governo federal, não estamos desprezando a parcela de trabalhadores brancos que também será prejudicada. Com certeza trabalhadores brancos serão demitidos de acordo com as conveniências dos patrões. Só que numa sociedade, como a brasileira, que há diferenças étnicas além da divisão de classes, o racismo não é apenas um instrumento de dominação étnico, mas, também ideológico e político: ou seja, o racismo é uma ideologia a serviço dos interesses hegemônicos de uma classe dominante burguesa que também se vê como uma raça superior a maioria do povo. Que para se manter dominante, procura sempre ganhar aliados brancos nas classes subalternas com falsa similaridade racial.

E por que, além de classe, a elite dominante também se diferencia enquanto raça?

Porque o Brasil foi colonizado por brancos cristãos europeus que desde o início no século XVI, para ocupar as terras do “novo mundo”, não titubearam em massacrar, explorar, oprimir e impor a aculturação dos povos nativos (índios). Esses mesmos brancos cristãos europeus, também não hesitaram em traficar milhares de homens e mulheres negras da África por quatro séculos, para que, sob o terror da tortura e do assassinato, fossem explorados como força de trabalho escravo.

Para justificar a expansão do antigo sistema colonial europeu e o tráfico de mão de obra escrava, o racismo se desenvolveu na história moderna como uma ideologia da “superioridade” das “nações civilizadas” e sua importante missão de “civilizarem” as regiões do planeta consideradas “inferiores”, “primitivas” e “bárbaras”. Com essa justificativa, territórios inteiros foram ocupados e populações foram dizimadas pelos “povos superiores”.

Essa era a ideologia dos colonizadores e senhores de escravos no “Novo Mundo”. Essa era a ideologia dos colonizadores e senhores de escravos no Brasil. Tudo isso com o único intuito de acumular riquezas que deram a base material para formação de uma classe dominante, predominantemente branca e cristã, da qual descendem grande parte dos indivíduos que pertencem a contemporânea classe capitalista dos grandes comerciantes, industriais, empresários do agronegócio e banqueiros nacionais. E a classe dominante atual, além do legado genético e econômico, também herdou a ideologia racista de “superioridade” de seus antepassados.

E é com essa visão de raça e classe que a elite dominante e seu governo de plantão, com Dilma e Levy na condução do trabalho sujo, não vão titubear, como não titubearam seus tataravós colonizadores e senhores de escravos, em sacrificar a vida das negras e negros desse país, mais uma vez e quantas vezes forem preciso, para salvar seus lucros e a própria pele branca da catástrofe econômica mundial.

Diante disso, a única saída que resta para as negras e negros desse país é agirem como maioria que são dos trabalhadores e dos pobres brasileiros e juntos com a parcela dos trabalhadores brancos, como uma só classe, lutarem por seus direitos imediatos contra o desemprego e, a partir daí, organizarem uma mobilização permanente até derrotarem de vez a minoria branca de capitalistas e racistas que dominam esse país. Só dessa forma derrotaremos o poder e o racismo da classe dominante, a qual está submetido a grande parcela do povo brasileiro.
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Makaíba é militante da CST/PSOL-RJ

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Jader: uma história de assalto aos cofres públicos e de impunidade


Já vos caiu a ficha que Jader Barbalho (PMDB) pode ficar completamente impune?! 

Sem decisão final da justiça, seus crimes estão prescrevendo. Facilidades de um país onde corruptos fazem as leis. Legislam em causa própria.

Sobre ele pairam dezenas de denúncias. Processos recheados de documentos que comprovam os crimes de improbidade administrativa, de responsabilidade e de formação de quadrilha.

Do Banpará e da SUDAM foram bilhões desviados. Segundo o Ministério Público Federal (MPF), a quadrilha liderada por Jader Barbalho, desviou só da SUDAM 1,2 bilhão de reais.

Ele e Tourinho chegaram a ser presos em 2002 (foto) por determinação da justiça federal no Tocantins. Doze denúncias apresentadas. Um arsenal de provas recolhidas por agentes da Polícia Federal, auditores da Receita Federal, e procuradores da República. Barbalho beneficiou-se do vergonhoso foro privilegiado.

A mamata era tamanha, que o político não titubeou em trazer os esquemas para sua intimidade. Refiro-me ao famoso caso do Ranário financiado pela Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia. 

Sua esposa era dona desse Ranário (criação de rãs). De tão famoso, o caso virou filme de diretor americano, foi exibido no Festival de Roma e mostra a conexão entre corrupção e violência (http://www.bbc.com/portuguese/reporterbbc/story/2007/04/070426_mandabaladiretorbg.shtml).

Seu apadrinhado antigo, colega ginasial e amigo, Arthur Tourinho (o mesmo que presidiu o Paysandu), foi escolhido para ser o seu homem na SUDAM. 

A fome com a vontade de comer

É vergonhoso saber que para grandes bandidos, os que roubam muito, políticos como Jader e Renan Calheiros (PMDB/AL), que não podem, segundo a lei, mas que têm verdadeiros impérios de comunicação, não têm o peso da Lei.

Para eles chá, café, banquetes e tapinha nas costas. Tudo pago com dinheiro do contribuinte. 

