domingo, 5 de abril de 2015

Os trabalhadores em educação do estado do Pará estão em greve

Foto: Sintepp (Divulgação)
por Silvia Letícia

Os trabalhadores em educação do Pará estão em greve desde o dia 25/03. É uma greve pelo pagamento do reajuste do Piso Salarial, melhorias de condições de trabalho nas escolas e valorização profissional.

Mas, não somente isso. É uma greve que enfrenta de forma espetacular, com o engajamento e adesão de mais de 90% da categoria em todo o estado, o ajuste fiscal de Dilma (PT/PMDB) e do governador Jatene (PSDB) de retirada de direitos, redução de salários e péssimas condições de nossas escolas. É uma greve para defender a educação pública, com infraestrutura adequada para nossos alunos, sem violência, por eleições democráticas para direção como mecanismo de combater o assédio moral patrocinado pela Secretária de Educação (SEDUC).

O ajuste fiscal de Dilma e Jatene no Pará

O governo Dilma cortou R$ 7 bilhões de reais do orçamento da educação. O governador Jatene, além de não pagar o valor do piso, ainda limitou em 150 horas nossa carga horária no estado.

Para muitos professores que trabalhavam de 200 a 280h em regência há cerca de 20 anos e recebiam em seus vencimentos essa jornada, está presenciando, de forma abrupta uma redução salarial de aproximadamente R$ 2 mil reais. Um completo absurdo!

Não somos contra a redução da jornada de trabalho, ao contrário sempre lutamos por uma jornada menor, com a garantia de tempo de planejamento e estudos para professores e especialistas em educação, o que não podemos aceitar é redução salarial ainda mais quando nossas perdas assim como a do conjunto do funcionalismo estadual já ultrapassam 80%.

Se o governador Jatene quer evitar a extrapolação de aulas, então que faça concurso público, que, aliás, tem sido pauta de nossas campanhas salariais nos últimos 10 anos, para contratar para o quadro permanente novos educadores.

É inaceitável que com o limitador de 150h/aulas e a perda de turmas, nossos alunos fiquem sem professores em sala de aula e que para resolver essa ausência, em vez do concurso, o governo tenha a intenção de contratar temporários.

Não aceitaremos que a educação vire moeda de troca de voto nas eleições, que nossa categoria seja tratada como curral eleitoral, nem que em momentos de luta e mobilização como estamos vivendo agora, por não terem estabilidade funcional, educador seja colocado contra educador, porque o governo sempre ameaça de demissão em momentos de luta os temporários.

Essa é a experiência que temos vivido em vários municípios por todo o país. Essa é a experiência que temos vivido nos municípios do Pará.

A greve é forte em todas as regiões

Os dados que nos chegam das diretorias regionais do Sindicato (SINTEPP) é que na região sudeste, onde a sub-sede Marabá cumpre papel destacado, o mesmo ocorrendo com os municípios de Santarém (Regional Oeste) Altamira (Regional Xingu) é que a greve se fortalece a cada dia.
Na região metropolitana (Belém-Ananindeua-Marituba) a adesão é de mais de 95% da categoria o que tem contagiado os trabalhadores desses municípios que enfrentam a mesma política nas mãos dos prefeitos do PSDB/PMDB.

Assim como na última greve que durou 53 dias, estamos contando com o apoio massivo de pais e alunos que entendem que a defesa de uma educação pública de qualidade é uma tarefa de todos (as). 

Greve geral da educação pública!

Por conta do corte no orçamento da educação, governadores e prefeitos de todos os estados que já pagam o Piso tem alegado não terem dinheiro para pagar o reajuste, a mesma desculpa está sendo dada por governadores e prefeitos que ainda não pagam. Por isso a educação se mobiliza e sai à luta em nível nacional.

Além dos educadores do Pará, também estão em greve os trabalhadores da educação dos Estados de São Paulo, Santa Catarina, Roraima e existem sinalizações de que podem parar suas atividades, educadores dos estados do Acre, Mato Grosso e Pernambuco.

A Direção da CNTE, em vez de convocar mobilizações de apoio ao governo Dilma, maior responsável ao lado de governadores e prefeitos pelo caos na educação pública, como fez no último dia 13/03, deveria unificar a luta de nossa categoria em nível nacional e convocar uma greve geral por tempo indeterminado exigindo que estados e municípios cumpram a Lei do Piso, reajustem salários, melhorem as condições de trabalho e valorizem nossa categoria e que o governo Dilma destine 10% do PIB para educação pública Já.

É possível derrotar o ajuste do governo. A vitoriosa greve dos educadores do Paraná foi uma demonstração, que se a luta ocorre se pode vencer.
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Silvia Letícia, faz doutourado em educação na Universidade Federal do Pará e é professora da rede municipal e estadual. Faz parte da direção do SINTEPP e da Direção Nacional da CST/PSOL.

Fonte: http://cstpsol.com/viewnoticia.asp?ID=693

quinta-feira, 12 de março de 2015

PMs são anistiados por fazerem luta no Pará

Após organizarem lutas e ocupações do 2º e 28º batalhões de policiamentos militares do Pará (motim, segundo a Corporação), dezenas de praças (soldados, cabos e sargentos) da Polícia Militar do Pará passaram a ser perseguidos pelos comandos da PM, assim como pela cúpula de segurança pública do governo Simão Jatene (PSDB-PSC-PROS).

Vários policiais foram sumariamente desligados ou alguns continuam sendo perseguidos, através de abertura de processo disciplinar militar ou conselhos de justificação. Após as mobilizações no interior dos batalhões, seguiu-se no interior da PMEPA um vergonhoso processo de caça às bruxas. Velha tática de retaliação das lideranças, afim de tentar amedrontar os batalhões, os quais estão sempre a ponto de explodirem, devido baixos salários, péssimas condições de trabalho, maus tratos e constantes assédios morais.

Assim, o deputado federal Edmilson Rodrigues (PSOL/PA), entrou com uma requerimento na Câmara dos Deputados, em que solicitava Anistia dos policiais militares perseguidos pelo governo estadual e pela cúpula da corporação. Na manhã desta quinta-feira, 12, a Comissão de Segurança Pública da Câmara, aprovou o Projeto de Lei que anistia os policiais militares do Pará envolvidos nos movimentos reivindicatórios do ano passado.

Está claro que só a luta muda e melhora a vida para melhor. Essa conquista é das praças do Pará. Essa conquista é da luta por dignidade pelo fim dos maus tratos em quaisquer lugar. Seja no serviço público ou na iniciativa privada.
Baseado em pesquisa que demonstra que 75% dos militares já estão a favor da desmilitarização das PMs, é necessário aproveitar essa vitória e aprovar pela aprovação da PEC 51 que reestrutura as polícias do país, passo essencial para que os trabalhadores da segurança pública vivam com dignidade, assim como para se combater os maus policiais, principalmente aqueles envolvidos em milícias.

