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quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Amor e silêncio no velório de minha avó

por Ericson Aires

Eu nunca fui de não gostar das pessoas, mas quando eu morava em Igarapé-Miri, ainda adolescente, tinha uma senhora que eu não suportava, e ela,  idem.  Antes da minha vó morrer, descobrir que  ambas trabalharam juntas e, por um motivo qualquer, também não se davam bem.

No dia do velório da minha vó, essa senhora apareceu em casa, de longe eu fitava-a. Não a queria ali.

Em cidade pequena velório é aquela coisa, às vezes mais parece festa. Já vi vezes que se mata boi inteiro para dar de comer para os que vão chorar o morto. Lá em casa, enquanto todo mundo chorava a morta, essa senhora apenas  trabalhava.

Fez comida, café, arrumou a casa e tudo mais que ela podia fazer. Trabalhou por mais de dez. No decorrer do dia esqueci-me dela. Já na madrugada, quando as coisas estavam mais calmas, fui à cozinha e ela estava lá, exausta, dormindo em uma cadeira. 

Muitas das minhas lembranças viraram pó, mas essa, essa não. Aquilo ali, para mim, foi uma das coisas mais marcantes da minha vida.

Sem uma só palavra, aquela senhora, me diz até hoje: a voz do silêncio ainda é a melhor forma de falar de amor.
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Ericson Aires é livreiro, vive em Santarém, oeste do Pará e é idealizador de diversos projetos, como o Sebo Porão Cultural, que ajudam a despertar o interesse das pessoas pela leitura.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Chacina deixa 62 mortos em três dias

Barbárie total às vésperas do aniversário de um ano da última chacina em Belém. Esta, maior e mais perversa. 61 mortos em um único sangrento final de semana. 

As mortes são fruto de provável ação de milicianos, que reagiram em represália ao assassinato do soldado Pedroso, que era da Ronda Tática Metropolitana (ROTAM/PM).
Caçada levou a execução de suposto assassino de PM

Na noite de hoje, um dos supostos envolvidos (imagem) no assassinato do PM, que se encontrava sob custódia da polícia na UNIMED Belém da Domingos Marreiros, bairro de Fátima e que respondia pelo apelido de "Pocotó", foi executado. Inclusive a imagem que circula pelo WatshApp, tem os dizeres "Assassino do sd.pedroso." e "VULGO POCOTO". O que sugere a vingança pela morte do soldado, a caça e por fim a execução de "Pocotó".

Resta a pergunta: quais os responsáveis por essas mortes? 
Ao se considerar o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias e Grupos de Extermínio com atuação no interior da Polícia Militar, realizada pela Assembleia Legislativa do Pará, a motivação da CPI fora a chacina de cerca de 11 pessoas inocentes em novembro de 2014 em Belém, e o texto é categórico: " A cultura organizacional da Polícia Militar favorece a formação de milícias e grupos criminosos".

A chacina de novembro ocorreu horas depois do assassinato do Cabo Pet (que estava afastado da PM). Segundo a CPI das Milícias, a morte dele foi em decorrência da disputa por aéreas de influência entre grupos criminosos. A chacina deste final de semana e as 62 mortes até aqui registradas pela Polícia Civil, ocorreram logo depois da morte do soldado da ROTAM. E isso não é mera coincidência.

Alô, governador!

O terror está espalhado na capital do Pará e Região Metropolitana de Belém. No Zap Zap circulam áudios e mensagens, supostamente de policiais militares, falando para a população não sair às ruas.

Enquanto a violência está generalizada e a matança e genocídio de inocentes e moradores das periferias seguem a todo torpe vapor, o governador Simão Jatene (PSDB) e a cúpula tucana da segurança pública do estado, estão inoperantes e de bicos calados.

Basta de genocídio de pobres e de negros!
Basta de chacinas em Belém!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Construir para destruir


Por Karina Miotto

Canteiro de obras no rio Madeira (foto: Consórcio Santo Antônio Energia S/A, cedida por Telma Monteiro)

O governo federal está convicto de que investir em hidrelétricas na Amazônia é um bom negócio. “Para quem?”, questionam-se ambientalistas e pesquisadores, além de populações que serão atingidas por obras megalômanas como Santo Antonio e Jirau, em andamento no rio Madeira (RO), e de outras dez planejadas para o rios Teles Pires (MT) e Tapajós (PA), cada uma com cinco usinas, além de Belo Monte, no Xingu (PA). Há quem diga que elas podem selar a destruição da floresta. O presidente Lula parece não se incomodar, e deu sinal verde para outras Usinas Hidrelétricas de Energia (UHEs) para a região.

A quantidade exata é incerta, pois nem órgãos oficiais como a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ligada ao Ministério das Minas e Energia, consegue responder quantas obras deste porte estão previstas para a Amazônia brasileira. Os números do Plano Decenal de Expansão de Energia 2019, por exemplo, referem-se genericamente apenas à “região norte”.

Para fechar o quebra-cabeças, a ONG International Rivers analisou documentos oficiais e chegou a uma conclusão de assustar: afirma que o governo planeja construir 68 empreendimentos na Amazônia brasileira, entre UHEs e Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs). Não à toa, a EPE afirma que 66% do potencial hidrelétrico a ser explorado no país está na floresta. “A destruição tem um custo alto que não está sendo levado em conta. É óbvio que o governo não estudou impactos de todas as barragens planejadas e nem debateu isto com a população, antes de fazer seus planos”, diz Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA).



Ao ofertar energia, criam-se condições para que mineradoras e metalúrgicas tenham interesse em explorar os recursos da região amazônica. "Querem transformar o Brasil em fornecedor de energia barata para multinacionais. Esta é uma atitude colonialista baseada na guerra econômica e não nas necessidades sociais", afirma Oswaldo Sevá, professor das faculdades de engenharia mecânica e de ciências sociais da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).