Mas acima de tudo: para eles, o doce gostinho da impunidade. Tourinho também se beneficiou de foro privilegiado, pois elegeu-se deputado estadual em 2002. Lógico, pelo PMDB de Jader.

Jader Fontenelle Barbalho está solto. É senador da República. O filho, ministro. A ex esposa, deputada federal. O primo, deputado federal (que o protegeu muit,  quando presidente da 'Comissão da Amazônia' da Câmara Federal). 

Até hoje, passados anos e dezenas de kilômetros de processos nas varas judiciais de 1ª, 2ª e 3ª entrâncias, nenhum centavo (nenhum!) foi devolvido aos cofres públicos do Pará e do país.

Jader está solto. Podre de rico. Dono de latifúndios. Segundo o jornalista Alceu Luís Castilho escreveu em seu livro Partido da Terra, o político paraense é membro efetivo do violento e escravocrata "partido da terra" (bancada ruralista no Congresso Nacional).

Uma história que merece ser contada, lida, vista, repudiada. Pois uma história de vil rapina. O enredo é marcante e não faria feio, se confrotado, com qualquer série no Netflix.

Baiano concorda com delação premiada e pode demolir Eduardo Cunha e parte do PMDB

O acordo com a PGR prevê, pelo menos, outro anexos aonde ele detalhará sua participação no esquema da Petrobras. O lobista deve continuar preso na Polícia Federal até novembro. 



De acordo com o consultor e delator Julio Camargo, Baiano é “sócio oculto” do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e teria recebido propinas de US$ 10 milhões pelos contratos dos navios-sondas. Desses, US$ 5 milhões teria ido para Cunha. O presidente da Câmara nega a acusação.

Baiano passou a quarta-feira prestando depoimentos na sede da Polícia Federal em Curitiba. A reportagem apurou que o operador já falou sobre três dos oito anexos inicialmente previstos no acordo. Entre os temas acordados, está a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. E a participação de políticos ligados ao PMDB no esquema.

Durante os dois meses de negociações para colaborar com a Justiça, Baiano adiantou aos investigadores de que o pagamento de propina relativas a refinaria americana não seu deu em 2006, quando a Petrobras comprou 50% da refinaria da Astra Oil. E, sim, durante as negociações para compra dos outros 50% da empresa a partir de 2008.

O acordo de Baiano pode alavancar outra colaboração emperrada na PGR: a do ex-diretor da área Internacional da Petrobras Nestor Cerveró.
Isso porque Baiano não soube explicar em detalhes como as negociações para a aprovação de Pasadena foram feitas internamente na Petrobras. Cerveró se comprometeu a entregar dados de como dirigentes da estatal participaram do esquema montando para a compra de Pasadena.

Fernando Baiano é apontado pelo doleiro Alberto Youssef e outros colaboradores como o operador do PMDB no esquema de corrupção na Petrobras. Teria sido ele o operador de propinas do principal partido da base aliada do governo Dilma.
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Fonte: http://br29.com.br/baiano-fecha-delacao-premiada-e-pode-demolir-eduardo-cunha-e-parte-do-pmdb/

O homem que amava os gatos e os cachorros

Chico Braga, de pescador a compositor, músico, cantor e mestre praiano de carimbó

Lamento profundamente a morte do compositor e cantor de carimbó Chico Braga, 60. A nossa arte hoje canta de forma distinta.

Chico Braga um ser distinto. Na Ilha, ligado no mundo. Artista sem igual.

Dois dias distintos próximo ao mestre. Foi mestre, educador, parceiro, amigo, rival.
Tem até foto.

Isso foi no verão amazônico de julho de 2014. Ilha de Algodoal.

Ficamos cantando carimbó a madrugada inteira, após o ter reencontrado exatamente no mesmo lugar onde tinha se apresentado há umas 4 ou cinco horas.

Ele, eu, sua cachorrinha e a garrafa de abisinto. Ele provou. Gostou. A cachorra,  que de vez em quando me dava uma mordidinha no calcanhar. "É ciume, é ciúme", ele dizia. Compus um carimbó com ele..

Parei. Pensei não estar no caminho certo. Ele disse surpreendentemente: "Continue, continue".
Pela terceira vez percebi a presença do dono do bar lá em cima. Me despedi. Ele ficou lá com a cachorrinha, com sua voz única, cantando.

Chico Braga era uma figura controversa. Tinha, como todo mundo, seus problemas. Um deles era votar no PSDB, devido suas políticas clientelistas para com os artistas.

"Chico Braga mora na praia. Em cima daquele morro".
Chico Braga criava gato, Chico Braga criava cachorros. Para eles, todos os dias, fazia "seu mingau".

domingo, 6 de setembro de 2015

A Síria é aqui


por Marcel Padinha

Tô aqui pensando em um monte de coisas... em um monte de ações que poderiam e podem ser tomadas para barrar essa barbárie. Mas... acima de tudo estou pensando na força que tem uma imagem... na força da mídia. E ao mesmo tempo na força da imagem de uma criança morta. Por tudo que uma criança representa ou achamos que possa representar. Falo isso, porque vivi e vivo Belo Monte.

O lugar no Brasil onde há pelo menos 04 anos mais se vitima mulheres no Brasil, crianças e adolescentes inclusive.