Principalmente porque, segundo o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias e Grupos de Extermínio da Assembleia Legislativa do Pará (ALEPA), "a cultura organizacional da Polícia Militar favorece a conformação de grupos milicianos", portanto, a desmilitarização faz-se urgente, como mais do que nunca, necessária.

O que há é disposição para a luta

por Júlio Araújo Miragaia

Generalizar e tratar todos os que vaiaram Dilma no domingo como elitistas é extremamente equivocado. Da mesma forma como dizer que a greve dos caminhoneiros era feita pelo empresariado. Generalizar, aliás, tem sido a especialidade do governismo para, numa tentativa desesperada, blindar Dilma e seu débil segundo mandato. A verdade é que começa uma situação de instabilidade no país e o governo do PT e seus braços nos movimentos sociais não tem controle sobre a situação (ainda bem!).

Algumas matérias mostram claramente que a bronca da população com o governo não foi apenas nos bairros mais nobres dos centros urbanos. O que ocorre de fato é que uma grande parcela da classe média está consciente das consequências do ajuste fiscal de Dilma-Levy que virá para a maioria da população: inflação, ataques a direitos trabalhistas, previdenciários, reajuste de tarifas e todo um pacote de maldades sobre os trabalhadores.

A verdadeira burguesia (banqueiros, latifundiários, empreiteiros e derivados) são os que mais ganham com o atual governo. É um governo que chamam de seu. Já é lugar comum que Dilma está governando com a agenda econômica de dar inveja em Aécio Neves e no PSDB.

Nas manifestações de junho de 2013 o governo também tratou de generalizar os que iam as ruas como de direita, fascistas e tantos outros “istas” que pudessem proteger Dilma e os governantes da primeira onda de rejeição.

A lista dos envolvidos na Operação Lava-jato desnudou as promíscuas relações do senado e câmara com empresários e levantou o que estava encoberto no pós-eleição: o descrédito da população com os principais partidos do regime (PT,PMDB, PP, DEM, PSDB e cia.). Todos com algum grau de envolvimento com a farra de propinas.

Os primeiros meses de 2015 tiveram várias greves e lutas salariais importantes e que continuam em curso, como a radicalizada rebelião no Paraná e categorias como rodoviários, metalúrgicos ou professores. Todos esses setores da classe enfrentam também de forma direta ou indireta o ajuste fiscal do governo.

Qualquer declaração machista, como os insultos de” vaca” ou “vagabunda” que sofreu Dilma durante seu pronunciamento no domingo, devem ser veementemente condenados, mas também não podem ser usados para escamotear o verdadeiro debate e problemas que nos deparamos.

A conjuntura está virando com uma velocidade cada vez maior. Independente dos resultados em números de pessoas nos atos, dos dias 13 e 15, ambos acabam por desgastar de alguma forma o governo. Não em razão de suas direções: uma governista e outra um setor da oposição de direita.

Sobretudo porque há uma disposição de ir à rua para questionar o regime, lutar por salário, derrotar a corrupção, reduzir as tarifas e tantas outras pautas. O que se enxerga no horizonte é que as pautas das duas manifestações e suas direções que não representam uma alternativa a atual situação tendem a ser atropeladas nos próximos dias. Junho volta a pulsar, expurgar e rejeitar o velho.

Há de se construir para já um novo dia de lutas que paute a derrota do ajuste fiscal, punição aos corruptos e também derrotar a falsa polarização dos políticos da ordem (PT-PSDB) que há mais de 20 anos governam o país a serviço dos de cima. A esquerda não-governista e suas direções precisa estar alinhada a esse processo e ser parte dele. Caso contrário, a tendência é ser atropelada também.

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Júlio Araújo Miragaia é escritor, poeta e jornalista. Edita o blog Rubra Pauta e lançou em 2014 seu livro de estréia: O estrangeiro de pedras e ventos. 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Escândalo HSBC - O Brasil precisa apurar!

Pronunciamento na Câmara, do deputado federal Ivan Valente (PSOL/SP), dia 25/02, sobre o silêncio da mídia e das autoridades brasileira acerca do chamado caso "SwissLeaksHSBC".


por Ivan Valente
 
Desde meados de fevereiro tem circulado na imprensa mundial o vazamento de uma vasta documentação revelando que a filial do HSBC na Suíça foi cúmplice de uma série de crimes financeiros. As informações foram vazadas por Hervé Falciani, ex funcionário do próprio banco, que acusou o HSBC de criar um sistema de auto enriquecimento através da evasão de divisas e lavagem de dinheiro, tudo à custa da sociedade. Os dados estão de posse do Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo - ICIJ (International Consortium of Investigative Journalism). A operação foi batizada de “Swissleaks”.

Trata-se do maior vazamento de dados bancários da história, algo em torno de US$ 120 bilhões – o equivalente a 340 bilhões de reais na taxa atual de câmbio, correspondendo ao período de 2005 a 2007, envolvendo 106 mil clientes de 203 países, que tinham depositado nas contas secretas do HSBC suíço.

Mas a prática criminosa do HSBC parece não estar restrita a sua filial suíça. Segundo o jornal britânico “The Guardian”, o próprio presidente-executivo do HSBC, Stuart Gulliver, que veio recentemente a público prometer “reformar o banco”, escondeu milhões de libras em uma conta na Suíça por meio de uma empresa no Panamá. Ou seja, uma farra financeira que envolve, além dos clientes de má procedência, os próprios executivos do HSBC. Pratica esta que certamente tem contribuídos para engordar os lucros do bancos, que em 2014 foram em torno de 13 bilhões de libras.

O Brasil é o quarto país em número de clientes que constam nos documentos vazados pela ICIJ, com 8.667 potenciais sonegadores, que somam um montante de aproximadamente 8 bilhões de dólares - quase 20 bilhões de reais. Os nomes dos brasileiros ainda não foram amplamente divulgados. Apenas o jornalista do UOL, um dos brasileiros vinculados ao ICJI, recebeu a lista, que teria sido encaminhada à Receita Federal para averiguação.

Fernando Rodrigues divulgou apenas 11 pessoas da lista de brasileiros até agora, segundo ele ligadas ou citadas de alguma forma no escândalo da Operação Lava. Entre os nomes divulgados por Rodrigues estão o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, delator na Operação Lava Jato e que já havia revelado ter mantido valores no HSBC, oito integrantes da família Queiroz Galvão, o empresário Júlio Faerman (ex-representante da holandesa SBM) e o doleiro Henrique Raul Srour.