Altamira enterrou há alguns meses os corpos de 04 pessoas, uma delas criança de 09 anos. Estava desaparecida durante meses. Foi encontrado seu corpo...

Estuprada e morta. Estuprada e assassinada em um lugar que se tornou completamente estranho para ela.  A cidade onde viveu seus nove anos, a cidade onde por costume brincava na rua... o holocausto do mundo está na esquina.

A geopolítica do mundo é o nosso quintal. Há um mês cinco jovens foram assassinados cruelmente pela polícia em Altamira... que nunca negou o crime, inclusive.

Isso não circulou, não virou imagem... Não era na porta da Europa.

Hoje, em virtude da política de remoção das famílias atingidas por Belo Monte, trocam-se casas, ruas e vizinhos...  Em uma palavra: trocam-se vidas e dignidade por verdadeiros campos de refugiados dos grandes projetos feitos pelo governo em parceria siamesa junto as grandes empreiteiras....

Tô aqui pensando em nossas crianças... em nossos jovens.... em nossos lugares de existência e dignidade.

Estou aqui pensando que só a luta muda a vida para melhor.
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*Marcel Padinha é professor da Faculdade de Geografia da UFPA

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Parar Belo Monte, barrar o ajuste e construir o dia 18 de setembro

Abraço na Ilha do Arapujá. Povos tradicionais, militantes e estudantes da UFPA denunciam destruição causada por Belo Monte
Dilma e empreiteiros presos na Lava Jato promovem cenas piores do que as que são mostradas no filme Avatar, na região do rio Xingu, Pará. 

Trata-se da criminosa usina de Belo Monte. Todos os dias chegam imagens que se superam entre si. Como as que ilustram um protesto realizado hoje (fotos) na Ilha do Arapujá, município de Altamira-PA, rio Xingu. Uma forma de denunciar a catástrofe ambiental e humanitária em curso na região.

Não foi por acaso que James Cameron, diretor do filme Avatar e uma das famosas atrizes desta produção, estiveram visitando e alertando para os impactos do empreendimento hidrelétrico na região do Xingu. Isto foi antes do início das famigeradas e assassinas obras. Infelizmente a realidade com suas bombas, máquinas, desmatamento, concretos, produtos tóxicos, químicos, miséria e fome, de longe, superam o que Hollywood produziu. 

Metáfora e vida real conseguem desgraçadamente se encontrar no Pará. 
Só a nossa luta e mobilização de forma unificada, poderá por um fim em toda essa destruição de nossa fauna, flora, rios, populações tradicionais e povos indígenas!

Unificar as lutas
O dia 7 e o 18 de setembro serão dias de denunciar essas e tantas outras barbáries e de lutar para derrotar o vergonhoso ajuste fiscal de Dilma-Levy, governadores e prefeitos!

Diversas entidades e organizações sociais, como a CSP Conlutas, Intersindical, Combate, Unidos pra Lutar, Anel, Vamos à Luta e Juntos já assinam convocatória para atos nos estados e um grande protesto na avenida paulista dia 18 de setembro. Esse é o caminho contra a falsa polarização entre governistas e tucanos!

Todos são corruptos e defendem o ajuste! Fora todos! É preciso uma nova Assembleia Nacional Constituinte que reorganize o país. Que acabe com a sanha e a rapina de madeireiros, latifundiários e empreiteiros sobre a Amazônia! 

Uma nova Assembleia irrestrita e soberana que ponha para fora todos (PT, PCdoB, PMDB, PSDB) e na cadeia os corruptos! 
Que ponha fim aos privilégios de políticos e confisque os bens dos corruptos! Que aumente imediatamente os salários dos trabalhadores e servidores públicos, e que congele todos os preços dos produtos da cesta básica, do combustível, moradia e transportes!

Fotos: Anderson Barbosa/Maria Elena Silva)

No mês de outubro

Todo segundo domingo de outubro ocorre o Círio de Nazaré. Milhões de pessoas nas ruas. Com fé ou sem fé. O fato é que todo mundo se vê tocado ou envolvido pela romaria. 

E romaria pode remeter a Maria ou Roma. As duas coisas. E quem tem boca vai à Roma. Quem tem boca ou não se delícia com um número sem fim de gostos, cheiros, cores e sons que acompanham esses festejos. Durante, antes e depois desse dia do senhor de outubro, que em Belém é dedicado à mãe: Maria de Nazaré. 

Quinze dias de festas. Coisas que tem em todo arraial. Roda gigante, maçã do amor, pescaria, frituras, gorduras, comidas típicas, terços, produtos artesanais e religiosos. Mas com milhões de pessoas, casas e hotéis lotados com gente da capital, interior e outras regiões do país e até mesmo do estrangeiro, o que não poderia faltar são motivos para distintas atividades, o outro lado de toda festividade religiosa: o lado profano. 

E que delícia de lado! Auto do Círio, Palhaços Trovadores, Vacas Profanas, Chiquita, Cordão do Peixe Boi, Círio Fluvial, peças, festas, bares e teatros burbulhando em todos os cantos da cidade. 
Afinal, como diria Elói Iglesias (cantor e ícone gay do Pará) no filme As Filhas da Chuiquita: antes de mais nada "o Círio é gente, gente, gente, muita gente". E gente gosta de ser feliz. 

Em busca da felicidade e de mais algumas gotas de bebida, Maria interveio e Jesus fez seu primeiro milagre. Água em vinho. Felicidade. 

O Círio Fluvial sem dúvida é um belo capítulo a parte. Antes dele, na sexta, tinha o baile de Cametá. Geralmente era no Marista ou na sede social do Clube do Remo. Banda Caferana, Banda Halley, Kim Marquês, Mestre Cupijó e Banda. Mestre Cupijó arrebentada com seus mambos, sambas de cacete, siriás. A felicidade era tanta, que quando o Mestre tocava eu já nem mais lembrava. Lembro, isso sim, que sempre tinha meus irmãos, parentes e amigos. 

Certa vez, de lá, fui rolando e quando vi estava no Bar do Parque. Eram umas cinco e meia. Pedi a última. Encontro um primo que mora "pras Zoropa". Pavulagem grande. Estávamos atrasados para pegar o Rodrigues Alves. A romaria fluvial sai as 7 de Icoaraci. A gente as 6 do Palmeiraço.

Hoje, vou no Amazon Norte ou Cidade de Santarém. Tem tudo para todos os gostos. Como no Rodrigues Alves e navios alugados para a arquidiocese e turistas em geral: reza, comida e felicidade. 

No meu caso, ano passado já cheguei feliz. O Círio é fé, corda, romarias, mas também uma cadeia de eventos, curtições, festas, encontros, a "marvada" da felicidade. Estava em alguma festa. Para não chegar em casa e perder horário, resolvi chegar logo cedo. No navio tomei um banho e vesti a camisa do propósito.

Para alguns a romaria fluvial é passeio, para uns fé. Por 30 reais você tem café da manhã, missa e no terceiro andar, felicidade. Muita felicidade. E viva nossa senhora de Nazaré!
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P.S.: Felicidade pode se encontrar na água, no vinho, nas coisas simples da vida. E o Círio é só um capítulo a parte. Um capítulo com milhões de possibilidades. Que o diga a Turma da Mônica e seus criadores, que vieram de outras bandas fazer censura com jornalista paraora. Com censura e intolerância o Círio não combina.

domingo, 30 de agosto de 2015

Eu sou índio

Eu sou índio. Eu me comovo profundamente com a tragédia humanitária em curso no Norte da África e a forma sanguinária e desumana com que governos da Europa e EUA tratam esses seres humanos.
Eu sou índio. Eu me comovo e solidarizo com as vítimas do genocídio promovido pelo ditador Assad na Síria.
Eu sou índio, eu me comovo com assentados, acampados, ribeirinhos, quilombolas, em suma, povos tradicionais e sou vítima, somos vítimas e estamos perecendo com a mãe natureza devido a rapina e a sanha de grandes projetos nas nossas terras, rios e florestas.
Eu sou índio, me comovo e solidarizo com os torcedores do Remo e do Paysandu, que foram chamados de índios.
Eu sou índio, me solidarizo com os paulistanos, candangos e nordestinos que sofrem com a cerca, que seca a água da gente.
Eu sou índio. Meu povo está sendo dizimado. Os parente Xikrin do sudeste do Pará já não podem ter filhos, porque as minas da Vale poluiu fauna, flora e rios.
Eu sou índio. Meu povo está sendo Dilzimado. Hoje matarm uma liderança nossa em Mato Grosso do Sul. Os Guarani-Kaiowá podem desaparecer amanhã.
Eu sou índio e temo pelos parente Terena, Sawré Muybu, Korubu.
Eu sou índio e não sei porque muita gente ainda dá pouca importância para isso.

sábado, 8 de agosto de 2015

NEM GOVERNISTAS, NEM TUCANOS! FORA TODOS

PT, PMDB e PSDB não nos representam! Por uma Assembléia Nacional Constituinte pra reorganizar o país


Derrotar o ajuste e a corrupção de Dilma, Cunha, Aécio e governadores!

A crise política do governo Dilma/Temer avança aceleradamente, sendo que o executivo não possui capacidade de comandar o país. Embates decisivos acontecem e as instituições políticas estão ameaçadas, pois a linha sucessória da velha republica está mergulhada na corrupção e o Congresso não possui legitimidade. Está em debate nos partidos do sistema distintas saídas: “sangrar o governo até 2018”, “impeachment”, “novas eleições”, “unidade PT/PSDB” e “governo conciliador de Temer”. Além de rumores de um possível renuncia de Dilma. Saídas conservadores cuja preocupação é preservar a política neoliberal e o ajuste fiscal de Dilma, do Congresso e dos governadores. O que combina com a defesa das instituições da velha republica de 1988. Algo prejudicial aos interesses dos trabalhadores e do povo. Nesse contexto vão ocorrer os protestos do dia 16 e 20 de agosto, sobre os quais apresentaremos nossa visão, buscando construir uma saída alternativa de esquerda, conectada com as jornadas de junho de 2013 e da onda grevistas de 2014.

Não vamos ao dia 16 com os tucanos!