Outros nomes como o de Robson Tuma fariam parte da lista - segundo o jornalista Luis Nassif o endereço do ex-deputado ((Avenida Cauaxi 189, ap 203, Alphaville, Barueri) aparece na lista do HSBC. Ou do banqueiro Edmond Safra, do Banco Safra, e a família Steinbruch, dono da Vicunha e da CSN, segundo o jornalista Miguel do Rosário. “O Banco Safra foi o banco usado pela Globo para comprar os dólares que enviaria às Ilhas Virgens Britânicas, quando se envolveu naquela “engenhosa operação” para adquirir os direitos de transmissão da Copa de 2002 sem pagar os devidos impostos”, afirma o jornalista.

Mas apesar da grande dimensão do escândalo, e do fato do Brasil ocupar o quarto lugar na lista de potenciais sonegadores, há hoje em nosso país um silêncio sepulcral da grande mídia sobre o assunto, assim como dos líderes da oposição de direita e do próprio governo. Talvez porque muitos dos seus façam parte da lista, além do fato óbvio de que não há por parte destes segmentos muita disposição em enfrentar os ricos e poderosos, suspeitos de estarem envolvidos até o pescoço no maior escândalo financeiro que se tem conhecimento.

Até agora, só o que temos de concreto são declarações de intenções dos órgãos do governo brasileiro de que os documentos serão analisados, mas numa morosidade que beira a paralisia. A Receita Federal, por exemplo, divulgou uma nota de esclarecimento, afirmando que estava investigando o caso, apenas três meses após ter recebido a lista das mãos do jornalista Fernando Rodrigues, da UOL - único jornalista brasileiro membro da ICIJ que recebeu os dados do vazamento.

A sociedade brasileira precisa pressionar o governo e o parlamento para que a apuração deste escândalo se dê de forma imediata, com a divulgação pública dos nomes comprovadamente envolvidos nos crimes financeiros de sonegação e evasão fiscal. Da mesma forma, a mídia deve colocar em prática seu discurso em defesa do direito à informação, com a divulgação do fato e da lista de brasileiros com contas secretas na suíça. Uma informação que, aliás, já deveria ter sido solicitada oficialmente pelo governo Brasileiro, por envolver questões de interesse nacional.

É um absurdo que os partidos da base do governo e da oposição de direita, com o evidente apoio da grande mídia, falem em “ajustar as contas públicas” por meio de corte de gastos sociais e redução de direitos trabalhistas enquanto os mais ricos que sonegam impostos e guardam suas fortunas em paraísos fiscais permanecem impunes.

A economia de R$ 18 bilhões anunciado pelo Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, por meio da restrição de direitos como o seguro desemprego, seguro defeso, pensão pós-morte e auxílio doença, representa menos do que o montante de 20 bilhões de reais guardadas por brasileiros nas contas secretas do HSBC suíço. Isso num quadro em que o governo e seu ministro da fazendo não tem qualquer disposição para adotar medidas redistributivas fundamentais, como é o caso da Reforma Tributária de caráter progressivo e a taxação das grandes fortunas.

Em contra partida, nos últimos dois anos, o governo federal deixou de receber, a título de renúncia fiscal, R$ 200 bilhões de reais devido às isenções concedidas ao setor empresarial, que foram beneficiados pela redução de alíquotas, isenção de IPI e desonerações.

Exigimos a apuração imediata do escândalo do HSBC, com a adoção de todas as medidas legais cabíveis para garantir a punição dos sonegadores e o ressarcimento dos recursos aos cofres públicos.

Muito obrigado.

'Isso é uma piada', diz professor da USP sobre silêncio da Globo no caso HSBC

Em entrevista à Rádio Brasil Atual, Vladimir Safatle afirma que ao guardar nomes de brasileiros com contas em Genebra a grande imprensa transforma o jornalismo "em uma grande brincadeira"
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Safatle: “É inaceitável o tipo de silêncio tácito que está ocorrendo, salvo raríssimas exceções muito pontuais". Foto: Marcos Santos/USP Imagens

São Paulo – O HSBC é um exemplo privilegiado de como corporações que estão no limite da criminalidade impõem na economia internacional seus interesses. O professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Vladimir Safatle indica a instituição financeira como exemplo de promiscuidade entre mercado financeiro, política e mídia, com raízes no crime, em entrevista à Rádio Brasil Atual [dia] 20/02. 
“Desde sua criação, o banco tem as piores credenciais possíveis. Essa instituição bancária foi criada em 1860, depois da última guerra do Ópio entre Inglaterra e China, quando os ingleses forçaram a abertura dos portos chineses para que o tráfico da droga continuasse”, relata.

“Os chineses resolveram impedir o comércio de ópio porque a população já estava entrando em um processo de ser dizimada pela droga. Então, o banco foi criado exatamente para financiar o tráfico de drogas, entre outras coisas. E ele cresceu, a partir dos anos 70, comprando bancos dos Estados Unidos e da Europa, muitos dos quais tinham carteiras extremamente problemáticas", diz Safatle. "Foi o caso do banco do finado Edmond Safra, que tinha entre seus clientes traficantes de diamantes e negócios com a máfia russa. O Safra foi assassinado em uma situação, no mínimo, bastante misteriosa. Seu banco iria ser comprado pelo American Express e o negócio foi desfeito por causa de problemas internos."

Esse foi o processo de crescimento do banco, segundo o professor. "Comprou o Bamerindus aqui, um banco que estava com problemas enormes. E não só isso, quer dizer, ele é reincidente, faz anos que o banco tem sido julgado por várias instâncias mundiais, exatamente por esses seus negócios com tráfico, negócios ilícitos. Foi declarado culpado nos Estados Unidos por um caso que envolvia tráfico com colombianos e mexicanos. Só que pagou uma mixaria de um milhão e novecentos mil dólares de multa.”

O que ocorre com o HSBC não é novo, é uma prática comum, para Safatle: “E não é para estigmatizar o banco, mas para esclarecer o que é o sistema financeiro internacional. São corporações que estão acima dos governos. Não só não se quebra como não se regulamenta um banco como o HSBC, porque ele está tão acima dos governos que o seu diretor à época desses chamados Swiss Leaks era pastor anglicano e hoje é ministro do David Cameron, no governo britânico."