Sabemos que muitos trabalhadores estão insatisfeitos com o governo do PT e procuram uma alternativa para se opor aos desmandos de Dilma. Na ausência de uma alternativa visível pela esquerda e diante da falta de iniciativas e erros dos setores combativos, muitos trabalhadores acham que o dia 16 pode ser uma alternativa. No entanto, alertamos que uma manifestação construída pelos grupos de direita do facebook e convocada pelo PSDB não pode gestar algo positivo, principalmente, porque está centrada apenas na saída de Dilma para que assuma o vice Michel Temer ou para que ocorram novas eleições e vença Aécio. Ou seja, mudar algo, para que os que sempre governaram mantenham tudo como está. Por outro lado, sabemos muito bem quem são os tucanos. Basta lembrar dos anos de FHC ou verificar os governos atuais de Beto Richa e Alckmin com suas privatizações ou repressão policial.

Não vamos ao dia 20 com os governistas!

O MTST junto com várias organizações governistas, comandadas pelo PT e PCdoB, estão convocando um protesto para o dia 20 de agosto. Essa manifestação, cujo eixo é “por direitos, liberdade e democracia”, possui um viés de defesa do governo Dilma em contraponto ao dia 16 dos tucanos. Tanto é assim que Rui Falcão, o site do PT e o blog de Zé Dirceu convocam o dia 20 para blindar Dilma e Lula diante da crise geral do país. Não é por outro motivo que a cúpula burocrática da CUT, CTB, UNE e MST estão convocando o dia 20, enquanto abandonaram os “dias de luta” de maio sem construir uma greve geral e nada fizeram para apoiar a greve das universidades. Boicotam as lutas para apoiar projetos patronais como o PPE. Ou seja, uma manifestação que pretende defender um governo odiado pela maioria dos trabalhadores, da juventude, das classes médias e do povo pobre brasileiro.

O Governo Dilma é de direita! É impossível disputar seus rumos!

A direção do MTST tenta reeditar a velha linha de disputa dos rumos do governo Dilma, “criticando suas políticas antipopulares”. Pelo importante peso adquirido por este movimento, a partir da justa luta por moradia digna na qual somos parceiros, temos que debater as estratégias que o MTST apresenta. A “disputa dos rumos do governo” é uma orientação conciliadora que foi utilizada pelo PT e PCdoB durante o primeiro mandato de Lula para tentar confundir o movimento de massas. Uma política que não deu certo, pois após 12 anos estamos diante de governos cada vez mais conservadores. Ao mesmo tempo contêm o erro de tratar o PT e o próprio governo Dilma como parte do campo da “esquerda” e não como um inimigo. Um inimigo que integra e defende o sistema capitalista. Por isso, a convocatória do dia 20 declara guerra apenas a Cunha sem citar “Dilma”, se limitando a dar conselhos ao Planalto. Um erro em desconexão com o sentimento das ruas. E para quem tem dúvidas sobre o governo Dilma, basta ver que as principais frações da burguesia estão nele: financeiro, industrial e agronegócio.

Após o descrédito dos governistas, em função do estelionato eleitoral, do ajuste fiscal e por seu envolvimento na corrupção, apenas setores da esquerda podem lançar mão desse velho discurso. Por isso, Lula propôs uma suposta “frente de esquerda contra a direita”, para que novos atores sociais, com influência em setores de massas, incorporassem essa linha funcional ao PT. Infelizmente Guilherme Boulos e a direção do MTST estão errados em sua estratégia, e por conta dela escolheram um lado diante da polarização política atual: em agosto estão ao lado de Lula e dos Lulistas.

Construir um terceiro campo!

A tarefa mais importante, em meio à crise geral do velho regime burguês, é construir um terceiro campo. Não podemos cair na polarização entre petistas e tucanos. A foto de Dilma com governadores, os discursos de Mercadante elogiando o PSDB comprovam que eles possuem acordos fundamentais. No entanto, setores da ala esquerda do PSOL cederam às pressões dos governistas e convocam o dia 20. Um equívoco, sobretudo, para MES e Insurgência, que lideram o campo “Manifesto ao PSOL”, aglutinando a esquerda socialista e democrática do PSOL. No caso do MÊS e da companheira Luciana Genro trata-se de uma contradição, pois falam de construir um terceiro campo, “um novo junho”, “colocar abaixo este regime político e suas instituições”, mas constroem a marcha dos governistas. Algo sem sentido. Esperamos que esses companheiros, com os quais temos inúmeras lutas e bandeiras em comum, reflitam e mudem para que possamos construir efetivamente um terceiro campo. Uma alternativa que necessita do peso político e social dessas duas organizações e de toda a esquerda Psolista. Precisamos construir/fortalecer lideranças e organismos políticos/sociais independentes, vocalizando os interesses dos setores explorados que estão nas ruas, nos piquetes, nas ocupações, com uma estratégia classista e uma orientação de oposição de esquerda ao governo Dilma. Construindo uma alternativa pela esquerda a falsa oposição tucana e outras variantes do próprio sistema. Isso é mais importante diante da crise terminal do governo Dilma. Uma tarefa que poderia ser encabeçado pelas organizações que integram o “Manifesto ao PSOL”.

Ao mesmo tempo concordamos com os encaminhamentos da última reunião do Espaço de Unidade e Ação, conformada pela CSP-CONLUTAS e outras organizações. No manifesto dessa plenária afirma-se que a falência do governo do PT é progressiva e que devemos lutar para que não seja capitalizado pelo PSDB, nem pelo PMDB. Além disso, coloca a necessidade de construir uma alternativa conectada com os interesses da classe trabalhadora. Por isso, chama a INTERSINDICAL, MTST, PSOL, PCB, PSTU, dentre outras organizações, a construir um polo alternativo.

Propomos as organizações que compõe o Espaço de Unidade e Ação, as correntes e parlamentares que compõe o campo “Manifesto ao PSOL” e a outras organizações políticas e sociais que defendam a necessidade de um “terceiro campo”, começar a concretizar essa tarefa no interior da greve das Universidades e dos Servidores Federais, batalhando por seu fortalecimento, tratando de unificar e massificar a greve.

FORA TODOS! Por uma assembleia constituinte livre e soberana!

É preciso explicar aos trabalhadores e setores populares que não se trata de tirar Dilma para que assuma Temer ou para que Aécio e o PSDB volte a governar. Todos eles estão juntos aplicando o mesmo plano de ajuste fiscal contra os trabalhadores e todo estão envolvidos nos esquemas corruptos da operação Lava Jato. Por isso, a esquerda não pode estar colada aos governistas, deve se afastar de Dilma e Lula. Deve estar nas ruas, junto aos grevistas, lutando para colocar todos eles para fora, apresentando um plano econômico alternativo combatendo o ajuste fiscal, a corrupção e lutando pelas pautas vigentes desde as jornadas de junho. Lutar pelo Fora Todos e propor uma Assembleia Nacional Constituinte Livre e Soberana para reorganizar o país sobre novas bases. E concordamos com Vladimir Safatle pois em tal Assembléia “poderiam se apresentar candidatos independentes, fora de partidos políticos, com controle estrito do poder econômico”. Na mobilização para essa Constituinte poderíamos debater a ordem política, econômica e social da republica e poderíamos reverter todas as medidas contrarias aos interesses dos trabalhadores e do povo.

07/08/2015
Corrente Socialista dos Trabalhadores - PSOL

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Greve - Servidores do Evandro Chagas fortalecem luta nacional


por Gerson Lima

Cerca de 100 servidores do Instituto Evandro Chagas paralisam suas atividades nesta quarta-feira, 05.  primeiro dia de greve.

Localizado em Ananindeua, Região Metropolitana de Belém (RMB), o Instituto Evandro Chagas (IEC), órgão de pesquisa e diagnóstico vinculado ao Ministério da Saúde e reconhecido internacionalmente por seu trabalho na área de endemias e doenças tropicais, amanheceu hoje com todas as atividades paralisadas, cumprindo decisão da última assembleia.

A radicalização é uma resposta à intransigência do governo federal, que oferece reajuste de apenas 21,3% parcelado em 4 anos, abaixo dos 27,3% exigido nacionalmente pelos servidores públicos federais.

Em nova assembleia realizada no final da manhã, os servidores aprovaram a manutenção da greve.

Além do reajuste, os servidores denunciam o forte assédio moral que impera no IEC, a redução do valor das insalumbridades e as péssimas condições de trabalho.

A greve é por tempo indeterminado e fortalece a luta do conjunto dos servidores públicos federais. Iniciativa fundamental para se reverter os cortes de verbas das áreas sociais e para se impor uma derrota ao plano criminoso de ajuste neoliberal de Dilma-Levy.
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Gerson Lima é membro da direção do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal no Pará (SINTSEP-PA) e membro da coordenação da Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST/PSOL)

Pela vida, diversão e arte

Fonte: facebook

terça-feira, 4 de agosto de 2015

SESPA contrata Pró-Saúde, que contrata SESPA

O pudor, o respeito à coisa pública, à probidade administrativa, são questões cada vez mais distantes do governo de Simão Jatene (PSDB).

Não é de hoje que a sanha privatista e os ataques aos serviços e servidores públicos marcam o tucanato. A saúde pública é prova do desprezo e malfeitos da administração estadual.

Há mais de dez anos foi adotado o nefasto modelo de Organizações Sociais (OS's) para gerir os hospitais regionais e o Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência (HMUE) no Pará. Os resultados não poderiam ser outros que não o abuso de altas somas de recursos públicos, serviços precarizados, trabalhadores altamente explorados e mal remunerados, bem como a ausência de concurso público.

CONTRATO

Não bastasse todas as denúncias e desconfianças suscitadas contra a política do governo Jatene, mais um atentado contra a saúde pública e contra a legislação vigente é preparada pela administração pública estadual.

Em um processo altamente questionável, o anexo do Ophir Loyola, que será destinado ao tratamento oncológico infantil, foi licitado.
Bingo! Não deu outra: a Pró-Saúde foi a OS contratada pela Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa) "para gerenciar o hospital em uuma condição no mínimo, sui gêneris", conforme texto-denúncia que circula pelos grupos de WathsApp.

A mensagem diz que "Contratada pelo estado, a Pró-Saúde, em contrapartida, contratará a Sespa para realizar as atividades de lavanderia, nutrição e esterilização, que não tem nada na unidade. Pode parecer uma piada, mas é a mais pura verdade.".

Espera-se dos Ministérios Públicos (estadual e federal), assim como dos usuários e entidades dos movimentos sociais, que se mobilizem e lutem contra esse claro abuso da saúde pública e contra os usuários do Sistema Único de Saúde.