O professor ressalta que se percebe uma relação incestuosa entre o sistema financeiro e a classe política. "É o diretor do banco que vira ministro de um gabinete da Inglaterra, que, com certeza, não vai desenvolver políticas que sejam estranhas ou contra os interesses do sistema financeiro que ele representa muito bem. A imprensa começou a questionar o ministro e ele não dá resposta alguma, porque ele sabe que está numa situação de ser completamente intocado, não há nada que possa acontecer com essas pessoas", lamenta.
Para o filósofo, todo mundo fica completamente exacerbado por problemas como tráfico de drogas, de armas, guerras. "Se não existissem esses bancos, que têm como uma suas finalidades lavar esse dinheiro, com certeza o problema não seria dessa magnitude em hipótese alguma. Só há crime nessa magnitude porque há um sistema financeiro que é completamente conivente, cresceu dentro desse meio.”

Ele destaca que não é só a tráfico de drogas que o HSBC está ligado, mas que há também fraudes de evasão fiscal, no momento em que a economia mundial e os estados estão em crise, tentando segurar o que restou de bem-estar social. “Os países da União Europeia socorreram bancos falidos. Então, quando os bancos cometem crimes, o que se espera é que os responsáveis sejam punidos, presos, mas não é isso o que ocorre”, observa.

Safatle lamenta que a imprensa brasileira não noticie os fatos, ao contrário da europeia. “É inaceitável o tipo de silêncio tácito que está ocorrendo, salvo raríssimas exceções muito pontuais. Na imprensa francesa ou britânica, mesmo nos Estados Unidos, foi dito que vão utilizar esses dados para tentar reaver o dinheiro." Nesses casos, a imprensa apresentou os nomes: "O Le Monde, que mobilizou um pouco tudo isso, chegou a brigar com seus acionistas porque um deles fez uma declaração dizendo que achava um absurdo que o jornal expusesse esses nomes. Ou seja, a imprensa fez o seu papel. No caso brasileiro é inacreditável".

O Brasil é, a princípio, o nono país em número de contas nessa filial genebrina do HSBC. São 8.667 contas, das quais 55% são contas de nacionais, ou seja, são mais de 4 mil pessoas. "A pergunta que eu gostaria de fazer é quem são essas pessoas. O sujeito não abre uma conta em um banco suíço com esse histórico à toa. Quem são as pessoas que fizeram evasão fiscal, fraude fiscal e coisas dessa natureza?”, questiona.

Alguns nomes de brasileiros que possuem contas no HSBC com depósitos sem origem comprovada na agência em Genebra foram conhecidos por intermédio de sites angolanos. “Aí apareceu o nome do rei do ônibus do Rio de Janeiro, o nome da família Steinbruch, que é do grupo Vicunha. Essas pessoas cometeram crimes, quais foram os crimes? É muito estranho que não só a imprensa, mas, ao que parece, a própria Receita Federal adiou a análise de coisas desse tipo."

Para Safatle, isso demonstra um dado muito evidente: "A elite rentista brasileira é completamente blindada, sabe que é e tem uma relação incestuosa entre poder político e estrutura de comunicação, que faz com que em última instância seja um grupo só, de uma forma ou de outra, que sabe que pode fazer o que quiser, porque sabe que não existe nenhuma possibilidade de a Justiça pegar, a não ser existam embates internos, em brigas internas, aí sim vão pegar um ou outro".

O professor da USP se pergunta como ampliar essa discussão oculta na imprensa tradicional. “Os nomes que vazam dessa lista de brasileiros com contas no HSBC em Genebra são de envolvidos na Operação Lava Jato, da Polícia Federal. Quer dizer, os nomes são divulgados dependendo do interesse do meio de comunicação. Só são esses os nomes dos 4 mil correntistas, só são esses dez ou 15 que tiveram problemas? Isso é uma brincadeira.”

A extrema gravidade da história exige que se faça algo. “Se tem algo que destrói a moralidade é a parcialidade, é você começar a perceber que há um uso estratégico do discurso sobre a moralidade, porque é um uso que serve simplesmente para você voltar suas atividades contra seus inimigos. Nesse momento, a moralidade perde completamente seu valor. Eu diria que na política brasileira isso acontece a torto e a direito, é um traço característico da política brasileira."

Safatle lembra: "A moralidade exige a simetria completa dos julgamentos. É julgar todos da mesma forma, independente do que vá acontecer. Isso falta dentro da política brasileira. É por isso que não se consegue fazer com que essas indignações se transformem em saltos qualitativos da política. E aí vira simplesmente um jogo em que se tenta colocar um ou outro contra a parede.”

Safatle identifica que há um processo de desgaste constante do governo pela mídia e, por isso, os nomes envolvidos em negócios ilícitos no HSBC são seletivos. “Se a gente quisesse mesmo fazer uma limpeza geral no que diz respeito ao caso Petrobras, por exemplo, todos denunciantes falaram: 'Olha, desde 1997 eu recebo propina'. Ou seja, tem um dado estrutural, não existe um caso de governo ou de partido, é um caso de estrutura, em que vai todo mundo. E nessa situação o mínimo que se espera é que se mostre claramente a extensão do processo e a necessidade geral de punição. Mas isso nunca ocorre, isso desgasta toda a força da indignação moral”, lamenta. “Todo mundo que conhece um pouco da sociedade brasileira sabe que lá você vai encontrar alguns dos nossos empresários mais conhecidos, alguns dos políticos mais conhecidos.”

Quanto ao silêncio que a Rede Globo dedica ao caso do HSBC, Safatle comenta: "Isso é uma piada, é completamente inacreditável. Eu gostaria que eles explicassem muito claramente qual é a noção deles de notícia, porque é surreal. Você pode pegar as páginas do The Guardian, jornal britânico, ou do francês Le Monde, e a televisão de maior audiência não dá nada? O que é isso? Eles transformam o jornalismo em uma grande brincadeira".

Para a secretária-geral do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, Ivone Maria da Silva, é uma "vergonha" que esse caso só apareça em alguns sites e blogs e seja ignorado pelos grandes meios de comunicação, que não têm interesse em divulgar os nomes de brasileiros que estão nessa lista com depósitos sem origem comprovada no HSBC em Genebra. “Um dos clientes que já apareceu na lista foi o Clarín, da Argentina. Não vamos ficar surpresos se os meios de comunicação aqui do Brasil também aparecerem na lista, ou se os donos desses meios estiverem guardando dinheiro lá fora para não pagar impostos. Talvez por isso essa lista não seja divulgada. Começaram a soltar os nomes seletivamente, e por isso surgem os nomes relacionados com a Lava Jato. Mas tinha que soltar o nome de todo mundo”, diz.

Confira a íntegra da matéria:

https://soundcloud.com/redebrasilatual/midia-silencia-sobre-atos-ilicitos-do-hsbc-e-milionarios-brasileiros

(Rede Brasil Atual)

Educação: ministro de Dilma é recebido com protestos na UFPA

O Ministro da Educação, Cid Gomes (PROS), esteve em Belém na última sexta, 27/02, para uma visita agendada à UFPA. Foi recebido por um protesto organizado pelo movimento estudantil (ME). 
Estudantes protestam na UFPA contra cortes de verbas da Educação de Dilma e Cid Gomes
por Fábio Moroni e Gabriel Antunes

Com cartazes e palavras-de-ordem denunciando o absurdo corte de 7 bilhões aplicado pelo Governo Dilma no orçamento para a educação foram a principal consigna do protesto. A princípio, o ministro hesitou em falar com os estudantes, porém o descontentamento e pressão deles o pressionou a querer “dialogar” com os manifestantes. 

Reafirmando e defendendo a política educacional do Governo Dilma, Cid Gomes reivindicou as transferências de recursos públicos para as universidades privadas através de programas como o PROUNI e FIES, que garantem isenções fiscais aos empresários, maquiam a crise existente no ensino privado e que enriquecem os “tubarões do ensino”, endividando cada vez mais as famílias em todo o Brasil. 

ENROLAÇÃO

Mesmo com toda as suas tentativas de esquivar-se das interrogações do movimento, o ministro não conseguiu esconder o aumento do contingenciamento de recursos públicos nas áreas sociais como saúde e educação, tudo para ampliar o superávit primário e o pagamento da dívida pública aos banqueiros e ao sistema financeiro mundial. O ministro enrolou e tremeu nas bases diante de estudantes e técnicos da UFPA. Ele assumiu que a equipe econômica de Dilma está comprometida com o ajuste fiscal. 

Chegou ao absurdo de afirmar que "as universidades não devem se preocupar com creches" e que ela não são uma prioridade. O que vai na contramão da históricas reivindicações por assistência estudantil. Entendemos que as trabalhadoras e mães universitárias necessitam muito dessa importante assistência para evitar o abandono da universidade e do trabalho.

Cinismo e desrespeito: as faces de Gomes

O coletivo Vamos à Luta e a militância da Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST-PSOL) estiveram presentes, denunciando de forma intransigente os ataques do Governo Dilma (PT-PMDB-PCdoB) e seus ministros conservadores. Ainda no encontro, o ministro da educação chegou a reeditar a sua famosa pérola de que “professores devem trabalhar por amor”, afirmando dessa vez que os professores devem “trabalhar por amor e não para enriquecer”.

Uma completa cara de pau, quando quem enriquece são os empresários da educação com os sucessivos anos de incentivo fiscal e repasses de recursos públicos à iniciativa privada, ampliados pelo governo petista! 

Em determinada altura, quando o ministro relatou que "pediriam a minha cabeça, acaso não aplicasse o ajuste", o ME disparou: "Então quem vai querer a tua cabeça somos nós!". 

Cid Gomes é a mesma figura que questionou a Lei do Piso Salarial Nacional dos professores com ações na justiça, quando governador do Ceará (2011-2014), demonstrando seu completo descompromisso com os trabalhadores e a educação pública. Com tamanha enrolação, os estudantes deram as costas à ladainha e se retiraram do encontro cantando: "É ou não é piada de salão? Tem dinheiro pra banqueiro, mas não tem pra educação!".

Organizar as lutas e unificar as mobilizações dos estudantes

Em 2015, está mais do que claro que o maior inimigo da educação brasileira é esse governo, depois do imenso estelionato eleitoral, o que se atesta são violentos pacotes de ajustes e tarifaços, aplicados de norte a sul, por meio de aumentos nos combustíveis, na energia elétrica e a redução dos recursos repassados para os serviços públicos.

A juventude e o conjunto dos estudantes devem organizar suas pautas e enfrentar essas políticas com toda força! Só a luta intransigente da base do ME, Centros Acadêmicos (CA's) e Diretórios Centrais dos Estudantes's (DCE's) contra a política de ajustes do Governo Dilma, irá trazer conquistas e melhorias em nossos Restaurantes Universitários, na assistência estudantil, na estrutura das universidades, nas bolsas, assim como mais investimentos para a educação pública.

É preciso que o movimento estudantil siga unitariamente o exemplo de luta dos radicalizados trabalhadores. Eis os importantes exemplos de mobilização dos caminhoneiros, que paralisaram as vias do Brasil; dos metalúrgicos da Volks em São Paulo, que derrotaram as burocracias sindicais e arrancaram vitórias contra a patronal, ou dos professores do Paraná, que massivamente enfrentam nas ruas os ajustes do governador Beto Richa (PSDB). 

Não há outra saída que não seja a luta!


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*Fábio Moroni e Gabriel Antunes, são estudantes de Geografia e Teatro, respectivamente, da UFPA, e membros do coletivo Vamos à Luta e da CST-PSOL. 

Marinor vai denunciar Zenaldo ao MP

Vereadora considera “acinte” contratação de mais de 100 assessores para gabinete do prefeito de Belém. Zenaldo tem mais assessores do que prefeito de São Paulo, a 7ª cidade mais populosa do planeta, mostrou, com exclusividade, A Perereca da Vizinha. Fato provoca protestos nas redes sociais.

Marinor Brito: denúncia contra Zenaldo no MP por "farra com dinheiro público"
Por Ana Célia Pinheiro

A vereadora Marinor Brito (PSOL) vai denunciar o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, ao Ministério Público Estadual. Motivo: a enorme quantidade de assessores de Zenaldo, que supera a do prefeito de São Paulo, a maior cidade do País e a sétima mais populosa do mundo.

O fato foi revelado em reportagem exclusiva da Perereca da Vizinha, na última sexta-feira, e gerou protestos e centenas de compartilhamentos nas redes sociais. 

Até o início da madrugada de hoje, mais de 19 mil pessoas já haviam lido a matéria, apenas na página da Perereca no Facebook, sem contar o mural do Face, o Google+, emails e o próprio blog. 

Marinor considerou a contratação de tantos assessores um “verdadeiro acinte”, tendo em vista a precariedade dos serviços públicos em Belém. 