Última atualização: 04/08, às 10h49

Servidores federais prestam solidariedade aos jornalistas de O Liberal e Amazônia Jornal


Servidores do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), há mais de dez dias em greve, estiveram prestando solidariedade aos empregados dos jornais O Liberal e Amazônia, de propriedade da família Maiorana, os quais realizaram protesto em frente da empresa.

Os funcionários das Organizações Rômulo Maiorana (ORM) paralisaram suas atividades nesta segunda-feira, 3, em decorrência de atrasos e/ou completa ausência de pagamentos de horas extras devidas aos trabalhadores. O movimento paredista não é de agora. O ano passado estivemos participando de manifestação idêntica. Os problemas só se agravaram e outros pontos foram inclusos na pauta de negociação protocolada pelo Sindicato dos Jornalistas do Pará (Sinjor-PA) junto a empresa.

Os servidores do INCRA leram uma moção de apoio à luta dos jornalistas, repudiaram os abusos cometidos pela família Maiorana e fizeram discursos. Com seus tradicionais coletes pretos, os servidores colocaram que a unidade dos Trabalhadores e solidariedade entre todas as categorias que lutam são essenciais para se impor melhorias nas condições de trabalho, para se conquistar melhores salários e se derrotar os ataques e ajustes de Dilma, Jatene, Zenaldo e patrões.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Urbanização e desterritorialização: aqui jaz a comunidade e o igarapé

O jornalista Lúcio Flávio Pinto publicava em janeiro de 2009 na coluna Memória do Cotidiano de seu Jornal Pessoal, uma foto da comunidade ribeirinha que vivia às margens do Igarapé das Almas. 

A foto é de 1967 e Lúcio chama atenção para as profundas mudanças que ocorreram na geografia da capital paraense. O Igarapé deu lugar a um valão, cujo o seu entorno é o metro quadrado mais caro de Belém. 

A população tradicional que ali vivia, foi expulsa para regiões periféricas. Processo de desterritorialização parecido com o que ocorreu recentemente com algumas famílias que viviam onde foi construída a orla de Belém, apelidada pela prefeitura de Duciomar Costa de Portal da Amazônia. 

Acompanhe o texto e veja a imagem, precioso registo do século XX:

O Igarapé e a avenida


Alguém acredita que apenas quatro décadas atrás esta era a cena dominante na Doca de Souza Franco, hoje um dos lugares mais - digamos assim - sofisticados de Belém, apesar do seu esgoto a céu aberto? A foto é de 1967, quando a prefeitura não tinha dinheiro para remanejar e realojar os tradicionais moradores do igarapé das Almas e o DNOS não podia prosseguir os trabalhos de saneamento da área. 
Depois, a verba apareceu, o serviço continuou e as famílias originais foram jogadas na periferia da cidade, conforme a característica urbanização.

Polícia do Rio mata 39% a mais e segue impune, diz Anistia

Relatório apontou aumento de 39% no número de homicídios decorrentes de intervenção policial no Rio
por Luis Kawaguti, para a BBC
Um relatório da Anistia Internacional constatou um aumento de 39% no número de homicídios decorrentes de intervenção policial no Estado do Rio de Janeiro entre os anos de 2013 e 2014. O documento também chamou a atenção para o elevado índice de impunidade de policiais que cometem assassinatos.
Segundo a organização, cerca de 80% dos 220 casos de homicídios cometidos por policiais em 2011 permaneciam em aberto até 2015 – e apenas um foi denunciado à Justiça pelo Ministério Público.
O Ministério Público do Rio de Janeiro afirmou à BBC Brasil que 813 policiais militares foram denunciados em 444 ações penais entre junho de 2013 e junho de 2015.
O órgão disse também que seu Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) fez 247 denúncias envolvendo 129 policiais civis e 458 policiais militares entre 2010 e 2015.
Contatada pela BBC Brasil, a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Violência policial

Em seu relatório "Você matou meu filho!" a Anistia Internacional estima que quase 8.500 pessoas foram mortas em decorrência de intervenções policiais no Rio entre os anos de 2005 e 2014.
Essas mortes incluem tanto casos em que os policiais mataram para se defender dos criminosos como ações em que maus policiais cometeram execuções extrajudiciais – ou seja, quando decidiram assassinar suspeitos deliberadamente.
As mortes chegaram a um auge em 2007 – quando 1.330 pessoas foram assassinadas por policiais. O número de vítimas começou então a cair ano a ano, até 2013, quando 416 pessoas morreram.
O índice voltou a subir no ano seguinte, 2014, quando o número total de assassinatos chegou a 580. A elevação ocorreu principalmente na Baixada Fluminense e no interior.
"Queremos promover um debate sobre isso e mostrar que, a um ano das Olimpíadas, o Rio ainda convive com essa realidade. Isso é incompatível com os valores olímpicos e agora temos uma oportunidade para implementar medidas concretas", disse Renata Neder, assessora de Direitos Humanos da Anistia Internacional.
"Em 2014, 15% das mortes tiveram o envolvimento de agentes do Estado. Isso é muito significativo, não pode ser ignorado."