Leia a reportagem: “Incrível! Prefeito de Belém tem mais assessores do que prefeito de São Paulo, a maior cidade do Brasil e a 7ª mais populosa do planeta”:


http://pererecadavizinha.blogspot.com.br/2015/02/incrivel-prefeito-de-belem-tem-mais.html 

E leia o que escreveu a Assessoria de Marinor, na noite de ontem, na página da vereadora no Facebook: 

VEREADORA VAI DENUNCIAR PREFEITO AO MPE 


"A reportagem 'Prefeito de Belém tem mais assessores do que prefeito de São Paulo", da jornalista Ana Célia Pinheiro, dando conta de que o prefeito Zenaldo (PSDB) tem mais assessores que o prefeito de São Paulo necessita de uma investigação imediata sobre o governo tucano de Belém. 
Por isso, já acionei minha assessoria jurídica que vai trabalhar neste final de semana para que no início da próxima semana possamos ir ao MPE solicitar imediata apuração.

É um verdadeiro acinte esse tipo de farra com o dinheiro público, enquanto a cidade de Belém vai ao fundo com uma chuva de meia hora, os hospitais e unidades de saúde municipais vivem na UTI por falta de tudo, as escolas sucateadas e os trabalhadores de educação, assim como todo o funcionalismo municipal, sendo desrespeitados em seus direitos mais elementares", disse Marinor." 

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Fantástico mostra situação alarmante dos postos de saúde brasileiros

Novamente o Pará é destaque em semanal da TV Globo. Infelizmente, como da maioria das outras vezes, de forma desabonadora. 
O Fantástico revelou as condições caóticas de postos de saúde pelo país e o abandono da Atenção Primária em Saúde, o que poderia, acaso funcionasse corretamente, evitar mais de 80% dos internamentos hospitalares. Dos oito postos de saúde mostrados na reportagem, quatro estão no Pará.

Como estão funcionando os postos de saúde Brasil afora? Fiscais dos Conselhos Regionais De Medicina saíram em busca dessa resposta. Visitaram mais de dois mil desses postos. E a situação é alarmante: falta remédio, falta equipamento. Às vezes, falta até estrutura. É essa a triste realidade que milhões de brasileiros enfrentam todos os dias.
O martírio de quem usa os postos de saúde no Brasil, muitas vezes começa antes mesmo da porta de entrada. Doze degraus separam a calçada da porta do posto onde pacientes com dificuldade de locomoção buscam ajuda.
“É difícil mas quem não tem tu, o que é que faz? Vai tu mesmo”, lamenta uma senhora.
O Fantástico entrou em diversos postos de saúde pelo país para mostrar a situação precária, caótica e escandalosa sofrida por milhões de brasileiros que dependem do atendimento do SUS - o Sistema Único de Saúde.
Nossa primeira parada é no estado do Rio de Janeiro. No município de São Gonçalo, existe um posto que não tem nem placa na porta.
“Parece uma casa abandonada. Ninguém diz que isso aqui é um posto de saúde”, diz uma mulher.
Na verdade, essa é só a primeira coisa que o posto não tem. Então, seja bem-vindo ao: Posto ‘não tem’. Paciente? Tem sim, doutor. Mas o resto...
Homem: Odontologia aqui não tem, não.
Fantástico: Há quanto tempo não tem raio-X?
Homem: Aqui tem mais de 2 anos.
Senhora: Os funcionários não têm água.
Fantástico: A senhora trouxe a água?
Senhora: Eu trouxe.
Mulher: Não tem água, não tem banheiro, falta mais médico.
Funcionária: Não temos enfermeira no posto. Não temos sala de medicação.
Fantástico: Você não consegue fazer um curativo aqui?
Funcionária: Não tem condição.
Fantástico: Tem uma seringa aqui?
Funcionária: Não tem nada. Não temos nada.
E para quem trabalha ali.
“Aqui tem caracterização de um pós-guerra. Parece que jogaram uma bomba e as pessoas retiraram e nós entramos para trabalhar”, revela uma médica.
Mas não é apenas no posto "não tem" que falta tudo isso. O Fantástico teve acesso com exclusividade a um levantamento feito pelo Conselho Federal de Medicina sobre a situação dos postos de saúde em todo o Brasil. E o diagnóstico não é nada bom.
Ao todo, 52% dos postos não tem negatoscópio, aquelas máquinas luminosas que o médico usa para ver o raio X. E 29% não tem estetoscópio. Em outros 32%, o que falta é aparelho para medir a pressão. E de cada quatro postos pesquisados, um não tem esterilização de materiais.
“O posto de saúde é um local de mais fácil acesso à comunidade, onde essa comunidade e os seus cidadãos podem ser atendidos em diagnósticos mais simples, em tratamentos mais simples e, se nós tivéssemos um sistema de atenção primária, ou seja de postos de saúde, onde a prevenção fosse eficaz, nós teríamos 80% dos casos da saúde resolvidos nesse sistema, evitando naturalmente a superlotação dos hospitais do SUS”, afirma o presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Vital.
A segunda parada da equipe do Fantástico é no norte do país, no Pará. E tem uma coisinha que acontece nessa região, que todo mundo que vive aqui sabe bem.
“A chuva quando vem, vem do nada, a gente tem que estar preparada”, conta uma mulher.
Por isso que é ainda mais revoltante que nesse local, onde chove todo dia, a gente encontre o próximo posto dessa reportagem, que vamos chamar de: "Posto cachoeira".
“Está correndo o risco de perder a medicação antes mesmo daquela validade que está escrita na medicação. Acaba sendo entregue uma medicação que a gente coloca em dúvida a sua eficácia”, afirma Jorge Tuma, do Conselho Regional de Medicina do Pará. 
E os funcionários sabem bem porque a situação chegou a esse ponto. “Esse prédio tem 10 anos. Nunca foi feito nenhuma manutenção”, conta um funcionário.
No mesmo estado, só que agora na periferia da capital, Belém, encontramos o que seria o: "Posto mágico".
Ao todo, 1,2 mil famílias são atendidas neste posto, mas nada é o que parece. A geladeira é estante. O freezer? Caixa de correio. A maca virou mesa e por último, o grande truque: a cozinha e o quintal se transformam em consultórios.
Enfermeira: Quando estão os médicos um dia eu atendo na sala e o médico atende aqui fora
Fantástico: Aqui fora onde?
Enfermeira: Aqui fora um dia é eu, um dia é ele. A gente reveza
Fantástico: Você já foi atendida lá na cozinha?
Mulher: Já. É bicho que está passando, a gente tem medo.
Fantástico: Que bicho você já viu ali dentro?
Mulher: Barata. É um constrangimento para gente que somo pobre. Tem tantas coisas que não são prioridade no nosso país, a saúde que tinha que ser prioridade não é.
Um outro posto tem um problema sério: ele fecha muito cedo. Então, poderia ser conhecido como: "Posto vapt-vupt". Ao todo, 900 famílias dependem desse posto de saúde mas o atendimento lá...
Enfermeira: Aqui a gente começa 7h15.
Fantástico: E vai embora que horas?
Enfermeira: Aqui a gente fica até 12h, 12h15.
Dona Maria Carmen Carvalho mora em frente ao posto. Com 68 anos, precisa se cuidar. Tem pressão alta e diabetes. Por isso tem em casa tudo para não depender do posto de saúde e controlar a quantidade de açúcar no sangue.
“Tá alta. Agora eu tenho que tomar a insulina”, diz a aposentada ao medir a quantidade de açúcar no sangue.
Maria Carmen: O problema é que não tem quem me aplique. Eu não sei me aplicar.
Fantástico: Por que não procura o posto do outro lado da rua?
Maria Carmen: Porque só funciona de manhã.
Uma das opções para dona Carmem seria ir a outro posto, mas fica longe e não tem transporte público. E aqui, a situação também não é das melhores.
Um dia o povo não aguentou a falta de remédios e ameaçou agredir quem trabalha na farmácia. Assim nasceu o: "posto blindado".
"Eu já fui quase agredida. Porque aqui era vidro e tinha esse buraco aqui era maior. Isso aqui é um papelão que nós botamos. Aí um senhor veio meio perturbado, não tinha o medicamento dele. Tinha um bocado de papel na mão, ele meteu, jogou na cara da outra minha colega que estava aqui sentada, a auxiliar, aí quis me pegar por aqui. Os meus superiores me pediram para cobrir para pessoa só pegar mesmo o medicamento e não olhar para cara da gente, só passar o medicamento e pronto", conta uma farmacêutica.
Mesmo assim a falta de remédios continua.
“Anti-inflamatório infantil não tem nenhum”, diz uma farmacêutica ao paciente.
Esse é justamente o remédio que o filho do Seu Silva precisava. “Eu estava correndo atrás da galinha eu furei o meu pé no quintal. O prego estava no pneu, furei”, conta o filho de Seu Silva.
O pai, preocupado, levou o menino até o posto. O médico receitou o remédio. Mas: “apenas não tem. Só isso que eles dizem. Não tem e não tem. Tem que comprar, tem que desembolsar, com o pouco que a gente ganha. Na realidade eu tinha R$ 5 mas aí eu comprei o analgésico anti-inflamatório aí sobrou R$ 2 de troco e o mototaxi não quis levar por R$ 2. A corrida é R$ 3”, lamenta o cabeleireiro Benizaire Silva.
Fantástico: E você mora perto do posto?
Benizaire Silva: Eu moro cerca de uns 3 quilômetros. Eu me sinto constrangido, me sinto humilhado.
O que o Seu Silva não sabe é que ele pagou duas vezes por esse remédio. Quem explica isso é o professor Ricardo Gomes, da Universidade de Brasília.
“O dinheiro sai do bolso do Seu Silva em termos de pagamentos de impostos e esse recurso vai para a União, vai para o Estado e vai para o Município. Ele é encaminhado para financiar o Sistema Único de Saúde e esse recurso é gerenciado pelas prefeituras e ele vai ser aplicado no posto de saúde e uma pessoa que pagou o imposto tem o direito de ir ao posto de saúde e ter o seu atendimento realizado porque ele pagou os impostos e ele participou desse processo todo”, ressalta o professor.
Em Maceió, o posto está fechado para reformas, e assim, o povo precisou de ajuda divina. “Há uns quatro meses a gente está aqui nessa igreja, que doou para a gente espontaneamente, sem cobrar custo nenhum”, conta a dentista Adeane Loureiro. Este é o: “Posto dos milagres”.
Os médicos, dentistas e enfermeiros fazem seus atendimentos nas salas e corredores do templo, mas a falta de equipamentos impede diagnósticos mais apurados. O que resta é a boa vontade dos funcionários, à espera de uma luz.
“A gente não pode fazer mais do que a gente está fazendo. A gente vem aqui todos os dias, a gente vai, sabe da real situação deles, tenta encaminhar para outro canto, mas fica de coração partido porque não tem como fazer”, afirma a dentista Adeane Loureiro.
Também em Maceió, existe um posto que parece ter saído de historinha para fazer criança dormir. É o: "Posto faz de conta"
Todo posto de saúde precisa enviar ao Ministério da Saúde um cadastro com o seu número de profissionais, a sua estrutura e tudo mais que tem no posto. Esse cadastro é chamado de CNES, que significa "Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde".
Nesse posto, o diretor administrativo faz de conta que tem tudo que tem no CNES. Faz de conta que tem raio X, que tem mamógrafo. E também faz de conta que tem 136 médicos trabalhando, mas na verdade só tem 63.
Fantástico: Quantos médicos tem aqui?
Cesar Oliveira, diretor administrativo: 63.
Fantástico: Esse aqui é o cadastro do CNES que eu imprimi ontem. Aqui está a data de atualização. Dia 2 de fevereiro. Está diferente do que você falou. Aqui diz médicos:135 profissionais.
Cesar Oliveira, diretor administrativo: 135 profissionais. Mas não tem isso tudo não. O CNES não está atualizado ainda.
Fantástico: Mas aqui diz que está atualizado no dia 2 de fevereiro.
Cesar Oliveira, diretor administrativo: Mas a gente não deu baixa. Em alguns médicos então não foi dado baixa.
Fantástico: Então mais da metade dos médicos já saíram e não está atualizado?
Cesar Oliveira, diretor administrativo: É.
O problema não é só o número menor de profissionais trabalhando. Há uma outra questão envolvida: a quantidade dinheiro que o governo federal repassa aos municípios.
“Você tem um controle de verbas que são repassadas da federação, da União aos estados e municípios e que são verbas repassadas com base exatamente nos números de profissionais que estão ali lotados, que estão cadastrados dentro do próprio CNES”, ressalta o presidente do CFM, Carlos Vital.
Em todos os postos que o Fantástico visitou nessa reportagem, o que estava no cadastro enviado ao governo não era o que de fato se via nos locais. Mas o Ministério da Saúde nega que o cadastro seja usado para calcular o repasse de verbas.
“Ele é um cadastro nacional de estabelecimentos. Isso que é o CNES. Ele não é base para o financiamento federal para a rede básica. Portanto ele não interfere na definição do financiamento federal para a rede básica”, destaca a secretária de Atenção à Saúde, Lumena Furtado.
Já a Controladoria-Geral da União, a CGU, afirma que sim, existe relação entre o cadastro do CNES e o repasse de verbas destinadas à atenção básica de saúde do governo federal para os municípios. Em 2014, a verba em questão foi de R$ 20 bilhões.
No meio desse disse me disse do governo, quem espera sofrendo é a população. E em uma comunidade, no interior do Espírito Santo, o povo ficou cansado de esperar.
“Vamos pegar, um pouco vem aqui vamos peneirar areia e quatro já vai mexendo aquela masseira lá e mais um pouco vão lá dentro começar a fazer o piso e botar a porta, tem que botar no lugar”, ordena um homem à um grupo.
O posto de saúde de lá mal saiu do papel. Há dez anos a prefeitura começou a construção. Cinco anos depois, o posto ainda não estava pronto e a obra foi abandonada.
“Aí a comunidade se reuniu e decidiu, ou vamos derrubar o posto ou vamos terminar ele. Aí optamos para terminar”, conta Edilson Gotardo, agricultor e organizador do mutirão.
Posto: "Faça você mesmo"
“Hoje a gente só tem o sábado para trabalhar porque a maioria do povo trabalha na roça aqui, de semana, então a gente se reúne no sábado. Nem tudo conseguiu doação, então eu já dei o cheque lá na barra, ele me deu uns dias de prazo, para gente poder estar juntando dinheiro, arrecadando para poder está pagando isso aí. A gente não desiste fácil não”, afirma Edilson, organizador do mutirão.
E esse lugar onde é o povo que usa as próprias mãos para construir um posto de saúde, tem um nome que serve de inspiração para todos: Distrito Novo Brasil.
“Então agora com o postinho a gente vai ver se consegue maca, essas coisas, para poder está sendo digno, dignidade”, completa Edilson, organizador do mutirão.
Procuradas pelo Fantástico, todas as secretarias municipais de Saúde responsáveis pelos postos mostrados nesta reportagem responderam por notas.
A Secretaria do Rio de Janeiro, responsável pelo posto que não tem rampa de acesso na entrada, disse que a reforma está programada para começar em seis meses.
Com relação ao posto que chamamos de “não tem”, a Prefeitura de São Gonçalo alegou que o que falta no posto está disponível em outras unidades do município.
A Secretaria de Marituba, no Pará, responsável pelo posto com goteiras, disse que o teto vai ser reformado.
Em Belém, estão os postos chamados de “mágico”, “vapt-vupt” e “blindado”, a prefeitura afirmou que instaurou procedimentos administrativos para apurar todos os problemas.
Em Maceió, a prefeitura afirmou que vai resolver os problemas no cadastro do posto chamado de “faz de conta”. Em relação aos funcionários que atendem em uma igreja, informou que as obras do posto onde eles deveriam trabalhar serão concluídas em até 40 dias.
E no Espírito Santo, onde a população constrói o próprio posto, a prefeitura de Governador Lindenberg afirmou que vai terminar a obra até o ano que vem e que os moradores não têm autorização para fazer o trabalho por conta própria.