Impunidade

Para tentar avaliar as medidas tomadas pelas autoridades para investigar essas mortes, a Anistia fez um estudo sobre os casos ocorridos em 2011 - por entender que quatro anos seriam suficientes para que os casos fossem esclarecidos.
Naquele ano, 283 pessoas morreram em 220 casos de mortes por intervenção policial (alguns casos tiveram mais de uma vítima). Desse total, 183 permaneciam em aberto em 2015.
"Choca porque são homicídios de autoria conhecida. Eles (policiais) se identificam como autores dos disparos. Deveria ser fácil de se investigar", disse Neder.
Segundo ela, a Anistia identificou os principais elementos que contribuem para que tantos casos permaneçam em aberto:
  • Maus policiais com frequência desfazem a cena do crime removendo o corpo da vítima (o trabalho de perícia no local do assassinato é essencial para a obtenção de provas);
  • Policiais que cometem assassinatos ilegais por vezes tentam fraudar a cena do crime – por exemplo, deixando armas junto a corpos de suspeitos que estavam desarmados;
  • Nem sempre a Polícia Civil envia peritos ao local do crime;
  • As mortes decorrentes de intervenção policial não são investigadas pela delegacia especializada em homicídios, o que, para a Anistia, "mostra predisposição a não investigar";
  • O Ministério Público falha por supostamente não exercer sua atribuição de controle externo da polícia – afirmação que é contestada pela órgão;
  • Faltaria um mecanismo para proteção de testemunhas, que deixam de dar depoimento à Justiça com medo de serem assassinadas.

Segundo a Anistia, números de mortes por intervenção policial escondem casos nos quais as vítimas foram mortas quando já estavam subjugadas
Segundo a Anistia, os números de mortes por intervenção policial escondem muitos casos nos quais as vítimas não morreram em confrontos com a polícia, mas foram sim executadas quando já estavam subjugadas.
A organização realizou um trabalho qualitativo na favela de Acari analisando dez casos de mortes com o envolvimento de policiais. Em pelo menos quatro delas, a Anistia Internacional disse ter encontrado evidências de execuções extrajudiciais.
"A não investigação e consequente impunidade dos assassinatos cometidos por policiais contribui para o ciclo de violência e recorrência de homicídios. É como dar carta branca para eles continuarem a agir de forma ilegal", disse Neder.

Dor e ameaças

"O meu maior medo é que a coisa toda vá para o arquivo. O que eu quero é que os homens que mataram meu filho sejam punidos com rigor!"
A afirmação é de Maria de Fátima Silva, mãe do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, conhecido como DG. Ele foi assassinado em uma ação de policias na favela Pavão-Pavãozinho em abril de 2014.
O caso teve repercussão nacional, pois DG era um dançarino de um programa de auditório da TV Globo, mas segue sem conclusão.
Silva afirmou à BBC Brasil que além do fato de ninguém ter sido condenado pela morte de seu filho, ela teria passado a receber ameaças.
"Na época do enterro do meu filho os amigos criaram uma página no YouTube para publicar imagens do enterro. No mesmo dia algumas pessoas entraram na página dizendo: cala a boca, você vai morrer."
Segundo ela, as ameaças continuam e não há esperança de que moradores da favela onde seu filho foi morto, incluindo possíveis testemunhas, se apresentem para prestar depoimento à Justiça.
ONG internacional diz que, a um ano dos Jogos do Rio 2016, cenário é incompatível com valores olímpicos
"Como a comunidade vai depor se toda a guarnição (de policiais suspeitos de envolvimento no crime) ainda está lá?"
Segundo ela, a Anistia Internacional vem acompanhando o caso desde o início. "Hoje esse apoio me dá coragem de gritar. Se eu tiver que morrer, vou morrer como guerreira. Troquei o luto pela luta", disse ela.

'Acusações vazias'

O Ministério Público afirmou antes da divulgação oficial do relatório que não teve acesso a ele. O órgão disse que as acusações à Promotoria são "vazias e genéricas" e "em nada colaboram para a solução do problema".
"O MP, ao oferecer denúncia ao Judiciário e colocar quem quer que seja na posição de réu, só deve fazê-lo de forma responsável, sob pena não só de desrespeito às garantias individuais, mas também de desprestígio à imprescindível função pública dos policiais", disse o órgão em nota.
"O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro realiza um trabalho hercúleo e, muitas vezes, solitário, na tentativa de responsabilizar os agentes públicos que vão além dos limites estabelecidos pela lei."
A Promotoria também apontou uma suposta fragilidade no trabalho policial. Afirmou que uma "investigação defeituosa resulta, por vezes, em impunidade, seja pelo arquivamento do inquérito por falta de indícios ou no oferecimento de uma denúncia frágil" que pode resultar em absolvição.
"Com o intuito de aperfeiçoar o exercício do controle externo da atividade policial e combater os excessos no uso da força, o Ministério Público está tomando medidas para dimensionar o problema das chamadas mortes em decorrência da intervenção policial, criando um banco de dados que permita a correta análise e compreensão do problema, o que só pode ocorrer longe de atitudes populistas e irresponsáveis."
A Secretaria de Segurança Pública do Rio disse à BBC Brasil que não teve acesso ao relatório até a última sexta-feira e não se manifestou até o fechamento desta reportagem.