Paraense recebe menos que o mínimo. É o que mostra pesquisa do IBGE

Trabalhador paraense ganhava, em média, R$ 631, a quarta pior renda per capita do Brasil (Foto: Rogério Uchôa/Arquivo) 

No ano passado, a renda mensal média da população do Pará ficou abaixo do salário mínimo vigente na época. Enquanto os trabalhadores brasileiros receberam um mínimo de R$ 724,00, o paraense ganhava, em média, R$ 631,00, o quarto pior rendimento per capita do país.    

As estimativas de rendimento nominal domiciliar per capita em 2014, com a média do país e de cada uma das 27 unidades da federação, foram divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), tendo por base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. O rendimento nominal domiciliar per capita médio do brasileiro foi de R$ 1.052,00. 

Os dados são referentes ao quarto trimestre de 2014. As piores rendas registradas pelo IBGE são dos estados do Maranhão (R$ 461), Alagoas (R$ 604),Ceará (R$ 616), Pará (R$ 631), Piauí (R$ 659) e Acre (R$ 670). A maior renda per capita do país no período no ano passado foi do Distrito Federal: R$ 2.055.   

O Amazonas, estado vizinho, teve rendimento domiciliar per capita de R$ 739, em 2014. Com o valor o Estado ocupou a 18ª posição entre as 27 Unidades da Federação. Entre os sete estados da região Norte, Roraima aparece em primeiro lugar com R$ 871 por pessoa em cada domicílio. Mesmo assim ficou bem distante da primeira posição nacional, ocupada pelo Distrito Federal.   

Os maiores rendimentos nominais domiciliares estão todos localizados nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste. Em São Paulo, que tem o maior parque industrial do país, o valor é R$ 1.432. Goiás, tem rendimento nominal domiciliar, por pessoa, de R$ 1.031. Atrás do Distrito Federal e de São Paulo, estão os três estados do Sul: Rio Grande do Sul, com R$ 1.318; Santa Catarina, com R$ 1.245, e o Paraná, com R$ 1.210. Em seguida está o Rio de Janeiro (R$ 1.193). 

RENDIMENTO   

Todos os estados do Norte e Nordeste têm rendimento nominal familiar per capita abaixo dos R$ 1 mil, como valores de R$ 604, em Alagoas, e R$ 758, em Sergipe.    

O levantamento feito pelo IBGE mostra as desigualdades regionais. O Espírito Santo, por exemplo, tem rendimento nominal per capita equivalente exatamente à média nacional. Por outro lado, apenas seis unidades federativas estão acima da média. Mas a realidade é que 20 estados brasileiros estão abaixo da média nacional.   

Como São Paulo é o estado mais populoso do país e fica em segundo lugar na renda domiciliar per capita, puxa a média nacional para cima. Outro valor que pesa nesta medição é a renda média do Distrito Federal, quase um oásis no país de renda média de pouco mais de mil reais. A renda do DF, para se ter uma ideia, é mais de três vezes a renda per capita mensal do Pará.   

As informações divulgadas pelo IBGE serão encaminhadas ao Tribunal de Contas da União (TCU) e as estimativas de rendimento domiciliar per capita servirão de base para o rateio do Fundo de Participação dos Estados (FPE), conforme definido pela Lei Complementar 143, de julho de 2013.   

A Pnad Contínua é uma pesquisa domiciliar que, a cada trimestre, busca informações socioeconômicas em mais de 200 mil domicílios, distribuídos em cerca de 3,5 mil cidades. Os rendimentos domiciliares são o resultado da soma dos rendimentos, do trabalho e de outras fontes, recebidos por morador no mês de referência da entrevista, considerando todos os moradores do domicílio.   

O rendimento domiciliar per capita é calculado com base no total dos rendimentos domiciliares e o número de moradores, para cada unidade da Federação e o Brasil, considerando sempre os valores expandidos pelo peso anual da pesquisa. 

(Fonte: Diário do Pará)